terça-feira, 29 de março de 2016

Capazes de vender o Brasil e os brasileiros enrolados na Bandeira Nacional

* Levon Nascimento

“A nossa bandeira jamais será vermelha” – gritam os manifestantes da classe média branca pelas ruas das principais capitais brasileiras, vestindo a camisa amarela (ou azul) da corrupta CBF, com os rostos pintados de verde-amarelo e paramentados com todo tipo de enfeite – quando não, com o próprio – que mimetizam o pavilhão nacional (Bandeira do Brasil). Não! Não é uma cena extraída do túnel do tempo, direto de 1964, do contexto de polarização capitalismo X socialismo, típico da Guerra Fria. Ocorre no ano de 2016, em pleno século XXI, tendo como pano de fundo os governos do PT, partido que, mesmo se declarando de esquerda, conduziu um governo genuinamente de estímulo ao mercado capitalista, seja ele o de consumo, através do Bolsa Família e dos demais programas de inclusão social, seja o financeiro, facilitando os altos lucros bancários através de taxas de juros elevadas. Causa espanto ver pessoas supostamente estudadas e bem informadas acreditando que os governos Lula e Dilma tramam a implantação de uma “ditadura comunista” (sic). É a típica ignorância da classe média que, como diz o sociólogo Jessé de Souza, é sadomasoquista, pois prefere mobilizar e vocalizar bandeiras de interesse da alta burguesia financeira e industrial, que a prejudica com altos preços em bens e serviços, do que reconhecer-se explorada e unir-se à luta dos demais trabalhadores. Na ausência de discurso ou de projeto minimamente racional, essa gente prefere se alimentar do vazio das teorias conspiratórias e enxergar no fantasma do comunismo, em plena era da globalização, o sentido para mascarar suas frustrações, medos e preconceitos. Ignorantemente perfilada com o neoliberalismo desnacionalizante, faz isto vestida com a bandeira nacional. Haja contradição! Mas não enxergam.

A história da Bandeira Nacional é curiosa. Originalmente foi desenha pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret – artista que veio nas missões artísticas patrocinadas por dom João VI – por encomenda de Pedro I assim que a independência foi proclamada em 1822. É composta de um retângulo verde, representando a casa de Bragança, família do imperador, e de um losango amarelo, símbolo da casa real austríaca dos Habsburgo, dinastia da primeira imperatriz brasileira, dona Leopoldina. Com a República, o brasão do Império em seu centro foi substituído por uma esfera azul, ornada de estrelas brancas – referentes às unidades da federação –, conforme a disposição das constelações visíveis no céu do Rio de Janeiro durante a noite de 15 de novembro de 1889, e por uma faixa igualmente branca onde está escrita a frase “Ordem e Progresso”, lema do positivismo francês – influência sobre as mentes dos militares brasileiros que deram o golpe republicano – que dava sentido ao imperialismo e neocolonialismo explorador europeu em fins do século XIX. Sim, a frase “Ordem e Progresso” não tem nada de nobre! Os que a inventaram pensavam tão somente na manutenção da “ordem” capitalista e exploratória dos povos brancos europeus sobre o resto do planeta. O “progresso” desejado por eles era o mesmo dos que não se importam em desmatar, poluir ou deixar barragens de rejeitos de minério se romperem sobre povoados desprotegidos e grandes rios de importância regional, como a Samarco fez em Mariana recentemente. Mesmo assim, nada tira a beleza do “símbolo augusto da paz” – como canta o Hino à Bandeira – nem seu sentido afetivo de sinal maior da união de todos os brasileiros. A Bandeira do Brasil não pertence apenas aos que vociferam odientos, favoráveis ao golpe de estado travestido pelo termo anglo impeachment. Ela igualmente é dos trabalhadores, artistas, intelectuais e estudantes que marcham de vermelho pela democracia, bradando “Não vai ter golpe! Vai ter luta”! Ou, mais legitimamente a estes últimos.

As pessoas que se vestem de Bandeira Nacional para gritar “Fora Dilma”, “Fora Lula”, “Fora PT”, “Menos Paulo Freire”, “Somos milhões de Cunhas” ou “Abaixo o Comunismo” acham que são os legítimos e verdadeiros brasileiros. Triste e perigoso engano fascista! Da mesma forma, referem-se a si mesmos como os “cidadãos de bem”. De resto, em seu pervertido raciocínio, os que não embarcaram na degradante aventura golpista do impeachment são “do mal” e antibrasileiros. Aí se justifica a inepta frase “Nossa bandeira jamais será vermelha” ou a idiotice de crer que cada manifestante de vermelho estaria nas passeatas de esquerda porque recebeu trinta reais ou uma merenda de pão com mortadela. Essa gente não percebe que as manifestações majoritariamente de verde e amarelo defendem o retrocesso civilizatório, a destruição da democracia brasileira e os instintos mesquinhos daqueles que em absolutamente nada corroboram com o interesse nacional. As grandes corporações financeiras e midiáticas, que defendem o afastamento de Dilma e insuflam as massas de rua contra ela, subscrevem o aprofundamento da ideologia neoliberal mais selvagem, planejam o sucateamento da Petrobrás e a entrega de mão beijada dos direitos de exploração do pré-sal às petroleiras estrangeiras, anseiam pela redução dos gastos sociais e dos direitos trabalhistas, o que devolverá à miséria milhões de famílias incluídas nos últimos 14 anos de governos petistas e propõem levar a efeito um amplo programa de privatizações que terminará por mercantilizar os nossos já débeis serviços básicos. Querem retomar a integração subalterna à ALCA e aos organismos financeiros internacionais, como o FMI, interrompida pelo governo Lula. Enfim, nada mais antinacional do que os ativistas vestidos de verde e amarelo nas manifestações anti-Dilma. Eles “odeiam” o Brasil, detestam sua gente e cultura popular, idolatram os modos e valores norte-americanos e europeus. Não se envergonham de sofrer da secular patologia social denominada “complexo de vira-latas”, máxima cunhada por Nelson Rodrigues.

Ao contrário, as multidões que saem de vermelho às ruas, da cor da luta dos povos oprimidos em todos os lugres do mundo e tempos da História, que nada têm de fanáticos torcedores de um eterno Fla X Flu político, como imaginam os ingênuos “apolíticos” ou “apartidários”, imbuídas de cívica e verdadeira consciência cidadã e democrática, lutam pela manutenção e ampliação da ainda recente e incompleta democracia brasileira. Defendem que os recursos nacionais estejam sob o controle das instituições do Estado e da sociedade do Brasil. Promovem a politização da sociedade para que os bens e serviços pátrios fiquem a cargo do bem comum, da inclusão social e da igualdade de condições. Expressam seu repúdio à mercantilização dos valores brasileiros para fins do lucro insaciável de apenas alguns, muitos destes estrangeiros. Trágica e ironicamente, as multidões de vermelho são, de fato, nacionalistas e defensoras da soberania brasileira.

É um tempo contraditório e complexo o que o Brasil passa nestes dias. Trajados de vermelho, uma cor internacionalista e sinal da consciência de classe, estão os legítimos defensores da Pátria. Vestidos com a Bandeira Nacional, como se somente a eles pertencesse, estão os que foram seduzidos pela sereia do fascismo e que não pensariam duas vezes antes de vender o Brasil numa bandeja de prata aos interesses ególatras do imperialismo mundial.

* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela FLACSO Brasil (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais).

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