sábado, 21 de novembro de 2015

Artigo do Levon: Quando os bons são vistos como os vilões



Quem se lembra de como era o Brasil antes da chegada de Lula ao poder em 2003, sabe que a corrupção era muito pior e maior do que atualmente. A lavagem de dinheiro, as fraudes, o abuso do poder político/econômico e a manipulação do povo corriam soltas e não havia fiscalização da mídia, muito menos do Ministério Público ou da Justiça. Tudo era encoberto e terminava em “pizza”. Os poderosos mandavam ilimitadamente e o povo pobre e trabalhador não tinha vez nem voz. Como agravante, a miséria absoluta reinava na maioria das famílias brasileiras. A fome e o desemprego atingiam milhões de pessoas. O sonho de um jovem de 18 anos era possuir uma bicicleta. A mídia colocava medo no povo e dizia que se o PT chegasse ao poder o “comunismo” seria implantado no país.

Com a eleição de Lula em 2002, desacreditado pelos poderosos e pela classe média, que o chamavam de analfabeto e cachaceiro, o Brasil não precisou mais ficar de joelhos pedindo empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), passou a fazer parte das grandes rodadas de decisões mundiais, criou programas sociais premiados internacionalmente, como o Bolsa Família, que distribuíram renda para milhões de brasileiros, tirando da miséria tantos cidadãos, mais do que a população total da Argentina. Mais de 10 universidades federais foram criadas, além de cerca de 100 institutos de educação. O Enem se tornou a principal forma de entrada no Ensino Superior, facilitando o acesso ao ProUni, ao SiSU e ao FIES. Uma nova classe média surgiu. As ruas se entupiram de carros novos e de motocicletas, que se tornaram mais acessíveis para a maioria absoluta do povo. O acesso a bens de consumo, à casa própria ou a materiais de construção “bombaram”. A qualidade de vida saltou positivamente, “como nunca antes na história deste país”.


A taxa de desemprego brasileira baixou a níveis civilizados, inclusive bem menor do que a de países europeus como Espanha, Portugal e Itália. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), iniciativa do governo estadunidense sob o comando de Bush Filho, que transformaria a América Latina num imenso quintal norte-americano, foi implodida graças à liderança de Lula. A Petrobrás que quase foi privatizada nos governos anteriores permaneceu sob o controle do Estado nacional e descobriu as imensas jazidas de combustível fóssil embaixo da camada de pré-sal do oceano, tornando-se o passaporte do Brasil para o futuro. O salário mínimo que valia muito menos do que cem dólares, chegou à marca dos 300 dólares, aumentando o poder de compra dos trabalhadores brasileiros. O SAMU e o Mais Médicos foram implantados na maioria dos municípios do país. A crise mundial do capitalismo de 2008, ainda em curso, demorou a chegar ao Brasil, graças à solidez das políticas macroeconômicas petistas. Leis mais rigorosas de combate à corrupção foram aprovadas. Ao contrário dos tempos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a Polícia Federal ganhou autonomia, o que facilitou a punição de crimes de altos funcionários públicos, inclusive de ex-integrantes do próprio governo petista.

Mas, nada disso serviu para consolar a elite econômica, midiática e aristocrática do velho Brasil. Nunca aceitaram o torneiro mecânico que chegou à presidência, nem a primeira mulher, militante contra o regime ditatorial de 1964, a alcançar o posto de Presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff. A luta contra a esquerda, os petistas, Lula e Dilma foi ganhando ares de batalha entre o bem e o mal, apequenando e despolitizando o país. A recusa da oposição em aceitar a derrota de 2014 paralisa o Brasil. É bem verdade que, para isto, também contribuiu a inglória incursão de lideranças petistas em casos escandalosos de corrupção. Isto manchou a trajetória histórica do PT e tem sido, saborosamente, utilizado pela grande mídia e pelos adversários das conquistas populares dos últimos anos.


Ninguém quer a corrupção, seja ela do PT, dos partidos da direita ou da iniciativa privada, mas a sanha anti-corrupção derramou-se, de forma fascista e lunática, seletivamente contra petistas e esquerdistas, preservando seus adversários muito mais corruptos e decrépitos em termos de moralidade com a coisa pública. Este é o grande drama e a imensa contradição da política nacional neste momento. O comprovadamente corrupto dep. Eduardo Cunha (PMDB/RJ), presidente da Câmara Federal, é aplaudido e tolerado. Já presidenta Dilma Rousseff, contra a qual não há investigação na Operação Lava-jato, da Polícia Federal, e sabidamente se reconhece que é uma pessoa séria e honesta, é execrada em praça pública e se busca o seu impedimento sem que tenha cometido crime de responsabilidade, configurando a ameaça de um golpe de Estado. Um Congresso Nacional lotado de políticos corruptos, apoiado por uma mídia hipócrita, manipuladora e seletiva, ameaça retirar do poder uma Presidenta da República que nem sequer é citada em qualquer processo de investigação de corrupção no país. Tudo isto com o apoio de milhões de brasileiros que foram, cuidadosamente, transformados em “zumbis” anti-petistas, através da alienadora lavagem cerebral dos grandes meios de comunicação nacionais.

É uma realidade trágica, que só encontra paralelo na história da Alemanha nazista dos anos 1930. O povo brasileiro foi condicionado pela mídia e pelas estruturas de difamação que utilizam as modernas redes sociais da internet, a odiar o PT e a encará-lo como a própria encarnação do mal. As religiões têm sido utilizadas politicamente para difundir preconceitos e mentiras que transformam o PT e os petistas em “asseclas do demônio”, tudo isto com a complacência do Judiciário e de pessoas que têm acesso a maior informação. Boatos que não resistem a uma pesquisa no Google são cotidianamente divulgados e compartilhados, ganhando ares de verdade. Todos os diabos mais temidos foram libertados da caixa de Pandora dos velhos oligarcas brasileiros. Racismo, homofobia, intolerância religiosa, saudosismo da ditadura militar, linchamentos midiáticos e reais, medo do comunismo, xenofobia contra haitianos e africanos, crescimento de bancadas religiosas fanáticas no Congresso Nacional, acobertamento de crimes cometidos pelos políticos da direita, como o helicóptero do pó, a lista de Furnas e os aeroportos de Aécio Neves, tal e qual na época nazista, estão em moda no Brasil de 2015. É preocupante e compromete demasiadamente o futuro da democracia brasileira.

Em pequenas cidades, como Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, militantes petistas, em que pese sua honra, sua honestidade e seu compromisso com os pobres, são espezinhados, tachados de ignorantes e execrados por figuras que trazem no DNA o velho patrimonialismo e a corrupção política histórica que sempre vicejou nestes lugares, os quais passaram a posar de vestais da moral e dos bons costumes. Os verdadeiros corruptos, mais sujos e imorais de toda a história, ganham ares de honestos e de defensores da justiça, crucificando aqueles que sempre lutaram pela inclusão social e pela igualdade para a maioria dos brasileiros.

O PT, de milhões de filiados e simpatizantes honestos e lutadores, gente que nunca se calou diante dos desmandos da secular oligarquia, se transformou na “Geni” nacional, insultado e vilipendiado. Mas, nada nunca foi fácil para o PT, a esquerda e sua militância. Quem enfrentou a escravidão negra e a venceu, a ditadura militar e a suplantou, a fome e a miséria e as derrotou, terá de encontrar forças para superar a atual onda de insanidade fascista que assola o Brasil. A luta continua!

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