sábado, 26 de novembro de 2016

A gente folclórica de Taiobeiras

* Levon Nascimento

Taiobeiras (e, geralmente, as demais pequenas cidades) é ingrata com as pessoas que brilham ou que têm potencial para crescer no que fazem, especialmente no mundo do livre-pensar, da literatura, da música e das demais artes.

Tenho um tanto de amigos nesta situação. Podem até ser reconhecidos localmente (ou, vítimas da inveja, detestados), mas com o passar dos anos, imersos num mar de medianidade (para não usar termo mais forte, que poderia ser interpretado ofensivamente), tornam-se pitorescos, típicos e (por que não?) folclóricos.

São indivíduos julgados acima da média, mas que não encontram meios de crescer e de avançar por aqui. Tornam-se "pontos turísticos" da aldeia, "patrimônio histórico e cultural" e "museus" a ajuntar poeira da indiferença. Usados como decoração chique em momentos de necessidade especial.

Para os dias atuais, são o que o grande professor Juventino Nunes foi para Salinas na década de 1920: uma luz brilhante ofuscada pela truculência do coronelismo ignorante.

Isto decorre de vários motivos, dente eles a pouca demanda por serviços intelectualmente mais sofisticados, resultado do baixo nível educacional e dos seculares preconceitos em relação à cultura e às artes. Mercadoria de pouca saída. Mas é também fruto de uma política deliberada de negação do saber e de medo das transformações que ele pode provocar.

Para muitos concidadãos, só é gente por aqui quem anda de carro de luxo e ostenta grifes de primeira.

* Professor da rede estadual, escritor e mestrando em "Estado, Governo e Políticas Públicas".

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