sexta-feira, 29 de março de 2013

Artigo do Levon: Uma mensagem de Páscoa contra o racismo e o fundamentalismo

" - Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra."
Em meio a uma sociedade cada vez mais individualista, egoísta e mercantilizada, ainda se vêem muitas pessoas à procura do sagrado ou buscando a participação em algum tipo de grupo religioso. A ciência moderna, com todas as suas certezas, não deu conta de explicar todo o “mistério” ao ser humano, não ocupando dentro do coração das pessoas o espaço da fé e da admiração e reverência pelo infinito.

Porém, como diz o teólogo Leonardo Boff, “numa sociedade de mercado, a religião e a espiritualidade se transformaram também em mercadorias à disposição do consumo geral”. Assim, vemos pessoas se aproximando das experiências místicas como se estivessem empurrando um carrinho de supermercado. Nas prateleiras espirituais, procuram milagres, curas, contatos “pirotécnicos” com Deus, respostas para os problemas imediatos e individuais. Até aí, no universo da fé, o individualismo impera, onde deveria haver fraternidade. Muitos imaginam que, ao pagar os intermediários de Deus, com promessas ou dinheiro em espécie, fazem jus às benesses celestiais, tal e qual nos caixas de bancos e nas boutiques sortidas do modo de produção capitalista. Capitalismo tão entranhado em suas vidas, que a consciência já o toma por natural, imutável e permanente em toda a História. Não conseguem enxergar a contradição entre o capital e o Deus a quem procuram. Cria-se o terreno propício para que os “mercadores e mercenários dos templos modernos” realizem seus “negócios”.

Outros, de tão envolvidos com os grupos religiosos, tornam-se sectários, fechados à inteligência e à iluminação do próprio Espírito divino a quem dizem seguir.

Quero falar de minha experiência com a religião. Nasci numa família católica, fui batizado ainda no primeiro ano de vida, fiz primeira comunhão aos 12 anos, mas somente considero que comecei a participar ativamente da vida da instituição religiosa aos 16. Não sem antes ter aprendido a ser crítico com a história da Igreja. O que mais me chamou a atenção, ao contrário do que parece ser o “normal” para muita gente, não foram os milagres, as curas, as músicas açucaradas dos grupos religiosos ou o medo da morte e a incerteza do céu ou do inferno. Tampouco o fundamentalismo de quem acha que somente os dogmas bíblicos ou a doutrina ensinada pelo Magistério (caso da Igreja Católica) constituem a única verdade em que se deve crer e obedecer. Encantou-me as palavras e, mais do que elas, as atitudes concretas de Jesus de Nazaré, em seu tempo e em sua localidade. Exemplos que, passados 2000 anos, continuam a ser impressionantemente atuais e radicais, sobretudo quando colocados em contraste com as normas e os padrões em uso no nosso tempo. Vamos a alguns deles.

Em nossas sociedades, ainda que muito disfarçadamente, valoriza-se a origem social e a posse de bens econômicos. Ao contrário disso, Jesus nasceu numa família da classe trabalhadora (cf. Mt 13,55), em uma estrebaria (cf. Lc 2,7) e, visivelmente, não viveu na opulência (cf. Mt 8,20). Ainda, propunha a quem queria segui-lo que se livrasse do excesso de bens materiais, distribuindo-os aos necessitados e assumindo uma vida de simplicidade, para assim alcançar a eternidade (cf Mt 19,21).

Também me impressiono com o trato de Jesus para com as pessoas. Não eram atitudes de um rei arrogante para com os seus súditos. Eram ações de um irmão mais velho, solícito e cuidadoso. Amou a todos, mas especialmente deu atenção aos mais mal-tratados pela sociedade e pelas leis severas de sua época, “passou a vida fazendo o bem” (cf At 10,38). No caso da mulher adúltera, para a qual a lei recomendava pena de morte a pedradas, solicitou aos irados homens que atirassem-lhe as pedras caso não tivessem pecados (cf Jo 8,7). Com os famintos, mais do que o milagre da multiplicação de peixes e pães (cf Mt 14,15-21), o que mais chama a atenção é, que, num tempo de falta de generosidade com o próximo, ele se preocupou com a fome de uma multidão. Poderia ter muito bem acatado a proposta dos discípulos e mandado o povo embora, buscar comida em casa ou nos vilarejos próximos. Não fez assim. Pediu aos seus colaboradores que organizassem grupos e, só então, partilhou o alimento com os famintos. Multiplicou, organizou, dividiu (partilha). Mais do que um milagre, uma atitude pedagógica e solidária.

Jesus também não se preocupou com os preconceitos e fofocas da sociedade da época. Andou com cobradores de impostos (cf Mt 10,3) e conversou com a samaritana (cf Jo 4,6-21), duas categorias muito mal-vistas pelos judeus; perdoou prostitutas. Praticou a justiça, entrou na casa dos necessitados sem se importar se eram judeus ou pagãos (romanos). Foi firme na denúncia da maldade e da injustiça expulsando os vendilhões do templo, denunciando os fariseus hipócritas, que conheciam a lei, mas não a praticavam. Era solícito e amável com todos; firme e rigoroso quando necessário. Não hesitou em morrer numa cruz, sem nada dever, porque esta era a sua missão.

Não cobrou pelo que fez. Não praticou lavagem cerebral. Não foi preconceituoso ou racista como alguns que se dizem pastores de “seu” rebanho. Não excluiu um gênero em detrimento de outro. Abraçou a causa dos humilhados, sofredores e injustiçados. Enfrentou serenamente os que detinham poder político e econômico em sua época.

Amou, ao invés de estabelecer dogmas. Reuniu, não criou instituições. Doou, não tomou. Dialogou, não impôs. Defendeu a vida incondicionalmente, não matou. Separou Estado e Religião. Mandou dar a César o que era dele; e a Deus o que pertencia à divindade.

Foi humilde até a morte; e pena de morte sem ter cometido crime algum! E voltou a viver. E vive sempre!

Por isso, não entendo como a religião de alguns se torna fundamentalismo, preconceito, intolerância, falta de diálogo, desrespeito com o próximo, teologia da prosperidade (“Deus ama quem doa mais”), avidez por dinheiro e status, sarcasmo com os diferentes ou racismo explícito. Não provém de Jesus de Nazaré essas atitudes, pelo contrário, deve vir do seu rival, aquele que, em latim, diabolus, tudo divide, arruína e destrói.

Mais do que conseguir milagres, a religião nos deve levar a “praticar pequenos milagres”, um deles, por exemplo, sair de nossa mesquinhez e egoísmo, e partir para o encontro de Deus no rosto dos demais seres humanos, sem importar sua cor, sua orientação sexual ou sua condição econômica. Especialmente, pessoas religiosas devem segurar na mão e ajudar a erguer os que caem pelo caminho que nos separa do céu, aquele “estado” onde para sempre reinará o amor fraterno e a face brilhante de Deus eternamente nos iluminará.

Um comentário:

Unknown disse...

e dizem que vivemos em um tempo independente, antigamente prendiam o corpo queriam a força dos escravos, hoje estao mais espertos olha quanto avanço, prendem as pessoas apenas com achamada alienaçao, o povo esquece que somos racionais e nem fazem juz ao nome, dao significados contrarios a coisas super importantes,e esquecem do mais importante, coisas futeis se tornam deuses a serem seguidos e nosso deus e esquecido..