domingo, 25 de março de 2012

Artigo do Levon: A polêmica dos crucifixos e a laicidade do Brasil


A recente polêmica sobre a retirada de crucifixos dos plenários de tribunais e parlamentos no Brasil, já bastante antiga em países da Europa, reabre o debate sobre a laicidade do Estado brasileiro. Afinal, desde a proclamação da República em 1889, passamos a constituir um país onde instituições políticas e religiosas estão oficialmente separadas. Cada um pode pertencer à religião que quiser ou a nenhuma, enquanto o Estado não possui e não estimula qualquer uma, embora lhes garanta a total liberdade de culto e expressão. Pelo menos no papel.

Na prática, símbolos religiosos estão em espaços públicos, políticos ajudam na construção de templos e a bancada religiosa no Congresso, principalmente a evangélica, cresce a cada eleição e interfere bastante nos assuntos do Estado nacional. Temas de fé para as religiões e de saúde pública para o Estado, como a questão do aborto, ainda que com argumentos superficiais e instrumentalizados por maus políticos de extrema direita, incrivelmente e lamentavelmente foram mais discutidos do que emprego e educação nas últimas eleições presidenciais (2010). Trabalho digno e educação contextualizada com qualidade, além de boa formação moral e familiar, podem prevenir muito mais o aborto do que a discussão estéril da época eleitoral.

Posso estar equivocado a respeito do assunto em questão – e espero opiniões contraditórias para um bom debate –, mas mesmo sendo católico, compartilho com a ideia da retirada de símbolos religiosos de prédios públicos. E antes que me acusem, afirmo que a confusão é prejudicial a todos, inclusive para a autenticidade do catolicismo. O crucifixo é o símbolo da fidelidade do Redentor para com seu povo e do compromisso católico com a entrega total da vida em favor da dignidade divina do ser humano. Não vejo sentido nos casos em que um sinal de tal grandeza esteja exposto em ambientes onde, na maioria das vezes, os valores cristãos são maculados, negligenciados e profanados. A presença de um crucifixo numa sala política não pode se constituir para os católicos em simbologia triunfalista. Nossa missão é superior a isto. Nossa vocação é o Reino Definitivo. Ou como diz S. Paulo: “Pensai nas coisas do alto, e não nas coisas da terra” (cf. Colossenses 3,2).

Também me coloco no lugar dos não católicos. Isto é uma exigência da catolicidade: pôr-se no lugar dos outros. Qual não deve ser o impacto para eles, que também pagam impostos e sustentam os lugares públicos assim como nós, em ver símbolos de outra fé, diferente da sua, privilegiados nos espaços que são de todos? Nossa suposta maioria católica no país não nos dá esse direito. O que acharíamos se um símbolo evangélico, budista ou do candomblé estivesse em destaque no Fórum ou na Câmara de Vereadores? Com certeza, não nos agradaria. O próprio mestre Jesus nos ensina: “Tudo que desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles...” (cf. Mateus 7,12).

A separação entre Estado e Igreja foi um avanço para a sociedade. Permitiu à Igreja ser livre dos poderes do mundo para se dedicar à sua missão espiritual-social com altivez e independência. Também deu ao Estado a capacidade de atuar nas questões de sua competência sem oprimir as pessoas por seus credos e práticas religiosas. Evidentemente, não queremos, de forma alguma, nos tornar teocracias como algumas do Oriente Médio, onde os credos diferentes, em algumas situações, são perseguidos e proibidos.

A fé católica pressupõe liberdade de opção e maturidade no seguimento de Jesus Cristo. Assim, com respeito e autenticidade, se formam os verdadeiros “discípulos e missionários” convocados a irradiar o Evangelho de vida e justiça no mundo.

* Levon Nascimento exerceu o serviço pastoral de Conselheiro da Paróquia S. Sebastião de Taiobeiras/MG entre 2004 e 2008.

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