sexta-feira, 24 de maio de 2013

A direita católica rejeita o lava-pés

José Lisboa Moreira de Oliveira*
Texto de José Lisboa Moreira de Oliveira no site Adital

A mídia tem noticiado que grupos ultraconservadores da Igreja Católica Romana estão criticando o papa Francisco por ele ter incluído na cerimônia simbólica do Lava-pés, na última quinta-feira santa, duas mulheres, sendo uma delas mulçumana. Tais grupos defendem que neste ritual (que, diga-se claramente, não é sacramental, mas apenas simbólico) só devem ser admitidos "varões”, ou seja, pessoas do sexo masculino. Tal atitude é profundamente lamentável porque rompe clara e diretamente com o profundo significado de toda a simbologia do Lava-pés. Tais pessoas comportam-se como Pedro, o qual, compreendendo bem o que o gesto de Jesus significava, recusou-se terminantemente a ter os pés lavados pelo Mestre (Jo 13,6-8).

Antes de tudo é preciso dizer que o gesto do lava-pés, que costuma ser repetido na missa da Ceia do Senhor da quinta-feira santa, não é um gesto sacramental, no sentido técnico da expressão, mas apenas algo meramente simbólico, apesar da profundidade do seu significado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus entendia comunicar por meio deste gesto uma mensagem profunda acerca da essência do seu seguimento. Ele quis se comportar como um escravo (em grego: doulos) que realizava um serviço (diakonia) considerado dentro do contexto cultural de então como humilhante e indigno de uma pessoa livre. Naquela época somente os escravos e as mulheres faziam esse tipo de serviço. Ao realizar aquele gesto Jesus entende claramente reverter a lógica cultural de então, deixando bem claro que todos aqueles e aquelas que queriam entrar no seu seguimento deviam "lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Quem quisesse ser seu discípulo ou discípula devia ser servidor ou servidora (diákonos) de todos os outros (Mc 10,44), de modo particular dos que estavam prostrados, cansados e abatidos (Mt 9,36).

Dentro deste contexto, os discípulos (o texto não fala de apóstolos) representam a comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus de todas as épocas e de todos os lugares. Não tem o menor sentido entender a simbologia do lava-pés como sendo um gesto sacramental que instituía naquela ocasião um ministério ordenado hierárquico androcêntrico (formado só por homens) no sentido restrito que se entende atualmente na Igreja Católica Romana. Isso seria violentar o texto e tirar-lhe todo o significado que Jesus quis lhe dar (Jo 13,12-17). A crítica ao papa Francisco não tem sentido, uma vez que a inclusão de duas mulheres (sendo uma mulçumana) na cena do lava-pés ajuda a entender, em pleno século XXI, a profundidade do gesto de Jesus e o que deve significar o cristianismo em nossos dias. O gesto do papa Francisco ajuda-nos a perceber com mais clareza que a Igreja Católica Romana, se quiser ser uma comunidade de discípulos e de discípulas de Jesus, deve inclinar-se diante da humanidade e lavar os pés doloridos e chagados de todos aqueles e de todas aquelas que são mantidos na exclusão, inclusive pelo próprio sistema religioso católico romano.

Neste sentido o gesto do papa Francisco se conecta com outros gestos de Jesus: a acolhida e inclusão da mulher estrangeira (Mc 7,24-30) e o deixar-se tocar por outra que sofria de sangramento permanente (Mc 5,25-34). Jesus, no seu tempo, rompe com padrões e normas religiosas consideradas sacrossantas e chega a denunciar os chefes religiosos que, para manter leis humanas, deixavam de lado o mandamento divino (Mc 7,9), que pode ser resumido no cuidado com as pessoas sofridas (Mc 3,1-6). Lamentavelmente, vinte séculos depois, ainda existem cristãos que não entendem nada disso e continuam com práticas absurdas excludentes e sem mais nenhum sentido para o cristianismo. Com isso deturpam a verdadeira mensagem de Jesus e impedem à Igreja de anunciar a Boa Notícia do Evangelho.

A crítica da direita ultraconservadora católica se fundamenta na hipótese, hoje cada vez mais insustentável, de que na última ceia Jesus se reuniu apenas com os doze apóstolos, ou seja, com seus discípulos varões. Digo insustentável porque cada vez mais estudos sérios vão revelando que esta hipótese não tem o menor cabimento e foge inclusive da lógica dos próprios evangelhos. Jesus, contrariando os costumes culturais de seu povo e de sua época, permitiu que no grupo de pessoas que o seguiam existisse certo número de mulheres (Lc 8,1-3). Segundo o relato de Lucas havia inclusive mulheres casadas (Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes), o que era considerado absurdo para os padrões culturais da época. Digo absurdo porque, segundo os costumes de então, a mulher devia permanecer em casa e quando saísse em público devia passar despercebida. Não se admitia, por exemplo, que uma mulher, especialmente se casada, conversasse em público com um homem (Jo 4,27).

Ora, se Lucas admite a presença de mulheres discípulas no grupo de Jesus e se todos os quatro evangelhos canônicos registram que estas mulheres discípulas estavam em Jerusalém no momento da morte e da ressurreição de Jesus, fica impossível, senão contraditório, afirmar que elas não estavam presentes no momento da última ceia. Não teria o menor sentido Jesus dispensá-las num dos momentos mais significativos de sua vida. Jesus não teria sido coerente com a sua prática subversiva de inclusão se, após utilizar-se do dinheiro das mulheres para montar a ceia (Lc 8,3), as tivesse proibido de sentar-se com ele naquele momento celebrativo tão importante.

Além disso, sabemos pela história do judaísmo da época de Jesus que as mulheres tinham uma participação significativa na celebração da ceia pascal. Além de preparar as iguarias e as mesas, eram as mulheres que davam início à celebração, acendendo as luzes do ambiente, enquanto o chefe da casa recitava as famosas sete bênçãos. Cabia à mulher do dono da casa acender as luzes do Menorá, o famoso candelabro judaico formado por sete hastes e sete velas. Cabia ainda à mulher do dono da casa passar-lhe as taças de vinho para que o marido rendesse graças a Javé. Lucas, mesmo que indiretamente, acena para uma possível presença de mulheres no recinto da última ceia, pois ao narrar o episódio não diz que Jesus "tomou o cálice”, mas que "recebendo a copa de vinho, deu graças” (Lc 22,17). É lamentável que os tradutores machistas, inclusive da Bíblia Edição Pastoral e da versão protestante conhecida como de João Ferreira de Almeida, continuem usando o verbo "tomar” e não "receber”. A exceção é a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) na qual se lê a seguinte versão: "Ele recebeu então uma taça...”.

A Igreja Católica Romana sempre chegou atrasada em muitas conquistas da humanidade. Ela, até pouco tempo atrás, foi contra a liberdade, a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, a autonomia da pessoa etc. E hoje muitos membros da hierarquia aceitam estas conquistas mais por oportunismo do que por fidelidade ao Evangelho. Já está passando da hora de repensar com seriedade o lugar da mulher na Igreja. Continuar a tratá-la como "mão de obra barata”, como "pau para toda obra”, excluindo-a dos ministérios ordenados e dos cargos de coordenação mais altos na Igreja é, antes de tudo, ir na contramão do Evangelho e causar um grande estrago na missão evangelizadora. Não dá, pois, para continuar assim. Já passou da hora de mudar esta situação de exclusão, de discriminação e de preconceito.

[* Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações: http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].

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