terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Artigo do Levon: Politizar a sociedade

* Publicado no Jornal Folha Regional, página 4, nº 193, janeiro de 2012, ano IX, Taiobeiras/MG.

Informalmente, sem recorrer a dicionários, a palavra “politizar” pode ter dois significados relevantes. Um deles, aplicado por quem a utiliza negativamente, diz respeito a quem passa por cima das evidências técnicas ou científicas de um tema, aplicando-lhe sentido partidário, ideológico ou classista. Na outra ponta, os que usam o verbete de forma positiva, apontam-no como o ato de liberar as mentes e as ações das pessoas e dos grupos da sociedade, para uma melhor compreensão da política, especialmente quando esta se volta para a superação dos entraves que tornam o poder refém de minorias contrárias aos interesses do povo.

Em ambos os casos, para mim, a expressão ‘politizar’ é interessante e importante.

No caso, quando politizar significa abrir polêmica e disputar um espaço no quadro social ou intelectual, essa palavra assume a justa e necessária (e difícil em nosso sertão norte-mineiro) luta das pessoas ou de seus grupos sociais por vias de participação nos foros de discussão e/ou de decisão da sociedade e do Estado. Politizar é, neste contexto, exercer o sagrado princípio democrático de livremente poder expressar ideias, equivocadas ou não, brandindo-as contra outras opiniões que estão postas, ou fundindo-as, formando um conjunto crítico de questionamentos, de projetos e de respostas. A polêmica daí surgida tem valor na medida em que desperta as atenções, até então dispersas e acomodadas, para assuntos de relevância para a vida de muitos. Não há que se ter medo de ‘politizar’ debates. O receio deve existir quando aparentemente todos concordam com algo que, no submundo dos “medos de falar” ou dos “silêncios impostos”, ainda permanece nas centelhas da dúvida ou da inconformidade. Aí sim, há riscos para a sociedade. ‘Politizar’ seria a consequência lógica e coerente da atitude cidadã em uma sociedade livre, multicultural e democrática. Tomar partido é atitude correta e corajosa de quem tem ideias e as quer apresentar à crítica e ao ‘todo-social’. É virtude ter posicionamento, defendê-lo, lutar por ele. É sabedoria respeitar as divergências, mesmo quando não se abre mão daquilo que se acredita.

Quando politização assume o sentido de ação libertadora da sociedade, ela se explica numa atitude pedagógica que leva pessoas e grupos a tomarem consciência do seu papel político, da importância da política e de como se constituem a sociedade, o Estado e os seus mecanismos de existência e sustentação. É mais do que fazer as pessoas assumirem partidos políticos, candidatos ou ações de campanha em época de eleições. É um processo lento, duradouro e constante. Realiza-se mais com exemplos de práticas honestas, do que com teorias ou esquemas supostamente científicos. Esta concepção de ‘politização’ deveria ser de responsabilidade de todos, especialmente dos políticos (mas aí já é querer demais!) e também da família, das igrejas, das escolas, do judiciário, das associações da sociedade civil, enfim, de todos os que querem uma sociedade mais justa e em conformidade com o estado de direito.

Os políticos ‘politizariam’ a sociedade se, em princípio, começassem a agir conforme suas atribuições legais, não se fazendo passar por vendedores de ilusões ou mágicos. Bastaria que vereadores fossem tão somente vereadores e que prefeitos não se tornassem pequenos ditadores (existem os bons políticos, deixe-se claro!). Também, se a lei fosse aplicada a todos por igual, principalmente não havendo privilégios a ricos e abusos com os pobres, a sociedade seria ‘politizada’ quanto aos seus direitos e deveres, não ficando submetida ao clima deseducador da impunidade que paira no ar.

Famílias, escolas, igrejas e associações fariam muito bem à ‘politização’ social se levassem os seus membros a se tornarem mais críticos, interpretativos dos sinais dos tempos, líderes em variadas situações, atuantes em favor da dignidade humana, justos nos negócios e na lida em sociedade.

Não tenha medo de ‘politizar’. A coragem está em ser livre para manifestar aquilo em que se acredita.

9 comentários:

Sany Adriana Oliveira Rocha disse...

