quinta-feira, 14 de maio de 2015

Dom Geraldo Majela de Castro: minhas memórias

Dom Geraldo Majela de Castro, O. Praem.
Nesta quinta-feira, 14 de maio de 2015, partiu desta vida para a casa do Pai, o arcebispo emérito de Montes Claros, Dom Geraldo Majela de Castro, O. Praem, quase aos 85 anos de idade, os quais completaria em 24 de junho próximo. Destes, quase três, os últimos, internado num leito da Santa Casa montes-clarense, vítima de uma doença rara, a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). Mais cedo, ao saber da notícia, prometi escrever alguma coisa. Não um resumo biográfico, já disponível em diversos meios de comunicação. Optei por relatar as experiências que tive ao seu lado em diferentes momentos da minha vida.

Porém, antes de prosseguir, destaco que seu falecimento ocorreu um dia depois da data na qual a Igreja celebra a grande Mãe de Deus, Maria Santíssima, sob o título de Nossa Senhora de Fátima (13 de maio). Um destes misteriosos detalhes, quiçá irrelevantes, mas que merecem de nossa parte uma atenção especial. Dom Geraldo era especialmente devoto da Mãe de Jesus. Parece que, neste momento, ouço seu canto nas celebrações, saudando a ela: "Neste dia, ó Maria, nós te damos nosso amor!" Talvez, jamais saberemos, a mãe veio em auxílio de um filho que tanto a venerava, num momento de tanto sofrimento e dor.

As primeiras vezes em que vi Dom Geraldo foram durante as festas de Nossa Senhora de Fátima, em Taiobeiras. Em princípio, ainda na condição de bispo-coadjutor, vinha substituir Dom José Trindade, seu antecessor no governo da Diocese de Montes Claros. A partir de 1988, quando assumiu em definitivo o pastoreio montes-clarense, passou anualmente a vir à maior manifestação religiosa do povo taiobeirense.

Ainda adolescente, eu comecei a tomar conhecimento de suas ideias lendo o famoso Documento Azul (Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais - CEDP da Igreja Particular de Montes Claros), síntese da 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral, de 1990, então convocada e presidida por Dom Geraldo. Líamos os números do documento em grupos de reflexão ou nas tão educativas novenas de Natal realizadas com as cartilhas produzidas em Montes Claros, outra conquista sua. Os materiais de Montes Claros, contextualizados na realidade de nosso sertão norte-mineiro, vieram a substituir as novenas "importadas" de outras realidades, muitas vezes tão distintas da nossa.

Em 1992, o primeiro contato pessoal. Dom Geraldo presidiu o momento em que recebi o Sacramento da Confirmação do Batismo, a Crisma. "Recebe, por este sinal, o Dom do Espírito Santo!" - disse ele. Daquele momento em diante, assumi categoricamente a missão do Evangelho de Jesus, especialmente no serviço à causa dos pobres e dos marginalizados. Compromisso que, apesar dos meus limites e da minha pequenez humana, continuo tentando realizar sob o auxílio daquele mesmo Espírito de bondade e justiça.

Aliás, as celebrações de crisma são um capítulo à parte. Demonstram o quanto Dom Geraldo foi comprometido com a sua função de colaborador de Cristo, pastor do Povo de Deus e sucessor apostólico. Amava viajar por todas as comunidades da sua querida Diocese de Montes Claros. Todas, sem exceção de limites, distâncias e dificuldades. Na Paróquia São Sebastião de Taiobeiras, tão distante de Montes Claros, e que em sua época também abrangia Berizal, ficava até mesmo a semana inteira, realizando as missas de crisma nas comunidades. Conhecia-as e ao povo de Deus que delas participava.

Numa dessas celebrações, na Comunidade de Olhos D'Água (Taiobeiras), após o término, foi convidado a almoçar numa casa muito simples, mas de mesa farta. Mesmo já estando com restrições alimentares por conta de sua saúde, fez questão de não desapontar aos seus anfitriões, provando um pouco do que, tão carinhosamente, lhe haviam preparado. Mas, o mais belo, foi, ao final da refeição, chamar o casal para uma conversa reservada. A comunidade, propositalmente, já havia escolhido aquela casa para receber o Arcebispo porque sabia que ali a família passava por dramas de convívio. Naquele diálogo, aconselhou aos dois, orou com eles, explicou-lhes a palavra de Deus e abençoou-os.

