quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fraternidade e Juventude: da tragédia à esperança

Artigo do Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis, de Montes Claros - MG.



Hoje, dia em que escrevo este artigo, é segunda-feira de carnaval. Já desde ontem esboçava algumas (ou a maioria) das ideias esboçadas aqui. Na quarta-feira, chamada “de cinzas”, a Igreja inicia o tempo da quaresma e, concomitantemente, há anos, vive Campanha da Fraternidade (CF), já tradicionalizada no contexto brasileiro. Neste ano de 2013 a CF versa sobre o tema da juventude. Tema pertinente e importante, uma vez que havia 21 anos não tínhamos uma campanha sobre a juventude. Aliás, pelo que disseram nos bastidores, incompreensivelmente, essa CF só foi conseguida pelo recolhimento de centenas de milhares de assinaturas e pedidos, quase que implorando à CNBB a prioridade à causa da juventude.

Bastidores a parte, não podemos deixar de considerar que a CF desse ano, sobre a juventude, foi antecipada pela ceifa de mais de 200 jovens na recente tragédia de Santa Maria (RS), acontecimento, sem sombra de dúvidas, desolador. Que pensar? Vontade de Deus? Certamente não. Contudo, como lembra Leonardo Boff, “mesmo naquilo que não é vontade de Deus nós podemos perceber PRESENÇA DE DEUS”. Isso é mais importante. E essa presença de Deus, mesmo diante de um fato tão assolador para tantas famílias, nos ajuda a refletir algumas coisas importantes (que, inclusive, já refleti com o povo em algumas celebrações).

Aos que partiram, infelizmente só nos resta a oração pelo conforto de seus familiares. Mas e os jovens que ainda estão neste mundo correndo os mesmos riscos? A eles e a nós é dada a oportunidade de revermos algumas atitudes, como, por exemplo: 1) A consciência de que não posso colocar 1000 pessoas onde só cabem 600, independente da margem de “lucro” que isso vá me trazer; 2) que não posso forrar um lugar fechado com material inflamável; 3) que não posso soltar fogos de artifício tóxicos em lugares fechados... e assim por diante. Mas será que a partir dessa tragédia o mundo vai agir diferente? Talvez não. E isso é que deve ser visto como causa de preocupação.

Agora todos estão tentando identificar os culpados: prefeitura, bombeiros, boite, banda, etc... Mas ainda há mais uma realidade que precisa ser considerada e que certamente ainda não foi porque talvez seja a mais dolorida de ter que se reconhecer: infelizmente, meus amores, quase nenhum daqueles jovens que estavam lá procuraram antes saber se aquele lugar oferecia segurança a eles quando entraram. Infelizmente nenhum de nós faz isso. Somos convidados para festas em salões, por mais sofisticados que sejam, e simplesmente vamos entrando, mas nunca nos preocupamos em saber se tais lugares nos dão a segurança necessária ante uma fatalidade. E quando não damos atenção a isso, corremos o risco de nós mesmos, com nossas próprias pernas, caminharmos, mesmo que inconscientemente, ao encontro da morte. Claro que donos de casas como aquela devem oferecer segurança às pessoas que as frequentam. Mas ninguém cuida de nós ou se preocupa melhor conosco tanto quanto nós mesmos. Por mais que se preveja segurança, nada sobrevive a uma fatalidade de tal porte.

Lembro-me que numa das reportagens transmitidas pela TV uma jovem disse: “Meu pai sempre me dizia pra olhar nos lugares onde eu ia se tinha extintor, saídas de emergência, etc... Quando cheguei na Kiss vi que só tinha uma porta, então procurei ficar mais no fundo, perto dela, por isso não tive dificuldades para sair quando o fogo começou”. É isso! O pai, a mãe, o educador, o avó, o padrinho... pessoas que nos orientam neste sentido. Quando dizemos que uma das prioridades da Igreja é a juventude não quer dizer que sua prioridade seja cuidar dos jovens, mas sim “ajudar os jovens a cuidar de si mesmos”. A Campanha da Fraternidade desse ano quer ser um auxílio nessa conscientização. Os pais precisam ajudar seus filhos a cuidarem de si mesmos, orientando neste aspecto. Será que estamos fazendo isso? Será que vamos passar a ter estes cuidados a partir de agora? O resultado da tragédia de Santa Maria é irreversível. Mas ainda podemos olhar com esperança para o futuro que nos é proposto e fazer diferente a partir de então.

