sábado, 23 de fevereiro de 2013

Especial Igreja: À espera de um novo papa

Domingos Zamagna. Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo. Adital.


A notícia da renúncia de Bento XVI ao papado colheu a todos de surpresa. Afinal, somente um caso de renúncia tinha sido registrado na história da Igreja católica, quando o monge Celestino V, papa por seis meses, em 1294, resolveu retomar a sua vida eremítica, julgando-se pouco afeito às funções de pastor universal. Os demais casos de renúncias foram devidos a circunstâncias críticas, sem nenhuma relação com a atual situação.

De fato, a única razão alegada por Bento XVI é a sua idade avançada (85 anos) e os problemas que começam a abalar a sua saúde. Quem o viu nas celebrações natalinas percebeu claramente que já dava sinais de profunda debilidade física (embora guarde impressionante lucidez). Uma situação que só faria aumentar, perigosamente, a sua solidão. Todos sabemos que uma das melhores formas de controlar os bastidores de uma instituição é sobrecarregar o chefe de tal forma que ele não consiga fazer nada, ficando as decisões para os segundos escalões. Um regime colegiado poderia solucionar o problema, mas na Igreja esse regime ainda é uma utopia.

Deve ter pesado na sua decisão a situação precedente, a do papa João Paulo II que, mesmo moribundo, insistia em permanecer à frente da Igreja, quando todos sabiam que quem governava a Igreja efetivamente eram dois ou três cardeais, liderados pelo então cardeal Ratzinger. Antes que sucedesse com Bento XVI a mesma e embaraçosa situação, preferiu se antecipar. Um exemplar gesto de racionalidade, fruto de total liberdade.

De um lado, o gesto da renúncia, aliás previsível no Direito da Igreja, mostra que nem mesmo o papa é insubstituível, podendo-se perfeitamente se retirar do governo da Igreja, porque ela prosseguirá seu curso normalmente, sem traumas. Trata-se também de um gesto de desapego e humildade, reconhecendo que um outro cardeal poderá desempenhar sua missão, até melhor que ele. É uma crença lastreada na fé teologal, isto é, a Igreja tem uma assistência divina que independe das feições desta ou daquela pessoa.

Historicamente, a renúncia é significativa, pois os papas vêm desempenhando cada vez mais uma função de elevada moralidade: eclesialmente, intenso trabalho de purificação da Igreja; mundialmente, firme pregação da justiça, defesa da vida e da paz, com especial atenção para as nações mais pobres. Um novo papa, com mais condições de intensificar esses trabalhos, só poderá ser muito bem vindo. Daí a razão de todos se interessarem pela eleição do substituto de Bento XVI. Não deixa de ser uma esperança para todos.

Certamente na Páscoa os católicos já terão um novo líder que dará continuidade às boas iniciativas dos últimos papas, mas que não terá obrigação de ser um mero repetidor de fórmulas, contando com liberdade e apoio das forças vivas da Igreja para promover as reformas que se fazem necessárias dentro da Igreja, para o bem de todas as nações.

E, provavelmente, a primeira grande viagem do novo papa será ao Brasil, para o compromisso já assumido pela Igreja com a Jornada Mundial da Juventude, no próximo mês de julho, na cidade do Rio de Janeiro.

Oxalá o gesto de Bento XVI sirva também de exemplo para muitos governantes, a começar pelo nosso país, que – mesmo não tendo chegado aos 80 anos – estão há décadas no comando de cidades, regiões, estados, agências, parlamentos e partidos.

(*) Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.

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