quinta-feira, 25 de junho de 2015

São João: o melhor período do ano

O quadro de estilo barroco de São João Batista, quer seja na bandeira, no estandarte ou dependurado numa das paredes das casas simples, reproduzido em milhares de lares do sertão brasileiro, especialmente no Nordeste do país e no Norte de Minas Gerais, mais do que qualquer símbolo do marketing capitalista, é um ícone que ao ser observado por quem viveu algum grau da cultura do sertão, dispara de imediato a memória afetiva e desperta, a despeito de todas as agruras e sofrimentos, uma sensação de felicidade, de encontro e ternura. Rosto angelical de criança, cabelos cacheados e emoldurados por uma auréola circundada de arabescos; o ombro coberto por uma pele de ovelha; abraçado a um cordeiro de olhar piedoso, com uma das mãos segura a cruz rústica, de madeira ainda esperançosamente verde, na qual se entrelaça uma faixa branca onde está escrito em latim “ECCE AGNUS DEI” – “Eis o Cordeiro de Deus” – , frase proferida pelo próprio João Batista ao avistar Jesus, segundo a descrição do quarto Evangelho, no capítulo 1, versículo 36, na qual imagem e texto se revestem de especial figura de linguagem, ocasião em que o Cristo é comparado ao cordeiro que os hebreus imolavam na Páscoa desde a libertação do Egito, nos tempos de Moisés; embaixo, uma nuvem da qual brotam ramos floridos de cores variadas; em torno, um céu azul pontilhado de estrelas.

A utilização desta imagem alegórica no tempo junino é cultura popular de amálgama ou reunião, genuinamente cristã e brasileira. Junta em si as tradições hebraicas, ibéricas, indígenas e africanas, afirmando-se como algo sempre novo e autenticamente do Brasil.

Neste tempo em que a intolerância política e o fanatismo religioso de certos grupos querem e parecem estar conseguindo alcançar o poder no Brasil, é necessário que a cultura popular, como as festas juninas, sejam resgatadas, de modo incutir nas novas gerações a lembrança das raízes afetivas que, apesar da violência da colonização, produziram a reunião da tolerância simbólica e a ternura fraterna estampada no rosto de São João.

Em volta da fogueira de 23 de junho, melhor tempo do ano popular, quando há fartura de pão e de alegria, ouvindo os estampidos de traques e rojões, observando o colorido das bandeirolas, “chuvinhas” de prata e fogos de artifício, que se busque recobrar o sentido de brasilidade e se condene o neofascismo político-religioso que tenta nos empobrecer e “capitalizar” o espírito!

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