quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Lideranças geraizeiras sofrem atentado em Fruta de Leite (MG)

Imagens dão a dimensão da violência
* Do perfil no Facebook de Jorge Farinha

Enquanto a maioria do povo Brasileiro estava distraída com o Carnaval, lideranças Geraizeiras de Fruta de Leite, no norte de Minas Gerais, sofriam atentados por sua luta em defesa de seus territórios tradicionais e contra a grilagem de terras do Estado.

Causa forte indignação a forma bárbara e covarde como duas fortes lideranças do Movimento Geraizeiro foram atacadas neste fim de semana (14 e 15 de Fevereiro) no povoado Martinópolis, município de Fruta de Leite, ao que tudo indica a mando de grileiros de terras públicas.

Alceu Batista Franco, de 42 anos, foi atacado por dois homens que o seguiam de moto, quando na noite de 14 de Fevereiro se deslocava da casa de seu pai para a sua residência. Ele também pilotava uma moto e os agressores se aproximaram dele, desferindo-lhe golpes com barra de ferro nas suas costas. Com a agressão, Alceu perdeu o controle e caiu da moto, mas antes que os dois o alcançassem de novo, conseguiu fugir pelo meio do mato, despistando assim os agressores e salvando a sua vida. Alceu afirmou que “faz mais de um mês que eles me vêm ameaçando e provocando”, procurando o confronto do qual ele tem fugido.

Já Valdivina Dias Batista, de 62 anos, trabalhadora rural e forte liderança sindical e do Movimento Geraizeiro, popularmente conhecida na região por D. Vina, encontrou a sua casa completamente destruída pelo fogo depois de voltar da missa, no final da manhã de Domingo de 15 de Fevereiro. O incêndio destruiu praticamente toda a casa, deixando a vítima e sua família apenas com a roupa do corpo. Os covardes agressores, até agora não identificados, retiraram a gasolina do carro que estava estacionado num alpendre ao lado da residência, e espalharam por todo o imóvel, fazendo com que nada do interior da casa fosse poupado, com exceção da cozinha, que é a partir de onde D. Vina, seu esposo José Batista Nascimento, 67 anos, e seu filho Gildavo Dias Nascimento, 30 anos, irão reconstruir suas vidas.

Para Orlando Santos, uma das principais lideranças do movimento e que reside na zona rural do município de Novorizonte, não existem duvidas quanto à motivação dos crimes. “Desde 2011, que foi quando organizamos o movimento e começamos a lutar contra a grilagem das terras devolutas, em defesa do nosso território tradicional e preservação do cerrado e as suas nascentes, que temos vindo a sofrer constantes ataques e ameaças. A nossa atuação está mexendo com interesses muito poderosos”, afirmou. Ele mesmo tem sido constantemente ameaçado e, inclusive, já sofreu com falsa denúncia de que possuía em sua casa forte armamento, que culminou com um pedido de busca e apreensão em sua residência. “A polícia chegou de madruga em grande aparato. Eu não estava em casa. Eles entraram vasculhando tudo, não respeitando a minha mulher e a minha filha. Obviamente que não encontraram nada, mas levaram a minha filha presa por desacato à autoridade, porque ela se indignou contra aquela brutalidade e injustiça. É muito humilhante e revoltante você, que é homem de bem, ver a sua filha de dezoito anos ser presa naquelas condições. Ainda mais que eles revistaram a minha filha sem ter nenhum agente feminino presente. É muito revoltante”, disse.

Os assessores jurídicos do movimento, André Alves de Souza e Marcos de Souza, fazem questão de realçar que “os atentados têm relação com a luta das comunidades tradicionais geraizeiras que estão se organizando para retomar seus territórios tradicionais que, em grande parte, incidem sobre terras pertencentes ao Estado de Minas Gerais que foram arrendadas a empresas de plantio de eucalipto, nas décadas de 1970 e 1980 por períodos de aproximadamente 23 anos, cujas promessas de desenvolvimento regional e melhoria da qualidade de vida do povo do lugar não se concretizaram, ao contrário, pioraram. Esses contratos já venceram e essas terras vêm sendo objeto de grilagem e venda a empresas e particulares. O que as comunidades locais reivindicam é a restauração dos ambientes degradados pela monocultura do eucalipto, a recuperação dos territórios pelas comunidades tradicionais para a produção agroecológica e conservação ambiental, geração de trabalho e renda, sobretudo para os jovens”, afirmaram.

Relativamente aos crimes deste final de semana, as suspeitas dos integrantes do movimento recaem sobre um poderoso proprietário da região, que ao ver a retomada das terras que ele mesmo grilou e vendeu para poderosa empresa agro-florestal (da qual ele também era funcionário), afirma agora que lhe pertencem e as tenta grilar de novo.

Já D. Vina, que viu toda a luta de uma vida virar cinza, afirma que “sou geraizeira, resistente e forte como o Cerrado e irei reconstruir tudo de novo. Só ficou a cozinha, mas é nela que iremos viver e, com Fé em Deus, continuaremos a nossa luta”. Entretanto os integrantes do movimento já auxiliam na reconstrução da casa da companheira.

As autoridades, que já efetuaram perícias em relação aos dois casos e não têm duvida da origem criminosa do incêndio na casa da D. Vina, estão efetuando diligências para encontrarem os responsáveis pelos crimes.

Um comentário:

Thiarles Soares disse...

lamentável este acontecimento, esperamos que a justiça seja feita por estas vítimas que lutam por boas causas e os culpados paguem por seus crimes.