domingo, 2 de fevereiro de 2014

Final de novela: o beijo entre Niko e Félix ou a reconciliação entre Félix e César?

Cena final de Amor à Vida: reconciliação entre Félix e César
Discutir novela é uma atividade comparável às elucubrações dos teólogos bizantinos do século XV. Enquanto os turcos otomanos cercavam Constantinopla, prontos para atacá-la e subjugá-la - como de fato ocorreu em 1453 - seus sábios gastavam todo o tempo em questões vãs, como a definição sobre a qual gênero (sexo) pertenceriam os anjos, se masculino ou feminino. Mas mesmo sendo um "bizantinismo", vou falar um pouquinho do final de "Amor à Vida".

Na noite de 31/01/2014, pouco depois do final da exibição do último capítulo da trama de Walcyr Carrasco pela Rede Globo de Televisão, as redes sociais pipocaram, em especial o Twitter. Todos comentavam sobre o primeiro beijo entre dois homens exibido pela poderosa TV Globo em uma de suas novelas. Em tempo, o SBT já havia feito isso, em 2011, na novela "Amor e Revolução", do autor Tiago Santiago. No caso, entre suas mulheres. A maioria aplaudia o autor e os atores Mateus Solano e Thiago Fragoso. Um outro tanto, repudiava. Não vou entrar no mérito do beijo. Acho até que foi uma cena menos chocante do que as punhaladas desferidas por uma personagem em seu amante ou do que as cenas de sexo quase explícitas entre homens e mulheres em outros núcleos da mesma novela. O que me desperta a curiosidade é justamente o interesse despertado, de amor ou de ódio, de admiração ou de repulsa, pelo beijo de dois homens e não a cena justamente posterior a esta, também envolvendo dois homens, o atores Mateus Solano, intéprete de Félix, e Antônio Fagundes, que deu vida a César. No caso, filho e pai, separados pela incompreensão e pelo rancor. A cena, em questão - a última e, na minha opinião, a mais bela e importante de toda a novela - mostrava ambos, pai e filho, diante do nascer do sol em uma praia. O filho, repudiado pelo patriarca durante toda a novela, em grande parte teve seu caráter deformado por conta do desprezo paterno por sua condição homossexual. Ainda assim, com o pai vitimado pela cegueira e por um derrame cerebral, mesmo sendo diariamente ofendido por este, toma para si a tarefa de cuidar e zelar do velho homem.

Na cena final, um pai velho, doente, triste e rancoroso ouve do filho - que foi a vida inteira espezinhado - um emocionante "Pai, eu te amo" e, para surpresa de Félix, responde "Eu também te amo, meu filho!". Aqui reside minha incompreensão. Mais importante do que o revolucionário beijo entre duas pessoas do mesmo sexo, exibido em horário nobre da televisão, num país ainda extremamente hipócrita e preconceituoso, creio que a reflexão mais importante que deveria estar rolando nas redes sociais, no botequins e nas residências, deveria ser a cena do perdão, da reconciliação, da compreensão que deveriam existir entre pais e filhos, entre famílias. O episódio final, da declaração de amor entre Félix e César, deveria ser uma constante entre entes familiares. Se atitudes como aquela fossem comuns, teríamos menos "Félixes" reais descartando bebês em caçambas ou latas de lixo, menos "Alines" urdindo planos de vingança ou de golpes financeiros, menos "Césares" adúlteros ou homofóbicos, menos "Pilares" aviltadas pela traição e compungidas a cometer crimes por ódio.

Os últimos instantes de uma novela, produto popularesco e de pouca qualidade artística e técnica, mas ainda o maior artigo de formação de opinião consumido pela massa brasileira, não poderiam ser mais necessários, como foram os de "Amor à Vida". Necessários enquanto convite à família brasileira ao dever do diálogo entre pais e filhos, maridos e esposas, pessoas que se amam.

10 comentários:

SAYRO SAYRO disse...

Parabéns pela bela reflexão

Anônimo disse...

Marileide Alves Pinheiro: Ótimo texto...

Anônimo disse...

Carlito Arruda: Não assisti esta novela (já me libertei de novelas da Globo há 20 anos), mas vou dar minha opinião a respeito deste post. A Bíblia nos ensina sobre a concupiscência, que é a inclinação do ser humano ao mal e ao pecado. O que combate a concupiscência é a busca pela santidade e o desejo de fazer a vontade de Deus, atitudes estas cada vez mais distantes do povo.
Sendo assim, vemos a aprovação a determinadas atitudes em detrimento a outras, como forma de justificar os próprios erros e vontades, mesmo que de forma involuntária. Parabéns pela reflexão!

Anônimo disse...

Rhansley Santos: Gostei da reflexão...

Anônimo disse...

Valdeir Lemos Assis Lemos: Parabéns, pena que assunto como esse não são curtido e compartilhado.

Anônimo disse...

Rer Miranda: Mto boa!

Anônimo disse...

Luana Silva: Reflexão maravilhosa, parabéns!!

Anônimo disse...

Martinha Marques: Como sempre, muito bom Levon Nascimento. Acho realmente que a Globo , formadora de "opinião" deveria chamar mais atenção para a grande inversão de valores que assistimos e vivemos em nossa sociedade, causando tantos transtornos sociais.

maria soares disse...

Excelente reflexão! Esta última e bela cena foi com certeza o ponto alto da novela! Pena que a maioria prefere se perder no contra ou a favor do beijo homofóbico em vez de refletir sobre o lindo recado que nos foi dado por Félix e César!

Sebastião disse...

Realmente, o perdão deve ser sempre exaltado, porém devemos olhar qual a intensão do autor. A globo sempre coloca algumas cenas para impressionar os telespectadores, para conquistá-los, porém a intensão principal desta tv é divulgar: o adultério, o homossexualismo, o espiritismo e aí vai. Devemos excluir da nossa casa esse tipo de doença.