sábado, 20 de maio de 2017

Artigo: Será que não tem ninguém honesto?

Por Levon Nascimento

Chamam-me ingênuo, outras vezes de fanático e partidário. Partidário não tem problema. Todo mundo é, ainda que não perceba ou admita. E não tem nada de mal nisso. Porém, a bem da verdade - que é relativa -, tento me guiar pelos métodos das ciências sociais, minha área de formação, buscando quando possível me afastar do senso comum e realizar um raciocínio minimamente lógico.

Santo é Deus e os que seguiram o exemplo de Cristo, conforme a doutrina cristã predominante no Brasil. Cá na Terra somos apenas humanos, sujeitos a erros, contradições e falhas. E estamos sujeitos à história, à qual construímos em nossa existência física e material. Não adianta esperar santidade de políticos, juízes, promotores, policiais, professores, empresários, mães, pais e filhos... etc. São sujeitos históricos.

Políticos de quaisquer partidos representam interesses. Efetivamente o que existe é a luta de classes, conforme nos advertiu o filósofo Karl Marx. Uns representam a classe dominante, geralmente comprados por ela com propinas – a maioria dos políticos. Outros representam a classe trabalhadora, a minoria. As recentes gravações divulgadas revelam isto: megaempresário comprando juízes, procuradores, deputados, presidente da República...

Não é uma luta entre o bem e o mal. Daí a ineficiência do discurso dual "honestidade X corrupção", “gente de bem” X “bandidos”. A realidade é muito mais complexa do que isto. Quando a Globo denuncia seus amigos Temer e Aécio, não está do lado da classe trabalhadora, embora pareça estar do lado da moralidade. Quando algum partido de esquerda chafurda na lama das propinas, corrompendo-se, não significa que tenha deixado o lado da classe trabalhadora. Mas é difícil ao cidadão médio, que não acompanha a política, compreender essas nuances. E, de fato, injuria a qualquer um de nós que labutamos muito para sobreviver dignamente. Mas tente não parar na preguiça dos chavões. Eles também são construídos por quem tem interesses políticos, geralmente não iguais aos seus.

Diferentemente da narrativa da grande mídia, o problema do país não são apenas os "políticos corruptos". Interessa a uma determinada classe que você pense assim. Lembre-se, não há isenção de ninguém, nem mesmo sua. Você age motivado por interesses, ideologias, etc., ainda que não perceba.

Por trás dos políticos corruptos há uma imensa rede de empresários corruptores. Sim, os megaempresários não são vítimas. São os que pagam propinas para poderem se valer do Estado (que deveria ser de todos) a fim de lucrar (e muito) em seus respectivos negócios. Em outras palavras: a corrupção, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é parte integrante do sistema capitalista. Um não existe sem a outra. Não há capitalismo sem corrupção.

O político corrupto é como o guarda que aceita suborno. O empresário corruptor é como o motorista que oferece dinheiro ao guarda. Ambos são o problema. Mas, lembre-se, “toda generalização é burra” e empobrece a compreensão correta dos fatos. Não se trata de demonizar políticos e empresários, mas de compreender a dinâmica do sistema, este sim, corrompido e corruptor.

Não existe imparcialidade do Judiciário ou da imprensa. Os desvios e as provas dos crimes de Aécio e de Temer já eram do conhecimento da mídia e dos juízes há anos. Só usaram agora por interesses que ainda não supomos exatamente quais são.

Há uma luta de classes no ar: aprovar reformas que retiram direitos dos trabalhadores para o mercado lucrar mais. Para isto fizeram o terremoto na política, criaram a Lava-jato, tiraram do poder uma presidenta eleita e colocaram o fantoche Temer. E, como ele não está dando conta do recado, pretendem tirá-lo e eleger alguém indiretamente, para que o mesmo faça o que a classe dominante deseja: aprovar as reformas da previdência e trabalhista.

Pode parecer ingenuidade de quem escreve, mas por enquanto há provas e mais provas reveladas na mídia (gravações, etc.) contra Cunha, Aécio, Temer e outros líderes políticos a favor do mercado – embora eles nunca tenham sido incomodados pela tal Lava-jato – do que contra Lula e Dilma, que embora tímidos nas políticas de transformação social, representariam algum risco à classe dominante. Não estou dizendo que são santos, mas a bem da lógica racional, nenhuma prova real e concreta contra eles foi apresentada até o momento em que escrevo este artigo, levantando a suspeita de que a Justiça age para destruir um lado do espectro político (a esquerda) e não para limpar a "mancha da corrupção", como muitos ainda acreditam.

Muitos imaginam que penso assim por ser "um fanático petista", mas ao contrário, repito, tento pensar pela lógica da consciência de classe e tentando fazer uso da razão e dos métodos das ciências sociais.

Enfim, O discurso antipolítica, o de que "nenhum presta" ou "fora todos eles", supostamente apartidário, é fácil de fazer porque não exige raciocínio de quem abre a boca para dizê-lo. Porém, foi esse discurso que abriu espaço para o nazismo na Alemanha em 1933 e para Trump, nos EUA, em 2016. O Hitler e o Trump brasileiros estão prontinhos, à disposição, para tomarem o poder, caso você caia nessa manipulação já testada historicamente. Pense nisso. Pesquise a história.

#DiretasJá

* Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

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