É PRECISO DESPERTAR A CONSCIÊNCIA POLÍTICA INDIVIDUAL NO BRASIL. O SER HUMANO ESTÁ ACOSTUMADO A APENAS VOTAR E DEIXAR QUE OS SEUS ELEITOS FAÇAM O SERVIÇO, MAS TEMOS QUE ACORDAR PARA A REALIDADE E TOMAR ATITUDE DE SERMOS OS COMANDANTES DE NOSSA PRÓPRIA NAÇÃO. QUEM ELEGEMOS SÃO NOSSOS REPRESENTANTES LEGAIS E TEMOS QUE TRABALHAR JUNTOS.

Edilson Art (via Facebook) disse...

Parabens pelo artigo do blog exelente

Arrastão da Solidariedade (via Facebook) disse...

recomendo ...

Rafa Alves (via Facebook) disse...

Parabéns Levon Nascimento, aproveito a oportunidade, de dizer que alguns meses atrás ouvi uma crítica dos seus artigos publicados no blog, porque você tinha uma forma acadêmica de mais, muito científica a sua maneira de escrever, e que as p...essoas em sua maioria não tinha uma compreensão do que escrevia. Essa pessoa inclusive tem um nível superior, e está de certos modos envolvida na política. Minha tristeza em questão isso, não se deve ao seu modo de escrever, mas o modo em que nós, a maioria do povo não compreende algo porque é "intelectual de mais", "acadêmico", não criticando a maneira de cada um escrever, argumentar, pois do simples, comum, á ciência, podemos aprender muito, e quando você trata de Politizar, quero citar até mesmo esse trecho de suas palavras: "É um processo lento, duradouro e constante. Realiza-se mais com exemplos de práticas honestas, do que com teorias ou esquemas supostamente científicos. Esta concepção de ‘politização’ deveria ser de responsabilidade de todos, especialmente dos políticos (mas aí já é querer demais!) e também da família, das igrejas, das escolas, do judiciário, das associações da sociedade civil, enfim, de todos os que querem uma sociedade mais justa e em conformidade com o estado de direito." Porque esse trecho diz tudo, até mesmo a crítica que ouvi dos seus textos e artigos, o que falta as pessoas, e instituição, é abrir-se mais para novas coisas, compreender o outro do seu modo, e não deixarem ser alienados como uma canção de funk, que tem na letra apenas 5 palavras, sendo 6 não aproveitáveis, e que mexe o corpo sem querer por conta de uma batida produzida por maquinas eletrônicas que parecem nos controlar, e que ficam irritados quando começar a ouvir um Gonzaguinha, cantando O que é o que?, e que diz que "Somos nós que fazemos a vida...como der, ou puder, ou quiser...Sempre desejada... por mais que esteja errada...." e no final deste trecho ele diz "Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...," queremos sempre o melhor, mas nunca procuramos nos melhorar... a Política não é como você mesmo diz: "É mais do que fazer as pessoas assumirem partidos políticos, candidatos ou ações de campanha em época de eleições." Somos nós, nós que devemos lutar por nossos direitos, sonhos, objetivos... não ficarmos de braços cruzados como diz Raul Seixa em Ouro de Tolo: "esperando a morte chegar...". Parabéns e continue sim escrevendo artigos como esse... e como você mesmo diz: "Não tenha medo de ‘politizar’. A coragem está em ser livre para manifestar aquilo em que se acredita.", Acredito...

Eduardo Madureira (via Facebook) disse...

Compartilhado!...

Edmundo Oliveira (via Facebook) disse...

como sempre um exelente texto Levon meus parabens.

Joel Florêncio de Souza (via Facebook) disse...

Parabéns pelo Artigo, continue escrevendo, pensando bem, acho que a V.sa já deveria estar planejando o próximo livro focando "" Politizar""".Abraço...

Júnior ParaísoFest (via Facebook) disse...

Levon, Parabéns por mais este artigo ... A sociedade brasileira precisa se 'politizar'... Cada um deve ter suas próprias atitudes e executar ações que melhorem a sociedade ...

Psicologia Facid disse...


Caro Levon Nascimento, um abraço e agradecimentos pelo seu texto, incluindo-se seletos comentários de seus leitores. Compartilhei e oferecí-o a meus conterrâneos e amigos, via face, pelo momento oportuno e pelo acréscimo que lhes servirá sua leitura. Pra ver se "seu deserto se expande" e não sinta a mesma solidão do João Batista, o pregador solitário. Meu abraço. Paulosipauba@Gmail.com