Lembrei-me de meu pai que, com toda sua fé e simplicidade, diz assim numa ocasião como essa: “Se estivessem todos numa Igreja rezando isso não tinha acontecido”. E fiquei pensando comigo que a fatalidade mereceria outra reflexão acerca de nós mesmos? Quem pode garantir que não aconteceria se estivessem numa Igreja? Agora os bombeiros estão numa empreitada ferrenha para fiscalizar e fechar as casas noturnas impróprias para o uso. Mas e se isso tivesse acontecido numa Igreja? A essa altura as casas noturnas nem estariam sendo lembradas e nossas Igrejas é que estariam sendo todas fiscalizadas. Aliás, não é porque estamos rezando que estamos seguros. Na verdade, pode ser até o contrário. Estava refletindo sobre isso e cheguei à conclusão de que se os bombeiros fossem fiscalizar nossas Igrejas (Templos), quase nenhum deles permaneceria aberto. E aí temos que reconhecer que nossas Igrejas, na grande maioria das vezes, não oferece NENHUM tipo de segurança ao fieis que as frequentam: nenhum extintor de incêndio, nenhuma saída de emergência, nenhum sensor de fumaça (até mesmo porque se tivessem nem poderíamos mais usar o turíbulo), nenhuma placa de luminosidade indicando a saída, muitas vezes só uma porta no fundo, que é a mesma de entrada pra todo mundo. Às vezes construídas sem projeto adequado por quem é de direito, às vezes ainda em construção e em funcionamento, cheias de gambiarras de fios de eletricidade soltos pelas paredes afora.

Pois é, queridos(as)! Talvez então tenhamos mesmo que começar por nós. Costumo brincar que se formos levar à risca os padrões de segurança para locais de grande frequência de pessoas (tiremos o foco de casas noturnas e consideremos todos os outros), nossas igrejas, na grande maioria, “não são lugares de se frequentar”. Claro que fatalidade é fatalidade e pode acontecer em qualquer lugar e tempo. De outra parte, se formos alimentar nossas neuras com todas essas coisas, nem saímos de mais de casa. Mas, também, se ficamos em casa, pode vir a enchente e nos invadir, ou o terremoto e jogar tudo por terra.

De fato, estamos cercados de todos os lados, mas se soubermos prevenir nosso caminho e o caminho dos outros, poderemos evitar muitos males maiores. Já pensaram, por exemplo, nos shows pirotécnicos que são feitos por ocasião de nossas festas de padroeiros? Podem até ser bonitos, mas além de ser uma verdadeira queima de dinheiro, na grande maioria das vezes são realizados por pessoas sem a especialização ou autorização necessárias para tal manuseio. E não se busca especialização só “pra ficar mais baratinho, porque tem um paroquiano aqui que tem costume de fazer isso há muito tempo e faz ‘muito bem’”.   Há alguns anos (saiu em tudo que foi jornal), por ocasião do encerramento do Jubileu de São José Operário, em Barbacena, uma daquelas girândolas subiu e não estourou... desceu e estourou no meio de todo mundo. Conclusão? Anos e anos a Arquidiocese pagando indenização às vítimas. Hoje todas as programações impressas de festa de padroeiro, têm que trazer a seguinte nota: “Por determinação da Arquidiocese, a paróquia NÃO se responsabiliza por fogos de artifícios soltos durante as festividades”. Correto, por que assim, quem soltar os fogos é que assume a responsabilidade pelos mesmos.

Só estou dizendo tudo isso porque agora no carnaval mais uma vez milhões de nossos jovens estão saindo para as ruas e, depois, também para as casas noturnas, no meio de fogos, de serpentinas metalizadas (apesar de terem sido proibidas mas ainda comercializadas) e de bebida alcoólica. Será que eles seriam capazes, sob efeito de álcool, de correr a tempo caso outra fatalidade acontecesse. Os blocos comportam mesmo a quantidade de pessoas que neles tem? Será que já nos esquecemos da tragédia de Santa Maria? Tomara que todos estejam tendo um bom carnaval e não se esqueçam de levar em conta o sinal de Santa Maria para fazermos de modo diferente a partir de então. Só depende de nós.

Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, porque a Palavra de Deus permanece em vós (1Jo 2,14c). Que a Palavra de Deus nos ilumine e a Campanha da Fraternidade deste ano ajude nossos jovens a construir um futuro melhor para suas vidas, pensando não só na curtição, mas também, e sobretudo, na prevenção, “em todo tempo e lugar”. Só assim estaremos prontos a, como Isaías, diante de Deus, oferecermo-nos também como servos disponíveis a continuar a construção do seu Reino. A Juventude é a grande esperança da Igreja. E tal esperança só se concretizará com base na disponibilidade de cada coração para o exercício da missão. Que possamos todos juntos, quando o Senhor nos perguntar: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Respondermos com firme e comprometida voz: “Eis-nos aqui. Envia-nos” (Is 6,8).

Nenhum comentário: