quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Artigo do Levon: O que somos e o que imaginamos ser

* Publicado no Jornal Folha Regional, ano VIII, n. 183, dezembro de 2010.

A vitória de José Serra em Taiobeiras – único município do norte de Minas onde tal fenômeno ocorreu – deve ser analisada além da ideia predominante, segundo a qual o prefeito local foi o grande cabo eleitoral do tucano. Na verdade, as classes sociais são muito bem definidas em Taiobeiras. Há uma parcela pequena da sociedade que de fato detém a posse completa dos bens materiais e a usufrui de forma contundente. Esta sempre esteve com Serra, ou melhor, nunca esteve com o PT.

Na outra ponta do cabo de guerra societário, uma grande parcela da população vive em outro mundo. São os despossuídos dos bens materiais e culturais da civilização. Cumprem o papel determinista de expectadores da luxuriosa manifestação dos senhores desta terra.

A questão está no meio. Há um grande setor da população, razoavelmente instruído para os padrões norte-mineiros, que é composto de assalariados com poder de compra um pouco mais acrescido. Consumidores ávidos de bens físicos e simbólicos, apesar da condição operária de seus contracheques ou carteiras de trabalho, se identificam, se associam ou se sentem como integrantes da classe proprietária. Seria uma “classe média” iludida. Na verdade é operária, mas pensa e age como patroa. Alienação e fetiche, na perfeita definição de Marx. Nada mais do que isso. Este setor intermediário tenta, por meio da bajulação, igualar-se aos grandes detentores, pelo menos simbolicamente e/ou ideologicamente. E age sem nenhuma solidariedade para com aqueles a quem consideram subalternos.

Essa gente lamenta profundamente o Bolsa Família, desconhece o significado de Direitos Humanos, não percebe que Taiobeiras recebeu inúmeros investimentos do Governo Federal na Era Lula (rede de esgoto e estação de tratamento, CEO, Escola Família Agrícola, agências do INSS e da Caixa, reforma do mercado, telecentros, projetos culturais, etc.), como “nunca antes na história deste” município. Também tem verdadeira fobia de questões que a levem a queimar a massa cinzenta com algum raciocínio mais complexo, tais como: a questão do aborto como política de saúde pública, a busca de saber como instrumento de elevação da pessoa humana e não somente como meio para o alcance de dinheiro e poder, a homossexualidade (a não ser o deboche), a consciência negra e o racismo, a política de cotas universitárias (quando não lhes é útil) e a questão ambiental ou de reforma agrária (MST ou defesa do cerrado, “Deus me livre!”).

E o pior é que este grupo influencia a camada mais humilde e sofrida por meio da propagação do medo, da ridicularização daqueles que assumem papel de protagonistas-reflexivos e do discurso determinista. Uma comunidade que repete teses e ideias fundamentalistas e preconceituosas, sem discernimento crítico, impondo-as por meio da prática ou do discurso, não pode ainda ser considerada culturalmente desenvolvida ou socialmente educada.

Daí se entende a vitória de Serra em Taiobeiras. Sabe-se que a campanha do candidato tucano não se destacou por apresentar um plano de governo lógico ao Brasil. Pautou-se em público por esconder seu passado privatizador na Era FHC e por agredir a candidata de Lula. Nos subterrâneos da internet e nos segmentos minoritários fanáticos, tanto católicos quanto de outras igrejas cristãs, partiu para a deformação (não informação) esdrúxula de temas como aborto, terrorismo, satanismo e banditismo. Xingaram a candidata Dilma de tudo. Só não apresentaram um projeto melhor do que o dela. O que não colou na maioria do Brasil, em Taiobeiras, para setores que se imaginam bem informados, ainda é tido como a mais pura expressão da verdade. Taiobeiras foi terreno fértil para a propagação de todas as armações de baixo calão e pouco QI tramadas contra a candidatura da esquerda.

A vitória do PT no Brasil foi inequívoca. Mesmo com as limitações inerentes a qualquer processo político, foi o reconhecimento do projeto mais viável para o país. Em Taiobeiras, quase metade dos votos válidos, 47,37%, foram dados à candidata petista, sinalizando imensas possibilidades de avanço progressista no tecido social. Há esperanças de transformação.

As críticas que faço, neste artigo, às características culturais da sociedade taiobeirense, amparado nos resultados eleitorais, vão muito além deles e de seus interesses imediatos. São, em verdade, questionamentos a costumes e práticas poucos saudáveis numa democracia. Somente diante do espelho da crítica, incômodo e impertinente, uma sociedade pode avançar e crescer ideologicamente. É o que desejo.

2 comentários:

Alex Miranda disse...

Não conheço definição mais adequada para caracterizar a condição social, intelectual e econômica desta parcela da nossa população, que vive no proletariado com status de senhores feudais. extasiados pelas facilidades do cheque especial e do cartão de crédito, vivem num mundo quimérico, auscultando a classe mais abastada para copiar os seus modismos e manias, passando por esta existência sem o compromisso com a transformação, como o conhecimento, com a realidade, enfim.

Parabéns pelo artigo, uma visão sensacional.

Cruzeiro E C disse...

Que minas afoguem os taiobeirense! (Bricadeira)
Orgulho d taio <3