sábado, 4 de fevereiro de 2017

Artigo: O espírito do tempo

Publicado originalmente no jornal Folha Regional, n. 265, ano XIII, Taiobeiras/MG.

Por Levon Nascimento

Zeitgeist é a expressão alemã para “espírito do tempo”. Algo como “para onde o vento sopra”. O atual zeitgeist interrompe a civilidade e conduz a humanidade de volta à barbárie.

Ao final da segunda guerra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada. Era preciso apagar as manchas vergonhosas do nazifascismo e de Hiroshima e Nagasaki. Discriminação racial, perseguição ideológica, machismo, misoginia, xenofobia e totalitarismo foram combatidos com leis e educação nas nações modernas.

O “politicamente correto”, mais do que padrão de etiqueta, tornou-se a norma das sociedades civilizadas. Há 20 anos seria impensável um presidente-eleito americano, “republicano” ou “democrata”, ironizar uma pessoa com qualquer tipo de deficiência. Mesmo na esfera privada, se fosse flagrado, teria a carreira arruinada. Hoje é aplaudido.

A crise do capitalismo neoliberal de 2008, repetindo a tragédia da primeira metade do século XX, rompeu com isso e abriu espaço para o zeitgeist da falência das instituições reguladoras. O Estado nacional, a universidade, a instituição religiosa, a imprensa tradicional e as democracias já não guiam o homem comum.

O que antes era motivo de vergonha, hoje é exaltado orgulhosamente nas redes sociais ou reverberado com frequência no cotidiano real. Tornou-se “normal” disseminar o ódio contra as minorias, discriminar a pessoa negra, espancar ou matar a mulher que não se submete ao homem, repudiar as políticas afirmativas para as etnias vilipendiadas, aplaudir torturadores em sessões parlamentares, regredir na superação da homofobia, defender a morte, o tratamento indigno e as condições subumanas dos presidiários, golpear o Estado laico.

É o zeitgeist da era da pós-verdade. Com a internet, o homem comum tem acesso a todo tipo de informação às quais ele recebe e transmite. Num sistema ideal poderia ser a chance de democratizar a comunicação, mas se tornou o esgoto da alma humana. Mentiras se misturam a verdades e são propagadas em tempo real, confundindo, manipulando e nublando a vida social.

“Gente de bem” ou “pessoa honesta”, expressões de presunção e vaidade de quem pouco sabe sobre a complexidade da vida humana, tornaram-se bandeiras de difusão de ódio de uma classe média acuada pela perda de status econômico e confrontada pela ascensão de quem ela considerava subalterno.

Homer Simpson, o imbecil protagonista da série “The Simpsons”, fez-se de carne-e-osso e infesta os ambientes sociais com seu discurso infame, geralmente comemorando chacinas em presídios do terceiro mundo ou defendendo homens que ainda matam suas companheiras pelo decadente conceito de “legítima defesa da honra”.

Este zeitgeist permitiu o renascimento do nacionalismo xenófobo na Europa, a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a guinada à direita na América Latina e o golpe de Estado parlamentar no Brasil. Também é o responsável por uma onda mundial de retirada de direitos arduamente conquistados pelos pobres e trabalhadores. No Brasil, manifesta-se na aprovação do trágico congelamento dos gastos sociais por 20 anos e nas indecentes propostas de reformas trabalhista e previdenciária.

Qualquer tentativa de discurso racional ou de bom senso é combatida com violência simbólica e, não se duvide, pode chegar às vias de fato. Fundamentalmente, é a nova forma da igreja do Mercado adorar o deus Capital.

Uma das poucas vozes de respeito contra este zeitgeist é o Papa Francisco, sobretudo no atendimento aos refugiados que batem às portas do continente europeu, correndo das guerras patrocinadas pelo centro do capitalismo em seus países de origem. Não por acaso, ele enfrenta uma rebelião dos cardeais apegados ao velho farisaísmo clerical. Nas palavras do pontífice argentino, o mundo já vive uma terceira guerra mundial, velada e hipócrita, porém igual ou mais letal do que as anteriores.

Que o espírito do tempo não nos conduza à paz dos cemitérios.

* Levon Nascimento é professor de História em Taiobeiras/MG e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil e Fundação Perseu Abramo.