sábado, 26 de novembro de 2011

Ficção: O "tesouro"

14 de maio de 1940. Em meio à invasão da Holanda pelas tropas nazistas, um jovem advogado judeu recém-casado não vê outra opção senão fugir de sua cidade com a esposa no porão de um navio de bandeira mexicana. Na iminência dos ataques aéreos da Luftwaffe e da invasão de residências suspeitas de servirem como abrigo a semitas pelas forças da SS, Estêvão e Judith apanham algumas poucas coisas e partem para a embarcação que zarpará em seguida rumo ao continente americano. Um pacote, em especial, ele faz questão de apanhar com maior cuidado. Guardou-o junto aos outros pertences que pode carregar. Antes, porém, colou junto a este objeto o que parecia ser um envelope de carta já lacrado. Passos largos, nem tão rápidos nem tão lentos. Precisavam de urgência, mas não podiam chamar a atenção. Ao chegar junto ao navio Exaltación encontram outro compatriota judeu. Jacob, seu nome. Era grande a correria. A sombra de um ataque iminente se refletia nos semblantes atribulados. Estêvão entrega o pacote a Jacob ainda com mais cuidado e lhe confidencia algo. Seus gestos denunciam que não desejava que percebessem o que fazia. Parecia que se separava de um tesouro. Jacob vai à frente. Sua missão era embarcar e conseguir uma maneira do jovem casal também o fazer. Ele consegue entrar no navio. Quando então olha para trás, já em meio aos sons das sirenes que marcavam a partida, vê que Estêvão e Judite não tiveram a mesma sorte. As tropas da SS já os encaminhava para os veículos escuros onde, aterrorizante, se podia ver o emblema da suástica.

Duas semanas depois, em alto mar, Jacob, cujo semblante já não revelava outra expressão senão a morbidez de quem já desacreditava na vida, num estalo de consciência, lembra-se da enigmática encomenda que seu jovem amigo lhe havia pedido para fazer a entrega. Ainda não se dera conta, ante à brutalidade dos acontecimentos que tormentavam a sua mente, do que queria o seu compatriota ao lhe entregar aquele embrulho. Não se atreveu a abrí-lo. Parecia-lhe uma ofensa demasiado grave contra a confiança de quem desde a infância fora seu vizinho e colega. Ainda mais, lhe parecia uma invasão, se violasse o conteúdo do pacote, contra a memória de quem, agora, naquele instante, se já não estivesse morto através de uma execução sumária, deveria estar sofrendo agruras indígnas em algum campo de trabalhos forçados dos cães nazistas. Teve raiva. Chorou. Não abriu o "tesouro". Limitou-se a ver que no envelope anexo estava escrito o nome e o endereço do destinatário. Leu: "FREI JUCUNDIANO DE KOK, Paróquia S. Sebastião. Distrito de Tayobeiras, Município de Salinas, MG, Brazil". Lembrou-se que Jucundiano era o nome religioso adotado por um outro colega de infância, não judeu como ele e Estêvão, mas católico, Adrianus Cornelius. Apesar de todo o preconceito que havia entre cristãos e judeus, cresceram juntos, brincavam na rua, eram amigos. Sabia que após abraçar a vida religiosa, Adrianus havia sido mandado ao Brasil. Não pensou mais. Estava exausto. Dormiu. Nas semanas que seguiram, em longa e cansativa viagem, abraçado pelo terror e pelo sentimento de perda, Jacob não mais voltou a observar a estranha encomenda de Estêvão.

18 de julho de 1940. Jacob desembarca num porto mexicano. Apesar da tristeza, a esperança fala mais alto naquele instante. Imaginou que sua vida estava começando de novo naquele diferente e inquietante país. Debaixo do braço, carregava um pacote com extremo zelo.

15 outubro de 1941. Um frade visitador da Província Franciscana de Santa Cruz, proveniente da capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, chega ao pequeno distrito de Taiobeiras para inspecionar o trabalho pastoral empreendido pelo administrador, um seu confrade e conterrâneo holandês de nome Frei Jucundiano de Kok. Chama-lhe a atenção os alicerces da nova matriz paroquial que o jovem pároco começara a erguer. Espanta-se com o tamanho da construção, muito grande para um povoado tão pequeno e de tão reduzidas possibilidades populacionais e econômicas. Mesmo assim, admira a fé e o empenho do confrade que ali se esmera em lhe dar detalhes de como será o novo templo. Entre os tantos objetos que trás consigo, muitas correspondências provenientes da Holanda são entregues a Jucundiano. Mas chama a atenção um pacote que está dentro de um grande envelope postado a partir da Cidade do México.

24 de dezembro de 1941. Após o retorno do frade visitador, o jovem pároco Jucundiano resolve abrir o pacote. Apesar de inicialmente estranhar a postagem proveniente do México, o trabalho pastoral lhe absorvera de tal forma naqueles dias que não teve curiosidade de saber o que ali havia até aquele momento, véspera de Natal. Apanha-a e, antes de abrir, lê a carta que lhe está anexa. Seus olhos brilham quando vê que é de Estêvão, seu amigo de infância. Pausa a leitura e lembra que sua Holanda está ocupada pelos nazistas. Sabe como eles tratam os judeus. Semblante crispado, retoma a leitura. Fica atônito com o que lê. Mais atribulado ainda quando abre o pacote e se dá conta do que acaba de receber. Demora um tempo até tomar fôlego. É simplesmente incrível e terrível!

Convicto de que não tinha condições de revelar o que lhe fora confiado por seu amigo judeu, provavelmente, àquela altura, imolado num campo de concentração nazista, o frade põe o conteúdo do que recebera numa caixa metálica e lacra-a com um cadeado. Após celebrar a Missa do Galo, já na madrugada de 25 de dezembro de 1941, dirije-se às obras da nova igreja e enterra a caixa debaixo do local do "Santuário", no templo que, em alguns anos, será a nova matriz de sua humilde missão em solo latino-americano. Diz para sim mesmo: "Não há melhor lugar. Não há melhor lugar".

7 comentários:

Thales Queiroz disse...

Que doidera.
E alguém já pego essa caixinha ?
ehhe

Nathália Lucas disse...

Eu achei muito interesante Levon,pois nos vazem lembrar das nossas culturas religiosas e também entender cada vez mais sobre o passado.

Nícolas Marques Oliveira disse...

Levon , impressionante , eu leria :D Muito bom mesmo !

Rhansley S. disse...

Muito bom ! Parabéns !

Esperando....

Thales Queiroz disse...

Mais e então Levon, o título Ficcção é porque a história de fato é uma ficção ou tem outro significado?

LEVON NASCIMENTO disse...

Thales, talvez sim, talvez não! Rs.
Brincadeira. É ficção sim. Um ponto de partida para uma boa estória (sem "Hi").

Martinha Professora Geo disse...

Jesus me abana!!! Que curiosidade... Quer dizer que nunca ninguém soube o conteúdo desse bendito pacote? Ah, isso não é justo.