segunda-feira, 26 de março de 2012

Artigo do Levon: Os mitos taiobeirenses: do joelismo aos dias de hoje

Taiobeiras e sua longa noite política
Para o bem ou para o mal, de acordo com as conveniências de quem se encontra no poder ou dos que estão na oposição, cada época tem os seus mitos. Joel já é um desses na história taiobeirense e Denerval pavimenta o caminho.

Joel foi eleito prefeito de Taiobeiras em quatro das cinco vezes nas quais se candidatou e esteve muito perto de conquistar um mandato de deputado estadual em 2002. Não teria conseguido tal feito somente amparado pelo voto “inconsciente” como é amplamente divulgado nos dias de hoje. Se esteve à frente do município por tanto tempo, decerto possuía alguma competência para tal e também contava com grande apoio na sociedade, inclusive e principalmente das classes mais ricas.

Nos tempos áureos do seu poder, questionar sua administração soava como verdadeira heresia ou pecado. E não era somente a população carente que o idolatrava. A elite local, que hoje está do outro lado batendo no peito como fervorosa defensora do progresso e da modernidade, o tinha como um verdadeiro pai e protetor. Não adianta negar.

A pequena oposição a Joel estava nas pastorais mais ativas da Igreja e nos movimentos sociais, como algumas poucas lideranças do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. O restante das instituições da cidade se rendia aos seus pés e tecia reverências ao seu nome. Joel foi um “semideus” enquanto controlou o poder e pode atender aos interesses de uma certa parcela privilegiada da sociedade. Começou a decair quando essa mesma nata “bem servida” e desprovida de preocupações com a população mais humilde gerou suas próprias e novas lideranças. Líderes novos, mas da mesma cepa, que ambicionaram controlar o poder diretamente, sem a mediação de um expoente populista, como era o caso de Joel.

Os métodos de Joel, baseados no carisma pessoal, não diferem muito dos milhares de típicos políticos brasileiros: a união da força do dinheiro com a manietação da pobreza alheia; o atropelamento ideológico da oposição a seus atos e a satisfação dos interesses pulverizados, principalmente de gente da classe média e alta. A realidade atual é a mesma, apenas maquiada e bem assessorada por profissionais de marketing.

O fato é que Joel foi superado por si mesmo e só então perdeu o poder. Ao não renovar seu grupo e nem se preocupar em dar uma aparência rejuvenescida aos seus métodos, viu o poder passar às mãos de um novo mito originado do mesmo núcleo burguês que lhe dava sustentação. Foram necessárias apenas duas campanhas eleitorais, a de 2000 e a de 2004, para a nova situação se configurar. Não houve revolução, ocorreu uma acomodação nas elites. O “novo”, que lhe substituiu, levou além do cargo de prefeito os mesmos apoiadores mais entusiasmados. Mas não mudou a trajetória político-civilizatória do município: uma terra onde as grandes decisões partem do alto, do gabinete, da “vontade do chefe”.

Qualquer um que analisar seriamente verá que as instituições sociais que deram amplo suporte ao poder do “joelismo” são as mesmas que mantém a boa fama e o suporte ideológico aos tempos de Denerval. Não houve ruptura na estrutura social que detém o poder em detrimento do povo. Convém afirmar que a classe popular de Taiobeiras nunca teve o poder político nas mãos.

O que houve, de fato, foi um aprimoramento do discurso e uma maior qualificação da ação política. Porém, em termos brutos, guardadas as devidas proporções, Taiobeiras ainda faz política por meio da força econômica e da cooptação de lideranças. Em matéria de indicadores civilizatórios e democráticos, o município avançou pouco ou quase nada.

Está mais do que na hora da juventude taiobeirense entender que política não é coisa de caciques mitológicos, muito menos de “salvadores da pátria” que tudo decidem do alto de sua “importância” social ou econômica. Política, para o bem comum, deve partir de cada cidadão, na sua simplicidade, no seu modo de trabalhar; de suas necessidades imediatas ou de longo prazo; de seus interesses pessoais e coletivos. É preciso alargar a visão da história para além dos mitos e das “verdades prontas”. Não se deve repetir discurso fabricado por outros. Deve-se deixar apenas aos museus e aos livros de história um lugar para os mitos políticos, os do passado e os do presente. No futuro, o lugar deverá ser de todos os cidadãos.

Por isso, mais do que tagarelar defesas ocas a continuadores da mesma situação, o que se deseja é um maior conhecimento crítico do passado de Taiobeiras objetivando a ganhos verdadeiros para toda a população no futuro. Democracia, pouca ainda, é o que nos fará bem quando conquistada com fartura!

6 comentários:

Cyntia Pinheiro disse...

Muito bem, Levon, excelente análise da questão política de nossa cidade. Saí daí há muitos anos, e transferi meu título de eleitora para Montes Claros quando Joel foi eleito pela última vez... pois havia perdido as esperanças. A vitória de Denerval foi, naquele momento, um fôlego novo, vibrei com o fim do império coronelista de Joel. Porém, não sei mais q tipo de análise fazer a respeito da política aí nessa terra querida, porque não a acompanho mais de tão perto. Sinto e desejo acreditar que Denerval foi bem intencionado em sua gestão, pelo menos no primeiro mandato, mas honestamente não sei o q dizer do segundo. Lendo seu artigo vi que vc está coberto de razão qto à elite dominante, vê-se daí que não há oásis nesse país, a política gira em torno de interesses particulares. Há, desde sempre, classes dominantes e classes dominadas... Foi bom, na década de 90 fazer parte dos movimentos políticos de Taiobeiras, algumas vezes ao seu lado, através dos grupos de jovens... E acredito que só através da EDUCAÇÃO é que o povo aprenderá escolher seus governantes! Parabéns! Bela análise.

Janio Ribeiro - disse...

Muito bem colocado o termo: "acomodação das elites"

Emília Bandeira disse...

Levon excelente artigo. Análise perfeita do nosso sociólogo taiobeirense.

Leco Saraiva disse...

Excelente texto levon, o maior problema da política em taiobeiras é ver um povo que sempre foi levado a se acomodar diante da situação. O comodismo popular abre espaço para quem está no poder fazer o que bem entender, Taiobeiras ainda vive a política do Pão e Circo. Vejo, mesmo que de longe, uma população acrítica, quem não questiona, apenas aceita (salvo exceções)...

Anônimo disse...

Olá amigo, muito bom o artigo. Ótima eloquência.

Cristiano disse...

Parabéns pelo artigo, digo de passagem, que o mesmo reflete, uma dura realidade, que enfrentamos em Taiobeiras, que é a elite dominando, contudo trabalhando por tráz da decisões maiores, mas o povo de nossa cidade ainda carece da elite, em razão da força economica emposta pelo regime capitalista o qual vivemos.