segunda-feira, 18 de março de 2013

Leco Damião: Abram suas janelas, libertem Verônica!

Leco Damião
* Por Leco Damião, taiobeirense, publicitário formado pela Faculdade Paulus de Comunicação, na Revista Artigo.

Certa vez li uma fábula, passada há mais de 2000 anos, tal estória serviu-me de incentivo para escrever sobre o dilema de Verônica, uma grande amiga, que pretendo lhes apresentar em algumas linhas. Voltando à fábula, trata-se da vida de um garoto que crescia numa terra bem distante, um menino que sempre chamou a atenção de todos ao seu redor, figura popular, simpática, que costumava acumular amigos por onde quer que passasse. Esse menino era diferente dos demais de sua idade, ele tinha o poder de cativar as pessoas, em tempos atuais seria um grande comunicador. O carisma que trazia consigo era capaz de unir legiões apenas para escutá-lo, não bastasse, conseguia exercer influência grande sobre massas, tanto que sua popularidade atravessou os muros do vilarejo onde vivia e chegou aos ouvidos de pessoas muito poderosas, que se sentiram incomodadas ao perceberem a ameaça que esse jovem representava.

O jovem foi morto algum tempo depois, porque pensava diferente daqueles que estavam no poder e começava a colocar o povo contra os mesmos. O menino morreu, mas sua trajetória se perpetuou juntamente com a força de atrair olhares para as coisas incríveis que ele fazia, após inúmeras releituras desta fábula, muito se acrescentou e mais ainda se retirou, tanto que este jovem, a princípio um revolucionário anárquico, tornou-se um mártir do bom “mocismo”, modelo de comportamento e elemento fundamental do estado na contenção das massas, e assim foi de anarquista à moralista em questão de tempos.

Os pais de Verônica contavam-na esta estória desde que ela se entendia por gente. Eles sempre participaram de grupos que visam discutir a “genialidade” deste menino, o que os fizeram tomá-lo como modelo de vida, não o modelo anárquico, ou do livre pensamento, mas o modelo baseado na moral, advindo de uma normativa social considerada “correta”. Desde então, muitas regras foram instituídas na casa de Verônica, mulheres sempre usaram roupas cor de rosa e homens sempre vestiram azul, tudo que fugia desse parâmetro era considerado anormal dentro daquele lar. Esta era a maneira, baseada na estória “reescrita” do menino, para obter-se uma família feliz e bem estruturada.

Verônica nunca gostou de rosa, muito menos de azul, sua cor favorita era o verde. Passou toda a infância com a cara emburrada, sempre de mau humor por ser obrigada a usar roupas que não combinavam com ela. Entretanto, não contestava a atitude dos pais por saber que esta era a forma “correta” de meninas se vestirem, mesmo gostando de verde Verônica não tinha referenciais de meninas usando verde, era algo inato. Certo dia resolveu aparecer toda de verde em casa, era apenas um teste com seus pais, que não funcionou muito bem.

Após inúmeras represálias sofridas por meio dos pais – que chegaram a contratar uma “profissional” especialista em moda para tentar convencê-la de que meninas só poderiam usar rosa – Verônica abriu todas as janelas de casa e começou a observar a vida lá fora, a natureza daquela parte privilegiada da cidade com tantas árvores, folhas, flores e até mesmo alguns pássaros cada um com sua cor e todos convivendo em perfeita harmonia.

Verônica tirou sua roupa verde do armário e saiu batendo a porta, ela não levava mochila bastava uma cabeça, começando a ficar cheia de ideias. Quando chegaram a casa, seus pais encontraram sob a cômoda as roupas rosas e um bilhete, que dizia:

“Fui ganhar o mundo, ser eu mesma. Desculpe por não ser cor de rosa como vocês queriam, não quero mais envergonhá-los. Deixem-me ser verde, livre, quero voar! Ainda amo muito vocês. Beijos, Verônica!”

Gostaria muito de dizer que Verônica saiu de casa com sua roupa verde e foi feliz e aceita para sempre. Infelizmente, inúmeras pessoas ainda acreditam em fábulas mal contadas e usam-nas como modelos em suas vidas. Essas pessoas vivem em casas onde não há janelas, o que as impossibilita de terem conseguido ver o mesmo horizonte que Verônica avistou, são pessoas que não entendem a natureza de fato, não podem reconhecer quão belas são as cores e quão lindas ficam se colocadas lado a lado.

Há uma semana estamos sem o verde de Verônica, ainda temos muitas cores e se quisermos que elas continuem a iluminar nosso cotidiano livrando-nos de um mundo monocromático é preciso que abramos nossas janelas. A cada janela aberta uma Verônica é salva de ser o que não é.

Por hoje é isso, até a próxima!

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