quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Artigo do Levon: Cadernos no saco de açúcar de 5 kg

* Levon Nascimento

Corria o mês de fevereiro de 1984, quando eu comecei a 1ª série primária na Escola Estadual Deputado Chaves Ribeiro ou Grupo da Igrejinha – como era conhecida – em Taiobeiras. Primeiramente, fui para a sala 2. Algumas semanas seguintes, depois de alguma avaliação que eu não sei bem qual foi, me colocaram na sala da professora Élia. Somente eu. Outros colegas também foram remanejados, só que para outras turmas. Tempos depois, fiquei sabendo que fui para a “Classe A”. Mas não é bem isto que quero contar.

Agora, passados 30 anos, é chegada mais uma temporada de adquirir os materiais escolares das crianças. Cadernos de capas de marca, equipados com adesivos e plásticos temáticos. Caixas de lápis de colorir de até 48 unidades. Mochilas de diversos tamanhos e grifes. Borrachas, canetas, colas, fichários, “lancheiras” – no meu tempo, sem apelar para o anglicismo que gerou o neologismo, falávamos “merendeira”, em bom português – e tanto mais que fazem a meninada deixar os pais loucos na hora de comprar a lista ditada pelas escolas. Diante disso, me recordo daquele meu primeiro ano, dos materiais escolares que utilizei e da consciência que vim a desenvolver por conta da simplicidade deles.

Os responsáveis pela minha criação não tiveram acesso à escola quando crianças. Mal sabiam assinar o próprio nome. Nunca tiveram a experiência do convívio escolar. Mesmo assim, queriam que eu estudasse, confiavam no “poder” da escola, e me disciplinaram a encarar os estudos como dever e caminho de sobrevivência. Como sou grato a eles por isto! Mas eles não tinham ideia de como era difícil ser pobre em uma sala de aula de classe média. Sim, porque como não havia escolas particulares na cidade naquela época, os filhos da classe média e alta também estudavam na escola pública e, invariavelmente, fossem alunos bons ou medianos, ficavam nas turmas “mais selecionadas”. Como fui parar numa delas – não sei como – passei a conviver com eles.

Minha mochila escolar era uma pasta preta, de um material parecido com couro, em formato retangular, com um zíper na parte superior. Antes, ela servia para guardar os documentos da casa. Devia ter uns 30 ou 40 anos quando a ganhei para por meus cadernos. Estes, aliás, eram em tamanho pequeno, mais baratos, com capas ilustradas de círculos azuis, vermelhos ou pretos, em fundo branco. As folhas eram ásperas. Os lápis de cor eram dos pequenos, metade do tamanho de um lápis preto de escrever, com apenas 12 unidades na caixa. O livro recomendado – que o governo da Ditadura Militar não distribuía gratuitamente à rede pública – era o Caminho Suave, uma tradicional cartilha de alfabetização. Demorou para chegar em minhas mãos, pois era caro e levou muitas semanas de trabalho de servente de pedreiro para que pudesse ser adquirido pelos meus responsáveis. Mesmo assim, cheguei analfabeto em fevereiro, pois não fiz pré-escolar, e em maio já escrevia pequenas cartas a rogo dos meus familiares.

A pasta preta era o meu suplício. Eu tinha uma vergonha imensa dela. Era feia demais! Ainda mais porque meus colegas de classe média vinham todos com suas mochilas de várias cores e inúmeros detalhes, já com a ilustração de alguns desenhos animados que passavam no Balão Mágico, como He-man e Superamigos. Pior do que eu, só um ou dois colegas que levavam os cadernos em sacos de açúcar de cinco quilos. Uma delas, chamada Vanusa, lembro-me bem, era zombada todos os dias por conta disso. Não se falava e ninguém se preocupava com o que hoje se convencionou, mais uma vez em inglês, chamar de Bullying. Termo que significa violência física ou simbólica. Sofríamos da violência social de ser pobres; e simbólica, de não ser consumidores, além da tradicional zombaria. Nossas pastas, nossos cadernos e nossos sacos de açúcar não se enquadravam nos padrões estéticos de uma sociedade de consumo que se formava no preconceito e no desprezo. Seriam as raízes de nossa atual decadência sociocultural? Ou as origens “imperceptíveis” de nossa trágica violência urbana?

A partir dali, pela primeira vez em minha vida, comecei a perceber diferenças entre as pessoas. Não na substância, todos humanos, mas de classe social, entre os que podiam comprar e os que não, entre os que tinham e os que não. Não me produziu revolta, amargura ou despeito. Criou em mim senso de justiça, preferência pelos pobres e consciência de classe social, sementes de Esquerda. Consciência de classe que anda faltando a muita gente nos dias de hoje. Especialmente à gente que busca “subir na vida” sem escrúpulos ou à que tenta aparentar o que não é pelo consumismo vaidoso e suicida.

Minha velha pasta preta de carregar cadernos, da qual tanto me envergonhei quando criança, quem diria, me ajudou a ter mais noção de mundo e coerência cidadã!

* Levon Nascimento é Professor de História. Graduado em Ciências Sociais pela Unimontes
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20 comentários:

ana green disse...

Gostei principalmente de ter lido a palavra "bullying" espero que isso nao seja mais aceito nas escolas do Brasil. Eu tambem sofri, mas de maneira diferente.

O seu blog deve ser lido e recomendado nas escolas. Irei seguir com interesse.

Que Deus lhe abencoe Levon

Claudio Lobo (via Facebook) disse...

Parabéns meu amigo, o que nos diferencia dos outros é a opção preferencial pelos pobres.

