quinta-feira, 8 de março de 2012

Que a saúde se difunda sobre a Igreja

Por José Lisboa Moreira de Oliveira, Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília. Em Adital.

Como vai a saúde eclesial? A campanha da Fraternidade interpela a Igreja

Há quase cinquenta anos realizamos a Campanha da Fraternidade. Não restam dúvidas de que tem sido um evento quaresmal significativo, deixando marcas positivas profundas na Igreja e na sociedade. Porém, caberia nos perguntarmos até que ponto as Campanhas da Fraternidade têm provocado a conversão interna da Igreja, particularmente dos seus dirigentes. Tenho a impressão de que, muitas vezes, as provocações são feitas "ad extra”, aos de fora, enquanto no interior da Igreja tudo permanece como antes. Considerando que, segundo o Texto-Base deste ano (n.º 3), a Campanha da Fraternidade, "celebrada na quaresma, intensifica o convite à conversão”, ouso agora levantar algumas questões, voltadas para a nossa conversão, tendo presente o tema específico da saúde na Igreja.

Antes de tudo seria interessante nos perguntarmos como os hospitais ligados à Igreja Católica trabalham e trabalharão a dimensão pública da saúde. Sabemos que existe um bom número de hospitais dirigidos por grupos da Igreja Católica. A maioria deles pertence a congregações religiosas com carismas voltados para a área da saúde. Mas pelo que se percebe boa parte, senão a totalidade, desses hospitais destina-se à elite. O atendimento aos pobres é feito parcamente e como "caridade”, muitas vezes para manter a fachada da filantropia. Mas a "missão” é servir aos ricos. Conheço bem de perto o caso de um hospital chiquérrimo mantido por uma congregação feminina no sul do Brasil. O carisma da congregação não está relacionado com a saúde, mas a congregação afirma que a finalidade do hospital é sustentar as irmãs que trabalham com os pobres, atividade mais respondente ao carisma do instituto. Porém, as irmãs que estão inseridas me dizem que elas e os pobres nunca veem a cor do dinheiro lucrado com o hospital.

Um segundo elemento a ser analisado seria a forma como as instituições de saúde dirigidas pela Igreja Católica tratam as pessoas, inclusive os seus funcionários. Seria oportuno verificar se a relação e o tratamento dados aos funcionários são pautados pelo mandamento do amor ou se seguem regras formais e frias, típicas de patrão e empregado, de prestadora de serviços e clientes. Há alguns meses, no estado de São Paulo, uma amiga minha, funcionária de um hospital dirigido por irmãs, quase morre dentro do próprio hospital. Estando na fase final de uma gravidez, minha amiga não foi bem atendida, teve uma grande hemorragia, perdeu o bebê e quase perdeu a vida. Revoltada deixou de trabalhar na instituição, foi vender cachorro-quente e está processando o hospital.

Outra questão a ser analisada é a participação de representações da Igreja Católica em organismos, instituições e conselhos ligados à saúde pública. Seria muito interessante verificar como se dá essa representação e participação. Caberia aqui a pergunta acerca da dimensão profética desta presença. Não há conivência com a corrupção e a má administração em troca de benefícios para as dioceses, paróquias e outras instituições eclesiais? Lembro-me bem de um caso que acompanhei no interior da Bahia. Um bispo profético lutou para que ele (ou um seu representante) tivesse assento no Conselho de Administração da Santa Casa de Misericórdia da cidade sede da diocese. Depois de muita luta conseguiu inserir uma cláusula no Regimento da instituição e segundo a qual as contas da Santa Casa só seriam aprovadas com a assinatura do bispo. O objetivo era fazer com que a aprovação do bispo fosse garantia de transparência, honestidade e lisura. Acontece, porém, que o sucessor deste bispo não seguiu o princípio e aprovava as contas sem verificar as falcatruas. O resultado disso foi a descoberta de desvio de dinheiro para o bolso do provedor e outros administradores da Santa Casa. Aparelhos médicos caríssimos, comprados com o dinheiro da Santa Casa, foram encontrados em consultórios de uma médica, filha do provedor, a mais de mil quilômetros de distância do seu local de destino. A denúncia foi feita por um padre que trabalhava na diocese. O padre foi perseguido e ameaçado pelos dirigentes da Santa Casa, mas o bispo não lhe deu nenhum apoio. Pelo contrário, deixou transparecer a sua insatisfação com a atitude do padre.

Caberia também uma pergunta sobre a Pastoral da Saúde e outras pastorais semelhantes. Que coisas fazem realmente? Como cultivam a dimensão profética da fé cristã? De acordo com o Texto-Base deste ano, sua missão é ser expressão da missão da Igreja e manifestar a ternura de Deus para com a humanidade que sofre (n.º 229). Mas na maioria dos lugares as atividades da Pastoral da Saúde se reduzem a visitas esporádicas a doentes e a realização de missas para os enfermos em ocasiões especiais. Falta-lhe o ardor missionário no mundo da saúde, capaz de "contribuir para a construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida” (n.º 230).

As perguntas dirigidas à Igreja poderiam se multiplicar, mas encerro com a seguinte: Como anda a saúde "pública” da Igreja? Os acontecimentos recentes e as estatísticas revelam uma Igreja doente, especialmente em sua hierarquia. O conhecimento que tenho desta área me permite dizer que é assustador o número de padres e religiosos pedófilos, de viciados inclusive em drogas pesadas. Aumenta cada vez mais o número de lideranças narcisistas, obsessivas, psicóticas e neuróticas. Aumentam também os casos de padres, frades e freiras com distúrbios psicológicos sérios, condenados a usar remédios controlados pelo resto da vida. Lideranças, inclusive padres e bispos, que são forçadas a sair de cena por causa de seus desequilíbrios psíquicos e afetivos. Sem falar na quantidade de padres, frades e freiras que estão com depressão. Os recentes noticiários de brigas internas no Vaticano, emitido por meios de comunicação sérios, revelam um corpo cuja cabeça está seriamente doente.

Caso a Igreja não considere estas e outras perguntas que a humanidade está fazendo, inclusive os próprios católicos, corre o risco de não ter mais autoridade e credibilidade. Seus discursos e suas propostas, embora muito bonitos e verdadeiros, não serão levados a sério porque desmentidos por uma prática, cuja teoria é outra e não aquela anunciada em seus documentos e textos.

Que a saúde se difunda sobre a Igreja!

Nenhum comentário: