sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Artigo do Levon: Eita, mataram mais um ali

Jovita Rego
Artigo publicado originalmente no Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG, em 22 de novembro de 2013, edição número 222, ano X, página 3.

“Eita, mataram mais um ali!” – teria exclamado a matriarca Jovita Secundina Rêgo no entardecer de 23 de setembro de 1911, quando ouvira mais um corriqueiro estampido de espingarda. Minutos depois, ela se daria conta de que aquele tiro adentrara a sala de estar e atingira certeiramente o peito de seu marido Martinho Rêgo, desfechando-lhe a vida. Martinho, líder político e homem próspero, foi o primeiro vereador eleito pelo povoado de Bom Jardim das Taiobeiras para a Câmara Municipal de Rio Pardo de Minas, visto que o distrito de Taiobeiras só passaria à jurisdição de Salinas em 7 de setembro de 1923. Aquele assassinato fora encomendado por um bandoleiro a quem Martinho havia preso e recolhido à cadeia de Rio Pardo por prática de arruaça na feira do povoado. Jurara vingança.

Por pior que fosse aquela morte, a julgar pela frase de constatação conformada proferida por Jovita, por certo não era fato isolado e extraordinário no cotidiano do pequenino arraial de taiobas nativas e abundantes. Infelizmente, assim como também não tem sido “fatos incomuns” os muitos assassinatos cometidos em Taiobeiras pouco mais de um século depois daquele.

A escalada da violência em Taiobeiras a partir do final de 2007, estendendo-se e ampliando-se até o momento em que escrevo este artigo, nos estertores de 2013, convoca a sociedade e as autoridades constituídas para uma reflexão mais profunda, para além da atávica propensão de tornar superficial e simplista o entendimento de um fenômeno que nos provoca e amedronta.

Não é possível buscar soluções no topo das árvores, nas pontas dos galhos e nas folhas secas que caem. Isto seria o mesmo que começar a construir uma casa pelo telhado. Reconheço que o tema é complexo e que ninguém tem uma solução definitiva. No entanto, deve ser tratado a partir das raízes, das origens, das questões de fundo e não apenas do já deblaterados jargões de "senso comum", segundo os quais os problemas são as "leis permissivas" associadas aos "menores impunes".

Defender bordões de redução da maioridade penal ou da instituição da pena de morte, somente mascaram um falsa vontade de resolver os problemas. Configura uma espécie de voluntarismo preguiçoso que se recusa a sacudir as mentes empoeiradas pela incapacidade de pensar no bem comum e em saídas humanizadas para os problemas sociais.

É fato que a atual onda de violência encontra terreno fértil na juventude pobre, cotidianamente confrontada, humilhada e desafiada pela sociedade consumista e de ostentação. Na cara destes meninos e meninas que aderiram ao tráfico, todos os dias, lhes são aguçados os desejos mais profundos e irracionais da alma humana, tal e qual ocorre também com adolescentes e jovens das classes média e alta. A diferença é que com aqueles primeiros, geralmente excluídos das oportunidades mais básicas, inclusive da convivência familiar saudável, ainda lhes faltam os recursos financeiros para a satisfação dos desejos de consumo.

Somam-se a isto a falência da família tradicional, a inoperância filosófica das instituições religiosas (mais ciosas de seus dogmas do que do entendimento honesto das necessidades do novo ser humano da era globalizada) e a incapacidade da educação formal (pública e sucateada ou privada e mercantil) de ser atraente e edificante na vida desses jovens.

Em contraposição a tudo isto, traficantes e criminosos, nem sempre aqueles estereotipados com trejeitos de morros e favelas; muitas vezes bem vestidos e antenados com os valores de mercado, expandem seus negócios com uma psicologia e marketing capazes de dar inveja aos melhores estrategistas e profissionais diplomados e pós-graduados. Atuam pelas margens, estimulando “cheiros e sons”, satisfazendo as “sedes” e as “fomes” de atenção, possibilitando o “status” e a “valorização” que o Estado e a comunidade são incapazes de atender. Seduzem, compram, abduzem, dominam, incorporam, enviam, possuem.

E a cada morte, a cada crime, a sociedade se esconde de medo. As autoridades rugem, mas nada fazem de efetivo. Debatem como reprimir. Convenientemente se esquecem de que a repressão é apenas um medicamento paliativo ou um mero placebo que é dado à comunidade em crise histérica. A culpa, então, é do menor – este “monstro” que se formou sozinho – ladrão, violento, assassino – que precisa ser tirado do convívio das pessoas “normais” e “saudáveis”. Não se questiona de onde vem esta pessoa que mata ou que morreu. Aliás, comemora-se a morte de mais um “safado” e criminoso. “Fosse boa pessoa não teria se metido nisto!” – exclamam com “justa” autoridade moral. Mas, e quando a morte atinge o “inocente”, como em muitos casos ainda não desvendados pela polícia? Quem formou este menor? Qual a sua história? O que foi feito por ele para que não se tornasse mais um? Perguntas complexas para as quais não temos respostas. Nenhum de nós. Até quando?

Nossa resposta não pode ser simplificadora ou vazia. Não pudemos sucumbir ao senso comum do “pega, esfola e mata” ou do “prende e arrebenta”. Precisamos ir além do “Eita, mataram mais um ali” pronunciado por Jovita há mais de 100 anos em nossa Taiobeiras. É hora de nos perguntarmos: “o que podemos fazer de bom para que mais um não seja morto ali?”.

