segunda-feira, 18 de junho de 2018

A culpa é do professor: outro "p" deste país


* Levon Nascimento

Utilizar erroneamente as redes sociais é fonte de dores de cabeça. Um dia da caça, outro do caçador. Embora este texto não seja sobre redes sociais, mas a respeito do suicídio profissional que se cometeu ao tratar os professores de Taiobeiras como larápios, na semana que passou, através das ditas ferramentas de comunicação virtual.

Para ser professor o cidadão tem que fazer graduação superior, pós-graduação lato sensu e vários cursos de aperfeiçoamento ao longo da carreira, como em qualquer profissão liberal: médicos, advogados, enfermeiros, engenheiros, etc.

Mas são mal pagos. Ultimamente nem têm recebido em dia, além do parcelamento dos salários ao longo do mês. Isso sem falar do desrespeito cotidiano de alunos malcriados, estruturas escolares sucateadas e a concorrência, pelo interesse dos estudantes, com a mídia venal e o tráfico.

No entanto, geralmente os pais de alunos, que empurram os rebentos aos cuidados dos “mestres”, têm colocado a culpa nesses pela crise financeira pela qual passa o setor de educação.

A Constituição de 1988 é muita clara em dizer que educação é direito de todos e dever do Estado, da família e da sociedade.

Acontece que o Estado brasileiro, no pós-golpe de 2016, tem retirado recursos, acabou com a regra de destinação dos royalties do Pré-Sal para as escolas e trata os professores como estorvo e não como ativo.

Enquanto os altos escalões da República ganham acima do teto, viajam para receberem premiações escusas em paraísos fiscais e auferem auxílio-moradia mesmo tendo casa na cidade em que trabalham, professores são tratados como culpados pela falta de recursos públicos, pelos baixos índices educativos do país (como se fossem os únicos responsáveis por isso) e ainda têm que sustentar a atividade de ensino com recursos próprios, pois sem isso não conseguem trabalhar.

Nem se fala do risco de aprovação da lei de censura “escola com mordaça”.

É o xerox das atividades, a vaquinha para a festa do dia das crianças e do estudante, os refrigerantes para servir na recepção dos pais e mães de alunos no dia da festa da família na escola. Tudo sai do bolso dos professores. Além de serem babás de algumas crianças cujas famílias não se importam (ou não podem?) em ofertar o mínimo de ensinamentos para saberem viver em coletividade com respeito.

Pois não é que em Taiobeiras esses mesmos professores estão sendo acusados de “viajar para praia às custas dos pais”? Aliás, para as “melhores praias do Brasil”. Tudo na teia do Mark Zuckerberg.

É triste ver proletário atacando proletário, pobre atacando pobre, pais de alunos atacando professores. Enquanto isso, os grandes riem de nós.

Rede social aceita tudo. No passado era o papel. Com outros ditados, “quem conversa demais dá bom dia a cavalo”, “muito ajuda quem não atrapalha” e fulano “calado é um poeta”.

Viva as professoras e os professores deste país!

* Professor de história, escritor e mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas.

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