sábado, 14 de abril de 2012

Artigo do Levon: Taiobeiras: do luto à luta


As lágrimas nos olhos e as expressões faciais graves
revelaram um povo que, abalado pela tragédia, está
aprendendo a não mais se calar e nem a se resignar.
A morte da menina Janaína no final da manhã do Domingo de Ramos de 2012 (1º de abril), vítima de um acidente de trânsito no eixo norte da Avenida do Contorno, em Taiobeiras, comoveu e indignou a todos. Porém, mais do que as justificáveis dor e tristeza despertadas, tornou-se a sofrida “deixa” para que a população saísse da apatia costumeira e ocupasse o seu lugar cidadão na avenida da história.

Na tarde-noite da quarta-feira, 4 de abril, o povo se manifestou como pode no mesmo chão onde os acidentes vem se tornando rotineiros. No carro de som a bradar mensagens de paz e pedidos de providência, a pé, em bicicletas, pilotando motos, em carreata; com faixas afixadas nos canteiros centrais da avenida, portando cartazes com dizeres que podem ser resumidos como sinal de insatisfação e exigência de políticas públicas efetivas que levem à mudança da situação; assim, cada um se fez sentir e ouvir naquele dia. As lágrimas nos olhos e a expressões faciais graves revelaram um povo que, abalado pela tragédia, está aprendendo a não mais se calar e nem a se resignar.

Nas redes sociais da internet, a indignação contra a inoperância do setor público (em promover políticas de prevenção de acidentes) e a cobrança de ações qualitativas de educação no trânsito transbordaram das telas virtuais para a realidade enlutada. Também muito se questionou sobre as atitudes pouco saudáveis da população taiobeirense na locomoção pelas vias públicas, além da irritante impunidade de condutores de veículos automotores que, despreparados ou embriagados, ceifam precocemente a vida de tantas pessoas neste Brasil a fora.

As ruas e avenidas da cidade, a cada dia, se enchem de novos veículos, fruto do bom momento econômico do país. No entanto, este fato deve levar o povo a assimilar novos hábitos e posturas de atenção e auto-proteção.

Nos questionamentos à administração pública de Taiobeiras quanto à segurança do trânsito na cidade, descontados todos os arroubos que o imediato da morte de uma criança provocou, dois fatores merecem destaque, explicação e ações efetivas, a saber:

1) Uma das moções (recomendações do povo aos políticos) na Conferência das Cidades de 2005, primeiro ano do atual governo municipal no poder, referia-se justamente à criação de políticas públicas que incentivassem os bons hábitos no trânsito, inclusive com a criação de espaços e vias, em nossas longas e bem projetadas avenidas, para a prática segura do ciclismo e da caminhada. Percebe-se que, daquele ano até o presente, a administração não se planejou para criar o óbvio em todos os eixos da Avenida do Contorno, ou seja, ciclovias e pistas de caminhada. Assim, se obrigou os adeptos dessas práticas a disputar lugar com os veículos automotores nos espaços destinados a estes últimos. Que o município cresceu e se desenvolveu, tendo o aumento de sua frota de carros e de motocicletas como um dos sinais desse avanço, é inegável e é bom. Mas faltou planejamento humanizador que aliasse, com qualidade, o progresso alcançado e o respeito civilizador aos personagens-destinatários principais desse bom momento. As pessoas que vivem ou transitam pelos logradouros públicos da cidade não foram levadas em conta nas equações políticas e estratégicas da administração municipal.

2) Mesmo antes da morte de Janaína, a população já vinha se manifestando e exigindo melhorias no trânsito de Taiobeiras, com a implantação de sinalização adequada e ostensiva e de redutores de velocidade em trechos críticos das principais avenidas; que o diga o programa de rádio Boca no Trombone, espaço muito bem utilizado pelo povo para exigir o cumprimento de seus direitos por parte dos governantes. Porém, estranhamente, “quebra-molas” polêmicos foram implantados em alguns lugares, mas não na parte da Avenida do Contorno mais próxima de residências populares e de forte concentração de crianças, justamente onde ocorreu o acidente fatal. Os idosos são outras vítimas e a ausência de programas qualitativos de educação de trânsito são problemas a serem resolvidos.

Disso tudo se conclui que ao poder público municipal cabe muito. À sociedade civil organizada, outro tanto. Todos podem se empenhar no papel de educar as pessoas para um trânsito mais civilizado e humano, a começar pelas próprias famílias na orientação aos filhos.

A dor da perda de Janaína para sua família é irreparável. Os agentes políticos não são os culpados pelo fato em si, evidentemente. Há um autor do acidente. Mas têm a responsabilidade de agir para impedir que novas situações trágicas como esta se repitam. O povo que saiu às ruas demonstrou um espírito novo, organizado e responsável. Sinalizaram que um novo tempo de cidadania se descortina para Taiobeiras. Do luto foram à luta! Que sua dor se transforme em respostas concretas e positivas!

3 comentários:

Edmundo Oliveira disse...

Triste saber os rumos que nossa cidade esta tomando,

INPUNIDADE:não dá mais pra fingir que nao existe !
Parabens Levon .

Edmundo Oliveira disse...

INPUNIDADE: não dá mais pra fingir que taiobeiras esta se tornando expert !

Parabens Levon , Sempre direto e objetivo .

Leco Saraiva disse...

Primeiramente, ótimo texto Levon. Apesar da tragédia, temos que ver que o povo está reagindo diante do acontecido, é preciso que haja luta para se conseguir algo. Alguns acontecimentos, geralmente trágicos, são necessários para que, não só o poder público mas, as população repense o meio em que vivem, questione limites, valores, regras, só assim haverá mudança. Nesse momento em que povo reage, reflete, vêm á tona inúmeras questões, não só impunidade, vem também a questão da educação no trânsito, tanto por parte do pedestre quanto do motorista, Taiobeiras está crescendo, muitas evoluções vêm por aí, e com isso muito problemas também, é preciso saber se adequar a eles.