sábado, 23 de fevereiro de 2013

Especial Igreja: A renúncia do Papa Bento XVI

Por Dra. Irmã Gemma Simmonds CJ. Religiosa da Congregation of Jesus. Diretora do Instituto de Vida Religiosa, coordenadora do programa de intercâmbio Erasmus e vice-presidente da Associação Teológica Católica da Grã-Bretanha. Email: g.simmonds@heythrop.ac.uk Telephone: 020 7795 4216. Inglaterra. Adital.

Desde a sua eleição sempre insisti que o Papa Bento XVI era capaz de surpreender a todos nós. Então sinto uma enorme satisfação que ele cumpriu as minhas previsões. Em geral, mudanças radicais de estrutura não vêm de liberais que buscam consenso, mas de conservadores que confiam muito em si próprios (veja o exemplo de Margaret Thatcher), e o anúncio da sua renúncia é nada se não radical. Com um só golpe ele desmistificou o ofício papal e criou condições para que futuros papas possam renunciar, se debilitados pela idade ou enfermidade, sem temer que a Igreja vai entrar em colapso, ou que o céu vai cair em cima de nós.
Faz muito tempo que o historiador da Igreja, da Universidade de Cambridge, autor do livro Santos e Pecadores: Uma História dos Papas propõe que um papado forte não é necessariamente beneficial para a Igreja. Certamente, o Papa como "Superstar” é uma invenção muito recente do Papa João Paulo II, exímio "showman” que foi. Pessoalmente tinha muito afeto para um papa da minha infância, João XXIII, mas a figura de um Papa "celebridade” tende a investir todos as declarações papais com uma solenidade que nem sempre merecem, e reduzir o exercício de consciência e autoridade que pertence por direito tanto ao bispo local, como mestre da fé, como a todos os batizados.

Inevitavelmente o anúncio do Papa causou choque no mundo midiático. Na correria "Gadarena” para convidar pessoas dos mais variados níveis de sabedoria e conhecimento da causa a opinar sobre a causa da renúncia e sobre quem será o seu sucessor, tenho ouvido umas declarações deprimentes! "Como seria bonito ter um Papa africano” declarou um comentarista na radio, como se a raça ou etnia de alguém fossem em si mesmas qualificação para o ofício. Este tipo de declaração não ajuda em nada. Certamente, pode ser o caso que uma história de serviço desafiante pastoral possa equipar um candidato para ser o Papa do futuro, mas a nacionalidade em si não garante isso. Em vários países o caminho a ofícios altos na Igreja não passa pela longa experiência pastoral junto com o povo, mas por meio do serviço diplomático, ou da direção de um seminário. Claro, é possível aprender muito nesses lugares, mas também é possível tornar-se clericalizado, ditatorial, patriarcal, e distante da vida do povo comum. Isso não seria base para um papado feliz e eficaz.

Num outro programa radiofônico, uma senhora católica entusiasta desejava um Papa que reinaria durante trinta ou quarenta anos. Existe muita coisa positiva em ter um Papa jovem e cheio de vigor, como testemunhamos nos sucessos do Papa João Paulo II no auge das suas forças. Aquele nível de energia mental e física pode ser um benefício enorme à Igreja. Porém longevidade papal nem sempre é só bênção. É difícil manter o ímpeto de autoridade durante muitas décadas. Um certo comodismo pode entrar sutilmente no aparato de governo, especialmente num sistema tão complicado e estratificado como a Cúria Papal. Falta a acuidade de olhos novos e é fácil que elementos vitais se percam sem uma perspective nova. Por motivo de respeito e ternura para com um idoso com uma tarefa muito difícil, talvez não se confronte decisões e problemas difíceis. Os últimos anos da vida do Papa João Paulo II certamente ensinaram o mundo sobre a fidelidade à vocação, o valor do sofrimento, a autoridade como kenosis, e a futilidade absoluta da cultura da "celebridade”. Mas não tenho duvido que enfraqueceram o papado e a Igreja. É de notar que alguns problemas espinhosos, como os escândalos dentro dos Legionários de Cristo, foram confrontados firmemente pelo Papa Bento XVI, tão logo ele assumisse a Cátedra de Pedro. Mas referente ao assunto mais urgente, que era o abuso sexual clerical, multidões de Católicos fiéis, e críticos fora da Igreja, viram tudo como insuficiente e tarde demais.

Durante mais de 60 anos, a Rainha Elizabeth II conseguiu manter um nível surpreendente de energia e acuidade no exercício da monarquia. Isso, porém, porque a responsabilidade última não é dela. O Papa não é uma figura constitucional, e a luta nada edificante pelo poder que parece ter assolado o Vaticano recentemente é sinal de um vácuo de poder. A única resposta adequada a esse vácuo é garantir que o Sé de Pedro esteja nas mãos de alguém que possui a energia e a acuidade política para dominar os apparatchiks briguentos.

É para o seu eterno crédito que o Papa Bento XVI tinha a sabedoria para entender isso e a humildade e força de personalidade para renunciar. O sucesso da sua visita à Inglaterra e Austrália em 2008 se destaca na minha memória como prova da sua capacidade de agir com segurança na esfera pública. Caritas in Veritate permanece um documento muito rico, que contém muita sabedoria. Mas talvez este último, carismático e corajoso gesto trará uma oportunidade para que a Igreja inteira se examine e reflita sobre o que precisamos de um Papa. Neste ano, que é o Ano da Fé o a jubileu de Vaticano II, fica claro que ainda permanece muita coisa a fazer para que as propostas do Concílio se tornem realidade. Na minha opinião, isso vale especialmente para a área do governo da Igreja A Igreja não é uma cooperativa nem uma arena de luta livre, onde o mais forte e o mais vocifero ganham. Nem pode ser governado adequadamente através da manipulação do labirinto de uma estrutura de governo que é opaca e que não presta contas a ninguém. No meio dos fiéis a polarização crescente dentro da Igreja é um escândalo cujos efeitos perniciosos estão se aumentando. Fora da Igreja, nosso críticos olham atônitos enquanto insistimos numa linha rígida doutrinal diante de imperativos pastorais urgentíssimos, enquanto falhamos em enfrentar de uma maneira eficaz os erros gritantes dentro das nossas próprias estruturas. Isso tem causado um cinismo enorme por parte de muitos, que não veem nas instituições da Igreja integridade e fidelidade à mensagem de Cristo, mas sim hipocrisia e a falta de uma fineza pastoral. Se continuamos a pensar que o Papa é a único fonte viável de autoridade dentro da Igreja, seremos condenados a uma gangorra de personalidades polarizadas, conservadores x liberais, que não fará que nós cresçamos. É bom lembrar que Dom Oscar Romero era considerado uma figura conservadora quando assumiu a liderança na Igreja de El Salvador. Foi o seu encontro de perto com as realidades pastorais que o impeliu no caminho de santidade, do martírio e da autoridade que perdura. Talvez isso nos ensine algo mais útil do que a rotulação política referente a quem deve suceder o Papa Bento XVI. Talvez este seja o momento dado por Deus para que sigamos a sabedoria do Espírito expressada no Concílio, desmanchemos a "tradição” muito recente de um papado forte e centralizador, e sigamos a linha do Cardeal Newman, em consultar os fiéis em assuntos de doutrina, incluindo a questão do governo da Igreja.

[Tradução: Tomaz Hughes SVD (não revisada). Publicado no site www.thinkingfaith.org da Província Inglesa dos Jesuítas].

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