Mais especificamente, estreitei laços com Dom Geraldo no período em que estive na militância da Pastoral da Juventude da Diocese de Montes Claros. Sempre presente, atento e educador. Ainda que proveniente de uma formação conservadora, foi aberto, democrático, paciente e flexível conosco. Permitiu-nos caminhar na Igreja e com a Igreja. Não nos tolheu em nossa caminhada. Apoiou-nos. Claro que, como homem tinha limites e uma visão de mundo que lhe era própria. Mas nem um nem a outra o impediram de abraçar uma juventude que ansiava por um "novo jeito de ser Igreja".

De forma especial, permitiu-me, durante os anos em que morei em Montes Claros e trabalhei na Pastoral da Juventude, escrever no jornal diocesano "Far-Elo de Vida", muitas vezes contra a oposição de figuras da própria Igreja. Devo-lhe isto, a confiança em mim despositada.

Igualmente, devo-lhe também pela confiança expressa em mim quando me candidatei a vereador em Taiobeiras, em 2004. Sem misturar o púlpito com o palanque, mas fazendo uso coerente daquilo que aprendemos a chamar de caridade cristã manifestada na militância política do leigo, demonstrou-me apoio humano e abençoou a minha luta. Dom Geraldo estava mais uma vez em Taiobeiras para celebrar crismas. Era agosto. A campanha eleitoral a pleno vapor. Não fui lhe pedir que me desse declaração de apoio político. Mandou me dizer que queria falar comigo na casa paroquial. Quando cheguei lá, entregou-me um papel escrito de próprio punho e disse-me: "Pode publicar", sem mais.

Texto manuscrito de Dom Geraldo
No papel estava escrito (veja fotografia do original): "Há muitos irmãos e irmãs nossos que têm o ideal de servir desinteressadamente a todos. Levon resolveu colocar o nome dele como candidato a vereador. Pelo que viveu até hoje, penso que posso recomendá-lo! Será um bom vereador! É confiável!".

Não venci aquela eleição. Também, pouco importa. De fato, vale a confiança daquele homem à minha pessoa. Confiança de quem tanto aprendi, especialmente a amar Jesus Cristo e sua mensagem. Da mensagem, aquilo que mais me toca são os gestos e a palavra. "É confiável" - disse Dom Geraldo.

A última vez em que nos falamos foi quando os franciscanos deixaram a Paróquia de Taiobeiras. Era o início de fevereiro daquele ano. Eu estava na condição de Conselheiro Paroquial. Momento grave! Depois de 72 anos, os frades da Ordem de São Francisco entregavam Taiobeiras. Dom Geraldo me disse que também sentia muito por aquela mudança inesperada. Informou-me de que havia feito todos os esforços junto ao provincial franciscano para que retrocedesse daquela decisão. Porém, como já era fato consumado, que insistiu que tivéssemos confiança em Jesus, de que as coisas se ajeitariam da melhor forma.

Enfim, era um legítimo pastor, um homem de Deus e um servo incansável da Igreja. Como homem, dotado de limitações e contradições. Como ministro do Evangelho, uma luz para a caminhada deste nosso povo de Deus sertanejo.

"It et Vos" ou "Ide também vós para a minha vinha", como mandado do Senhor, foi o seu lema de bispo. Mais do que uma frase, tornou-se a expressão de sua vida. Ele foi a todos os recantos da grande vinha que o Senhor lhe concedeu: a Arquidiocese de Montes Claros, levar a Palavra ilumina e o exemplo que arrasta.

Neste momento de imensa dor por sua partida, lembro-me de Dom Geraldo Majela de Castro com a oração da Igreja que ele tanto amava: "Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno! E brilhe sobre ele a vossa luz!"

Nenhum comentário: