segunda-feira, 26 de junho de 2017

Conto: O menino e a fogueira

* Levon Nascimento

Era uma vez um menino que sonhava o ano inteiro com a noite da fogueira. Ele não tinha quase nada, só a esperança das luzes produzidas por aquele fogo santo. Para a pobre criança, era quando tudo ficava diferente.

Esperava ansiosamente pelos traques, foguetes, chuvinhas de prata, biscoitos de goma de mandioca, xotes e baiões. Naquela noite de luz, pensava, tudo contribuía para que se sentisse gente e feliz.

Chegou a data. Escureceu mais cedo. Noites frias de junho no sertão.

Sob bandeirolas, pilhas de lenha amontoadas em frente a cada casa da vizinhança, à espera do ritual de riscar o palito de fósforo, menos na morada do menino que tanto desejara aquele momento.

Quanto mais a noite caía, uma a uma, as fogueiras eram acesas pelos pais de cada família. Ao brilhar o fogo, se via a alegria da criançada correndo, barulhando, atirando os fogos que ganharam, provando da magia daquele instante pelo qual ele tanto esperara.

E o menino sozinho, triste, amargurado e desesperançado. Pobre, mais do que nos outros dias. Parece que a miséria do ano inteiro também se recusava a partir naquela hora.

É que o pai do menino havia saído um mês antes para trabalhar fora, boia-fria, sem terra, espoliado pela sanha dos coronéis da região, e não voltara ainda.

Aquela que deveria ter se tornado a noite mais linda, era agora o momento do desprezo e do desamparo. Sim, porque o menino se sentia desprezado pela vida e desamparado pela sorte.

Onde estaria seu pai? Por que não viera preparar e acender a fogueira? Por que não trouxe seus fogos? Por que não compareceu com o pão de cada dia? E o menino chorou.

A lágrima que escorreu de seus olhinhos castanhos, da cor de tantos olhos de meninos desvalidos do sertão, rolou até o chão ressequido e poeirento de junho. Foi quando uma menina franzina lhe tocou a cabeça, abaixada de tristeza, chamando-o para ir brincar em volta da fogueira da casa em frente.

Ele até relutou em levantar o semblante, envergonhado das lágrimas que ainda caíam. Mas se pôs de pé e a seguiu.

Chegando lá, poucos passos adiante, olhos ainda banhados em choro, mas fixos no fogo que devorava as lenhas com o mesmo apetite com que moleque guloso engole uma boa canjica ou um pedaço de pão-de-ló, a partir do convite e do gesto de compaixão da menina, enxergou além da luz que dali se desprendia e viu mundos diferentes.

Lugares de gente sem tantas necessidades insatisfeitas quanto as dele. Países de abraços e carinhos, com mesas fartas, casas confortáveis, roupas bonitas, livros ilustrados e histórias fantásticas. Espaços sem dor e injustiças, nos quais a terra é de quem nela trabalha e em que os pais não precisam ser boias-frias como o seu. Viu homens que não subjugam as companheiras, mulheres que não se deixam subjugar e crianças que ao invés de trabalhar duro – como ele – leem e se divertem. Enxergou a fantástica maravilha de não existirem mais coronéis nem capangas, nem homens que os obedecem ou que apanham deles. Percebeu que nesse lugar as armas foram trocadas por flores e a alegria vive estampada no rosto de cada pessoa. Em sua visão através da fogueira, as pessoas poderosas eram aquelas que dão a mão a quem tem a mínima precisão que for.

A fogueira tornou-se um portal. O universo parou naquele instante que envolvia dor e mistério, contemplação e êxtase. O menino percebeu quem era e o que poderia ser, em que mundo vivia e para o qual lutaria por transformá-lo.

“Acorda, João! Acorda!” – ele ouviu longe. Logo a voz conhecida se tornou próxima. “Acorda, João!”. Era Zacarias, o pai do pobre menino, atrasado pela falta de transporte, que acabara de chegar. Nas costas trazia um fardo com várias coisas, fogos, alimentos, roupas e alegria no semblante, fortemente marcado pelo tempo e pelo trabalho. Estava feliz em rever o filho. Isabel, a mãe, já estava preocupada com a demora do marido e a tristeza da criança.

O menino João acordou de seu sonho, devolvido ao mundo real através do limiar aberto na luz da fogueira da vizinhança, despertado pela voz enternecida do pai. Abraçou-o, em gesto pouco comum na crueza do sertão. Afinal, ele vira esse carinho na visão do instante anterior.

João não estava mais infeliz. Acordara. Para a vida. A fogueira, mística, lhe revelara que um outro mundo é possível, menos injusto, fraterno e solidário. Agora era possível viver a alegria poética daquele curto interregno de amor.

Uma cantiga popular tocava em alguma casa. O som chegava para embalar a surreal lição que aprendera naquela noite de alegria verdadeira: “São João está dormindo/ Não acorda não!/ Acordai, acordai, acordai, João!”

2 comentários:

ABRINDO ESPAÇO EM BUSCA DE SONHOS disse...

Perfeito o seu conto, companheiro!
Que essa tão sonhada "fogueira mística", acenda em nossas mentes e revele-nos, assim como ao João "... um outro mundo é possível, menos injusto, fraterno e solidário."
Que a utopia de um conto torne-se realidade aos milhões de Joões esplalhados por esse Brasil a fora...

Paulinho Taiobeiras disse...

Linda história meu amigo Leblon! Confesso que tenho um pouco de aversão a festas, sempre compartilho da tristeza de quem não tem, seja por motivos financeiros ou de quem tem que seguir regras impostas pelos pais que com suas crenças impõe aos filhos as regras se esquecendo que são apenas crianças e portanto no mundo deles tudo é permitido e nada é pecado! Mas enfim se o mundo fosse perfeito não existiria a promessa de um paraíso no céu.