11 comentários:

Anônimo disse...

Lídio Ita Blue disse no Facebook: É isso aí, Companheiro - usar o verbo para incomodar

Anônimo disse...

Vinícius De Castro Amaral disse no Facebook: excelente texto!

Anônimo disse...

Lany Nascimento disse no Facebook: meu amigo como queria poder escrever assim como vc as suas palavras deslisam em suas mãos e sempre lemos coisas que nos levam a viver como se estivéssemos em um filme que passa pelas nossas cabeças, mas como isso não se aprende, é sim um dom maravilhoso, eu sou suspeita de falar qual quer coisa sobre seus textos pq sou sua fã e adoro viajar dentro deles, parabéns mais uma vez pela beleza das palavras em forma de uma deliciosa leitura, ficou poético e não teve peso, ADOREI!!!!

Anônimo disse...

Valéria Tri Borborema disse no Facebook: Levon, eu li seu artigo e achei muito bom, escrito com sensibilidade e fina veia literária, o que é muito raro. Penso que você tocou no ponto ao criticar veementemente as ações paliativas. Mas o fato é que o poder público precisa agir no sentido de adotar medidas que, embora não surtam efeitos imediatos, crie na sociedade, nas três esferas de poder, a noção de que o investimento no ser humano é a melhor, talvez a única chance de se debelar esse terrível. Mas aí é preciso vontade política. De todo modo, parabéns pelas sábias e profundas palavras. Deveriam ter eco inclusive noutros municípios.

Anônimo disse...

Luis Henrique disse no Facebook: ai Levon Nascimento li o seu texto e achei super interessante porem teve uma parte que me chamou muita atenção
....A diferença é que com aqueles primeiros, geralmente excluídos das oportunidades mais básicas, inclusive da convivência familiar saudável, ainda lhes faltam os recursos financeiros para a satisfação dos desejos de consumo.....
E AI VAI MINHA OPINIÃO
eu não concordo com essa de BANDIDO dizer ''Ah eu num tive oportunidade , eu num tive chance ''MENTIRA .... podemos olhar ao redor vermos que estamos em um pais ( mesmo com tantos problemas de corrupção e outras coisas , não quero falar de politica ) em que o crescimento no numero de empregos tem aumentado HOJE EM DIA ATE MESMO COMO UM SIMPLES SERVENTE DE PEDREIRO PODEMOS GANHAR A VIDA
pessoas que entram nessa vida pra mim entram por que procuram maneiras facies de ganhar dinheiro .......
HOJE EM DIA SE A PESSOA ESTUDAR ELA PODE CONSEGUIR FAZER SUA FACULDADE E TRABALHAR E VIVER HONESTAMENTE
POREM uns podem dizer '' ah mais eu to velho num tem como estudar '' MENTIRA existe o EJA .... ''ah mais uma faculdade é cara num tem como fazer '' MENTIRA no BRASIL de hoje temos o ENEM que oferece vários recursos para a realização de uma boa faculdade
RESUMINDO ; A PESSOA QUE ENTRA PRA ESSA VIDA ELA ENTRA POR QUE QUER E JÁ ENTRA SABENDO DOS RISCOS
ESTA É MINHA OPINIÃO.

LEVON NASCIMENTO disse...

Estas oportunidades que você cita começaram ha pouco tempo, depois de Lula e Dilma na presidência. Há uma geração inteira que não teve acesso a isto. E, mesmo com todas as oportunidades, existem outras nuances sociais que influenciam a vida das pessoas. O tema é bastante complexo para simplificar apenas como uma mera "FALHA DE CARÁTER", como muitos imaginam. Sugiro maior leitura de textos sociológicos e antropológicos sobre o tema. Há uma gama enorme de estudos a este respeito.

Anônimo disse...

Cida Alves disse no Facebook: Parabéns pela excelente reflexão. Você argumenta com total precisão.

Anônimo disse...

Fernando Soares disse no Facebook: O artigo no folha regional é pura verdade.

Anônimo disse...

Ótimo testo Levon, aqui você diz toda a nossa realidade do momento, e uma das medidas na minha opinião para resolvermos partes destes problemas é a longo prazo, com um trabalho feito agora na base, com uma interação do poder público, sociedade, escolas, igrejas, em fim toda a comunidade para uma preparação de trabalho voltado para as nossas crianças, na área do esporte, na área cultural, eventos religiosos, com assoes sociais da parte assistência social em parceria com o conselho tutelar para um acompanhamento mais próximo dos pais, teríamos uma Taiobeiras no futuro com menos problemas, porque nos teríamos dado uma oportunidade para estas crianças inserir antes em uma sociedade mais saudável, antes de caírem nas mãos dos recrutadores para o tráfico, roubo, ou algo desta natureza.

Anônimo disse...

Marileide Alves Pinheiro disse no Facebook: Bom d+++> parabéns, Levon Nascimento....

José Carlos disse...

Parabéns, Levon, você refletiu em suas palavras o pensamento de todos Taiobeirenses, além de revisitar a história local, dando-nos mais conhecimento sobre o nosso passado.

Zeca Nogueira-filho adotivo de Taiobeiras