Helio Joaquim Da Silva Joaquim (via Facebook) disse...

Eu tambem cheguei a usar o saco de açucar mas o bom mesmo daquela epoca era o bornal( imbornale para os mais carentes da lingua portuguesa)

Januário de Castro (via Facebook) disse...

E o chinelo de pneu... serviu pra me dar umas chineladas no primeiro que se atreveu zombar da minha cara... aí fiquei respeitado no meio deles...rs

Valdeir Lemos Assis Lemos (via Facebook) disse...

É amigos são lembraças que nos edificam. a eu levava os meus cadernos era solto na mão.

Beth Almeida (via Facebook) disse...

Por isso meu amigo, a nossa geração tem fatos e historia, tem sentido e rumo na vida. As nossas dificuldades serviram para nos mostrar que a essência da vida vai alem das marcas e etiquetas. Quem dera se essa geração atual pudesse experimentar , seja só por um tempinho, as maravilhas que nós já desfrutamos.

Vinícius de Castro Amaral (via Facebook) disse...

Levon você é um exemplo, mesmo diante de tantas dificuldades, nunca fraquejou! Graças a sua persistência, seus filhos hoje podem estudar em um colégio particular!

LEVON NASCIMENTO disse...

O meu desejo é que, um dia, a escola pública tenha qualidade superior à da particular, como já ocorre em muitos países.

Andressa Santos (via Facebook) disse...

Parabéns

Vinícius de Castro Amaral (via Facebook) disse...

todos tem alguma história no início dos estudos... eu precisava ir de ônibus da zona rural até Santa Bárbara Do Tugúrio. Em 1984, pegava um ônibus as 10 da manhã e tinha que ficar esperando até o meio dia quando começava as aulas. A tarde, as aulas terminavam as 16 horas, o ônibus que fazia a linha Barbacena a Rio Pomba, só passava as 17 horas.... Em 1986, a prefeitura municipal começou a transportar os alunos e facilitou as coisas...

Vera Lucia Pereira (via Facebook) disse...

Quando li seu artigo, era como se estivesse lendo minha própria história, sem tirar nem acrescentar nada. Mas assim como vc, fiz de toda as dificuldades que sofri, de toda as humilhações que já passei, anseio de vitória, de me tornar uma pessoa cada vez melhor e tento sempre através de minha história mostrar para meus filhos que a humildade, perseverança é uma virtude. Obrigado por me fazer relembrar essa fase tão importante da minha história de vida.

Helen Santa Rosa Xakriabá (via Facebook) disse...

Muito legal o texto Levon. No mundo tão fácil de hoje muitos pais esquecem de refletir como estão educando seus filhos. Entendo que a reflexão quanto ao consumo, sobre o ser mais que o ter..começa nesta fase.

Leandro dos Santos disse...

"Criou em mim senso de justiça", talvez tenha sido esse, o grande bônus.

Luana Pereira (via Facebook) disse...

Levon Nascimento, parabéns pelo relato de sua história quando iniciou seus estudos. Sou de uma época mais recente, mas lembro-me que quando fiz as primeiras séries, meus caderninhos era de brochura com a capa reforçada com cartolina, enquanto grande parte dos meus colegas já usavam caderno com arame, com capa dura ilustrada com desenhos da moda e folhas enfeitadas... quantos outros amigos aqui relataram dificuldades quanto modo de vestir, modo de chegar a escola e o preconceito que sofreram por virem de uma classe menor... mas todos aqui, se tornaram grandes pessoas através de suas lutas.... E eu agradeço muito à Deus por este ano estar concluindo minha primeira graduação em uma universidade federal, feita também com muito esforço e luta.

Juscilene Rodrigues Oliveira (via Facebook) disse...

Bem isso viu!!estudei assim tambem,mas me tornei responsavel ,fui assim meus colegas riam de mim tambem.

Julcinéia Fernandes Miranda (via Facebook) disse...

Me fez recordar de quando estudei o primário.

Valdenice Maria Barbosa (via Facebook) disse...

EU TAMBEM LEVAVA OS MEUS E MAIS EU ESCREVIA QDO ACABA O CADERNO NO PAPEL DE PAO ,AQUELE PARDO LEMBRA KK OUTRA TAMBÉM Levon Nascimento ,EU SO ESCREVIA DE LAPIS P Q QUANDO ACABAVA O CADERNO EU APAGAVA O INICIO PRA ESCREVER DE NOVO KK ERAMOS MTO POBRES E PAPAI NEM SEMPRE THA GRANA PRA COMPRAR CADERNO PRA GENTE ...

Jucimara Fernandes Miranda (via Facebook) disse...

Excelente artigo. Recordei o tempo de infância na escola.

Vanusa Freitas de Almeida (via Facebook) disse...

Parabéns...

gustavo de sousa amorim disse...

As dificuldades na vida são como molas, que nos impulsionam a dar saltos cada vez mais altos. Delas tiramos, ou pelo menos deveríamos tirar lições para uma vida toda. E você, assim como eu e tantos outros taiobeirenses, soubemos fazer isso. Podem ter faltado oportunidades, e tivemos que fazer escolhas, mas o caderno encapado com saco de açúcar 5kg ou sendo carregado dentro; as folhas duplas dadas pela prefeitura; a diferença social entre os colegas, nada disso diminuiu a vontade de querer aprender e "vencer na vida". Parabéns pelo artigo. Fez a muitos relembrar e refletir sobre os valores ensinados aos nossos hoje. Obrigada.