sexta-feira, 15 de julho de 2011

Artigo do Levon: Doces ilusões

Levon em palestra para estudantes
* Levon do Nascimento, Professor de História e titular deste Blog. Publicado na edição impressa número 185, Ano IX, do Jornal Folha Regional, de Taiobeiras (MG), julho de 2011, página 10.

Vivemos uma época mundial de hipercapitalismo. Em fase terminal, é verdade (vide crise financeira de 2008, ainda não resolvida nos EUA e na Europa). Tudo virou negócio e pode ser comercializado. O consumo é a regra. A satisfação hedonista do “eu” é o paraíso ou o nirvana a ser alcançado. As pessoas, assim como os produtos, tornam-se descartáveis. As relações humanas – familiares, inclusive – são quantificáveis no valor da cotação das moedas correntes nas bolsas de apostas do deus-Mercado. A Deus nada, a César tudo, especialmente nas igrejas e demais grupos religiosos. A ética, a moral e a fé se ajustam conforme as necessidades de posse dos bens tangíveis e dos burocratas ou dos hierarcas de plantão. Importa ter (possuir), poder (mandar) e satisfazer-se (prazer). Um cenário dantesco (infernal), depredador e deformado; agradavelmente maquiado, perfumado e bem-vestido com as melhores marcas de cosméticos e de confecções que a publicidade ilusória e inescrupulosa consegue forjar. Eis um retrato amargo de nosso tempo. Os calçados de marca desta era impedem que se vejam as pegadas de patas animalescas adquiridas nesta involução a que a humanidade se lançou.

O planeta em crise climática. As energias, liberadas pelo descuido humano, destroem os biomas e ameaçam desalojar o próprio ser humano (vide caso da usina nuclear de Fukushima, no Japão). O aquecimento global é uma realidade que se nos impõe avassaladoramente. Tempestades destroem cidades inteiras, inundando e soterrando, especialmente as áreas onde moram os mais pobres e despossuídos para o deus-Mercado. As forças do capital financeiro se sobrepõem aos interesses das “democracias”. Aliás, democracias, será que existem?

As intolerâncias e os ódios humanos se manifestam como se a civilização e os seus recursos tecnológicos e culturais ainda não tivessem sido alcançados. O desprezo com a vida, o elogio à violência, a admiração por agressores e corruptores, o desamor pelo próximo (especialmente o mais humilhado: o menor, a mulher, o negro, o índio, o deficiente, o homossexual, o mendigo) e o desapreço aos valores de bondade, respeito, solidariedade, honestidade e honra se manifestam a cada dia com mais força. Incrível, esquisito e lastimável como muitos grupos religiosos cristãos, depois de um tempo primaveril glorioso de amparo aos que sofrem, voltam a se fechar e a vomitar preconceitos, pusilanimidade e desprezo para com aqueles a quem a sociedade já havia tratado de humilhar. Fazem isto em nome de Deus. Na verdade, servem mais ao deus-Capital, a face visível do verdadeiro inimigo da divindade cristã.

Resta aos que desejam um mundo mais à esquerda (solidário, igual, justo) das fórmulas à “direita” que construíram tais cenários de terror, lutar até o último fôlego contra toda essa catarse de coisas ilusórias, doces na aparência, amargas na essência. Para quem, em vez “do ter, do poder e do prazer”, busca um novo paradigma civilizatório, baseado no amor e no conteúdo, “no ser, no servir e no sentir”, contrariando as aparências esguias, produzidas pelos estúdios de conteúdo oco e perecível, abrem-se as portas da consciência cidadã universalista, da fé inteligente e ecumênica, e da razão lógica que se coloca a serviço das necessidades humanas e do planeta.

Não se assuste o leitor ou leitora deste artigo com as constatações monstruosas dos três primeiros parágrafos. Saiba que há muitos homens e mulheres, de todas as idades e raças, de várias condições sociais e credos, trabalhando sem parar, a fim de que um novo tempo, melhor e mais justo, seja possível e concreto em nossas vidas. Liberte-se da cegueira ilusória do deus-Mercado. Junte-se àqueles que acreditam na proposta do “caminho, da verdade e da vida”.

3 comentários:

Cultura disse...

O mundo ao qual você se refere, permeabiliza tamanha façanha, dentro de um contexto cultural, que impregnou o ser vivente, ansioso de luxuria. Sentimento esse, que vem sendo dimensionado por novas descobertas tecnológicas e bem trabalhada pela mídia na divulgação, robotizando o querer dos seres humanos, obscurecendo o seu ser , levando- o a atropelar o próximo, deixando o SÓ EU falar mais alto. A pretexto por melhoria, o homem se guia na imensidão do egocentrismo, se difundindo na categoria do mais vasto destruidor do ninho Azul, presente o qual, Deus onipotente lhe agraciou.
(Lucilene Pereira Martins, professora do ensino fundamental da E.E. Presidente Tancredo Neves)

Marisa Karla disse...

Levon,
Parabéns!
Que texto bonito. Adorei!
Sempre visito o seu blog e gosto do que você publica.Taiobeiras precisa de gente que pensa e você é um exemplo disso.Abraços,
Marisa Karla de Governador Valadares
l5 de Julho de 2011.

LEVON NASCIMENTO disse...

Obrigado, Marisa Karla, pelas belas palavras. Conto com a sua audiência constante no blog. Mande mais notícias. Tenho aqui dois livros, escritos por mim, que gostaria de lhe enviar. Abraços a você e à família.