terça-feira, 26 de março de 2013

A oposição 'silenciosa' ao Papa Bergoglio

Humildade: marca do Papa Francisco
Do site IHU Unisinos

A Cúria e os movimentos conservadores temem que Francisco "enterre" a involução pós-conciliar.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada no sítio Religión Digital, 23-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele é papa há apenas uma semana, e parece que a história fez uma reviravolta. Francisco é o pontífice de que a Igreja precisava? Além disso, é o pontífice de que a sociedade globalizada do século XXI precisa? Em um mundo cada vez menor, onde qualquer notícia chega imediatamente aos lugares mais remotos do globo, os primeiros gestos e decisões de Bergoglio geraram uma onda de otimismo e apoio sem precedentes nos últimos pontífices. E, paralelamente, embora em silêncio ou sob o amparo do anonimato, começam a surgir as críticas à "humildade" do novo papa, que é acusado de querer "enterrar" a involução pós-conciliar desejada pelos dois pontífices anteriores.

O chamado de Francisco a uma maior austeridade, seu sonho de que esta seja uma "Igreja pobre e para os pobres", a ausência de enfeites em sua vestimenta e gestos como o de pedir a bênção do povo ou de ficar à porta da paróquia de Santa Ana para se despedir dos seus fiéis são gestos certamente revolucionários. E também indicativos de que certas coisas estão mudando. Para o desgosto de alguns. De quem?

Em primeiro lugar, da Cúria. Jorge Mario Bergoglio não é o papa que eles elegeriam a partir da estrutura. Scola ou Scherer eram os homens destinados a uma "reforma tranquila", que não tocaria no essencial e manteria o mistério em torno da figura papal e do papel dos órgãos vaticanos. Dar por encerrado o Vatileaks e aceitar pequenas mudanças, mas sem tocar no essencial: o poder nas mãos de alguns poucos.

No entanto, Francisco foi claro. "O verdadeiro poder está no serviço", afirmou, na linha das últimas palavras de Bento XVI, com quem irá almoçar neste sábado e que quis, em seus últimos dias, denunciar as tramoias de uma estrutura que ele não conseguiu ou não soube pôr na linha.

Em segundo lugar, os novos movimentos. Viu-se isso na missa de início de pontificado de Bergoglio, por outro lado muito numerosa. Ali cabiam todos na Igreja. Não só os Kikos [membros do Caminho Neocatecumenal], o Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e afins, cujas bandeiras, certamente, praticamente desapareceram da outrora conquistada Praça de São Pedro.

Os "apóstolos da nova evangelização", a quem João Paulo II havia conferido exclusivamente a capacidade de se considerarem Igreja, têm que se relocalizar e buscar o seu lugar em uma instituição em que parece que, finalmente, todos podem entrar. As congregações religiosas, autênticas vilipendiadas durante os últimos 30 anos, voltam a respirar e se sentem com a liberdade e a confiança para continuar realizando o seu trabalho, em alguns casos milenar. Também os fiéis "a pé", que consideram o novo papa muito mais próximo em seus gestos e atitudes do que os papas anteriores.

Em terceiro lugar, os apologetas. Muitos representantes da "caverna" eclesial, midiática, social e política se encontram diante da tessitura da obediência cega à figura papal e da sensação de que o novo pontífice pode "trair" alguns princípios irrenunciáveis. Se já foram muitos os que, mais ou menos abertamente, criticaram a renúncia de Bento XVI por ter "descido da cruz", eles temem que a abertura sugerida por Bergoglio "acabe quebrando a Igreja".

De fato, os últimos cismas na Igreja Católica quase sempre ocorreram do lado dos ortodoxos, em momentos de papados reformistas. Os "progressistas" simplesmente se tornam indiferentes, não com relação ao fato religioso nem com relação à fé, mas sim com o funcionamento das estruturas.

Em quarto lugar, muitos bispos, principalmente nos países da "velha Europa", especialmente a Espanha, aos quais a nomeação pegou-os "no contrapé" e que, por enquanto, optaram por esperar para ver se Francisco freia os passos que está dando ou que o tempo passe e a Cúria consiga "atar" alguns dos seus movimentos. Em todo caso, essa estrutura está disposta a "morrer matando".

O prestigioso vaticanista Marco Politi (do jornal Il Fatto Quotidiano) também alertou para as resistências internas ao "papa dos pobres", que provêm de setores tradicionalistas e conservadores da Cúria Romana e que já começaram.

Para Politi, é precisamente a determinação mostrada por Francisco que gerou essas reações subterrâneas internas à estrutura eclesiástica. "Exigir uma Igreja pobre e eclesiásticos irrepreensíveis significa pôr em contradição estilos de vida e comportamentos, que envolvem milhares de 'hierarquias' grandes e pequenas", escreveu.

Essa exigência também pressupõe, nas palavras do vaticanista, "pôr em discussão palácios, carros, servidões, consumismo, carreirismo que proliferam no mundo eclesiástico, assim como em qualquer organismo social, convivendo lado a lado com existências totalmente desinteressadas dedicadas à missão".

Para Politi, pôr a pobreza no primeiro lugar da agenda "não equivale apenas a viver em duas peças como o Bergoglio arcebispo em Buenos Aires. Implica a impossibilidade para a hierarquia eclesiástica de negar a transparência". Além disso, poderia significar também tornar público o próprio patrimônio imobiliário, estimado pelo jornal econômico Il Sole 24 Ore em 1 bilhão de euros somente na Itália; publicar, como fazem na Alemanha, os balanços das dioceses italianas, normalmente contrárias a isso; reformar drasticamente o IOR (Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano), recentemente acusado de ter lavado dinheiro em operações pouco transparentes. O IOR poderia ser diretamente abolido e substituído por um banco ético, em conformidade com as normas internacionais.

A resistência ao primeiro papa que se chama Francisco começa a ser percebida também entre algumas das penas de renome da Itália. Assim, Giuliano Ferrara, diretor do jornal Il Foglio, considerado um "ateu devoto", que passou de jovem comunista a liberal de direita, escreveu uma carta aberta diretamente a Francisco, intitulada "Padre, tenho medo da ternura", jogando com a homilia que o papa pronunciou na missa de inauguração do pontificado, em que convidou a não ter medo da ternura e da bondade.

"Eu estou entre aqueles poucos que têm medo da ternura, e digo-o sem muita ostentação, e entre aqueles pouquíssimos que consideram parte da misericórdia divina também o juízo e o exercício da autoridade", escreveu Ferrara, paladino da luta contra o aborto, que é legal na Itália dentro dos 90 dias de gravidez.

"Para mim, seria instintivo escrever-lhe agora, com pouca humildade, que 'bom almoço' não é uma teologia, que o perdão, a paciência e a amizade de Deus pelo homem fazem parte de um projeto da criação [...] iluminado por ingovernáveis liberdades que é preciso disciplinar severamente", escreveu.

Ferrara, que lembra que Bergoglio disse uma vez que "abortar é matar a quem não pode se defender", afirmou ter ouvido de sua boca essas mesmas palavras, em uma atitude de "linearidade, clareza e verdade".

"Esperemos que o deixem trabalhar e que ele não acabe como o pobre João Paulo I", é o desejo que se escuta em muitos âmbitos eclesiais, tanto em Roma quanto em Madri. Palavras que denotam uma certa intranquilidade diante das reservas que o "tsunami Bergoglio" despertou nos setores mais ultraconservadores. O tempo lhes dará ou não razão.

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