quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Teólogo José Comblin: "A Igreja abandonou as classes populares"

José Comblin
Matéria enviada através de e-mail por Sônia Gomes de Oliveira, da Coordenação de CEBs da Arquidiocese de Montes Claros (MG).

José Comblin (foto), um dos criadores da Teologia da Libertação, afirmou que a eleição de João Paulo II e de Bento XVI foi manejada pelo Opus Dei "praticando a chantagem, intimidando os cardeais", e que na América Latina o Papa "é mais divino do que Deus". Comblin, belga que vive no Brasil e acaba de visitar o Chile, país em que esteve exilado em 1972, durante o governo da Unidade Popular, explicou ainda que os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos e "não apareceu uma nova geração" que desse continuidade a esse pensamento.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 05-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A repressão foi muito forte, terrível, e a ditadura do Papa aqui na América Latina é total e global. Aqui, pode-se criticar Deus, mas não o Papa. O Papa é mais divino do que Deus", asseverou o teólogo.

Segundo Comblin, a Igreja Católica "abandonou as classes populares, salvo os velhos e algumas relíquias do passado".

"Hoje, as universidades e os colégios católicos são para a burguesia. O porvir da América Latina é ser um continente evangélico protestante, salvo sua classe alta. Assim, a Opus Dei e os Legionários de Cristo e todas essas associações que existem de ultradireita vão crescendo nesse setor", opinou, em declarações no Chile à revista El Periodista.

"Onde há um ou dois bispos da Opus Dei no episcopado, intimidam a todos os demais. Os outros ficam calados e só um fala. Esse é um problema de psicologia típico de ditaduras", defendeu.

Segundo Comblin, "foi a Opus el que elegeu João Paulo II e o atual, praticando a chantagem, intimidando os cardeais. O próximo Papa será igual porque a Opus tem um poder muito forte".

O teólogo, de 87 anos, defende que Deus está "em La Victoria e em La Legua (dois bairros populares de Santiago) e na prisão, mas de Roma desapareceu há muito tempo".

"Agora, sempre fica mais claro que o problema é o Papa, ou seja, a função do Papa, uma ditadura implacável com muitas formas de doçura e amabilidade, mas implacável", defendeu.

Comblin defendeu que "o porvir do cristianismo está na China, Coreia, Filipinas, Indonésia. Estima-se que só na China há 130 milhões de cristãos martirizados, porque estão praticamente perseguidos".

O teólogo criticou a eventual canonização de João Paulo II porque seu papado "foi catastrófico".

"Todos os que fizeram sua carreira com ele puderam ser cardeais, apesar de sua mediocridade pessoal. Não mereciam nada, mas ele os promoveu. Claro que agora querem canonizá-lo! Uma vez que canonizaram Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma", destacou.

Sobre a Opus Dei e os Legionários de Cristo, Comblin afirmou que "têm a confiança da Cúria Romana e depois representam a plena liberdade dada a personalidades que são como os grandes Rockefeller, os conquistadores".

"Como Escrivá de Balaguer, que era um capitalista, o homem que vai triunfar, que vai desfrutar o mundo, que vai ganhar, ser rico, poderoso e que é capaz de criar pessoas totalmente subordinadas, soldados com mentalidade de soldado, esses são todos homens deformados psicologicamente, como são os futuros ditadores", detalhou.

Depois de recordar que do mexicano Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo, foi descoberta uma vida paralela e uma fortuna de 50 bilhões de dólares, afirmou que "sua chantagem, sua palavra e sua exigência chegaram aos milionários".

"Hoje, os que trabalharam com ele, seus colaboradores, todos dizem e afirmam que não sabiam nada da vida paralela (de Maciel). Como? Trabalham 40 anos com ele e não sabem de nada, que ele tem uma família, três filhos, que praticou a pedofilia com as crianças, alunos de sua formação, de seus colégios, que tinha um mundo de amantes. Não sabiam de tudo isso? Supõe-se, então, que eles são cúmplices e também têm uma vida paralela", concluiu.

3 comentários:

Anônimo disse...

Para ser Teologo (que estuda a Deus) nao deve esquecer que a verdadeira preocupaçao da Igreja é dar o alimento espiritual, ensinar que Deus salva e que quer que todos se salvem. Para politica se deixa a missao ao Politicos. Graças a Deus os Papas Joao Paulo II e Bento XVI se preocupam das almas, de fazer chegar a salvaçao para cada uma delas. Que trabalha ainda na teologia da libertaçao sem fazer-se uma autocritica é um iluso. Esta teologia nao ajudou, fez que se perdessem muitas das ovelhas confundindo-as e tirando o verdade das suas maos ensinando a catequese da violencia tao rechaçada por Nosso Senhor. Recordemos que os mesmos apóstolos vendo as necessidades dos demais se preocuparam de instituir uma ordem que se preocupasse da parte material, já que nao podiam abandonar a missao da pregaçao. Hoje temos muitas Igrejas vazías por culpa da teología da libertaçao equivocada.
Deus tenhas piedade dos ensinamentos errados do "Teologo" José Comblin.
A Igreja hoje está muito mais perto dos pobres que antes, dos pobres que necessitam a Deus, nao importando a classe social. Nao se esqueçam que Jesus converteu a Zaqueo, a Mateos, que eram Ricos e pecadores. Converteu a prostitutas, nao tinha medo de falar com as grandes autoridades da época, que ficavam impressionados da sua pregaçao. Assim também como curou a mendigos (os mais pobres) chamando eles a fe.

LEVON NASCIMENTO disse...

Comblin, do alto de seus mais de 80 anos de idade (o que lhe confere sabedoria), fala o que fala abertamente, sem medo e sem anonimatos. Infelizmente os que o criticam (e aos demais teólogos, bispos, padres, religiosas e leigos da Libertação) se escondem por detrás de pseudônimos ou "anônimos".

Isto me faz pensar se não seria a tal "vida paralela", a qual o próprio Comblin denuncia em sua entrevista.

Só posso concluir o seguinte, anonimato e "vida paralela" não combinam com o cristianismo.

Valéria Borborema disse...

Estimado Levon, acho a discussão que se levanta no texto muito boa. Sobretudo para aparar as arestas e evitar o radicalismo seja de que lado for. Pessoalmente não concordo com as críticas ao Papa João Paulo II, que pode ter sido conservador em termos morais - isso não discuto -, mas, ao mesmo tempo, tentou apresentar ao mundo uma Igreja viva, longe da imagem eclesial planetária até então cultivada que mostrava uma instituição velha. Pior. Que se recusava a acompanhar a evolução do tempo. Certa feita, li um artigo interessante sobre Paulo II. O texto frisava que a real missão do pontífice polaco transcendia meras questões burocráticas para desembocar na concepção de uma Igreja que, finalmente, abria-se à maior contextualização no mundo. No dizer do vaticanista Luigi Accatoli, no livro "Quando o Papa pede perdão", Paulo II procurou acelerar os tempos de movimento e, de maneira simultânea, conservar a coesão histórico-geográfica, segredo da força e da lentidão da Igreja. Portanto, creio que a crítica destituída de uma análise mais profunda cai no vazio. Senti falta de argumentos suficientemente sólidos para desbancar um papado tão rico como o de Paulo II. Não questiono, porém, a força da ultradireita eclesial. Prova disso foram as eleições presidenciais no Brasil, que ficaram à mercê de ideias frouxas sobre questões sérias como a descriminalização do aborto. No caso do Brasil, a ampliação dos casos em que a lei permite a prática.