quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Os candidatos, a vida e a morte

* Levon do Nascimento

Artigo publicado também no site da Arquidiocese de Montes Claros (MG)

Abortar é retirar do útero materno um novo ser humano, possuidor de corpo e alma indissociáveis, que já foi fecundado a partir da união entre uma célula masculina, o espermatozóide, e uma célula feminina, o óvulo. Para os que acatam o mandamento bíblico de não matar, praticar o aborto significa assassinar uma criatura humana.

Em pé de igualdade com o abortismo, a pedofilia, dentro e fora da instituição eclesiástica, também assassina o corpo e a alma das vítimas. A alma, por esvaziar no coração de crianças e adolescentes, a noção do amor de Deus e do sentido de dignidade inerente à pessoa humana. O corpo, quando muitos, destroçados na sua auto-estima, terminam por entregar-se aos entorpecentes ou ao suicídio.

A ausência de reforma agrária, a criminalização e “demonização” do Movimento dos Sem-Terra ou de outros grupos sociais da mesma causa, assim como o aborto, provocam a morte pela miséria, pela expulsão do campo e favelização da cidade, tanto quanto assassinam homens e mulheres, trabalhadores, leigos, religiosas e padres, que lutam para repartir a terra – grande dom de Deus, legado a todos os seus filhos e filhas.

A agressão física às crianças, às mulheres (especialmente as pobres), aos homossexuais, aos negros (marcados no corpo e na alma pela humilhação do preconceito) e aos índios (queimados vivos nos bancos das capitais e nas florestas) também são formas de aborto homicida, onde vidas já nascidas do útero materno são ceifadas pela ignorância de alguns e pela ganância dos mesmos e de outros.

A privatização do sistema de saúde e das empresas estatais em governos neoliberais, além da precarização da educação e da segurança pública, aborta vidas nas filas de hospitais, introduz crianças e jovens no submundo da ignorância e do iletramento e elimina fisicamente as vítimas do tráfico e da violência urbana e rural.

Existem várias formas de matar a vida humana, explícitas ou implícitas nos programas de governo dos vários candidatos aos cargos públicos das eleições deste ano. Elas se transformarão em políticas públicas no próximo mandato. Reduzir a questão do direito à vida somente à cruzada contra o aborto, responsabilizando apenas uma candidata e o seu partido, se não é má-fé, é desinformação.

Os cristãos, pela força de sua fé, pela herança que receberam do Evangelho e do sacrifício de Jesus na cruz (vítima de pena de morte aplicada pelo Estado romano), não podem se dar o luxo de fazer análises incompletas sobre a realidade política que os circunda e os desafia.

Se no PT há os que defendem o aborto, há também os que são contrários e se posicionam. Em outros partidos há os que defendem, implicitamente, o aborto, o preconceito racial, a desigualdade social, a morte dos que lutam pela terra, a privatização dos bens públicos para o benefício de uns poucos e do mercado capitalista.

O cristão que decretar que uma determinada candidata ou um certo partido representam “os filhos das trevas” incorre no pecado de julgar e condenar, quando na verdade sua missão está em “resgatar e conduzir para a luz”. Mais ainda, comete o erro de fechar os olhos para outras formas de matar, presentes na história e na política do Brasil, ao longo dos séculos. Formas, estas, que mataram, e matam ainda, mais do que o aborto.

Na verdade, nenhum dos principais candidatos a presidente do Brasil, nestas eleições, defende a aprovação irrestrita do aborto. Nem mesmo seus partidos por inteiro. Apenas ressaltam que o aborto já é permitido no Brasil nos casos previstos em lei. Um exemplo disso está no fato de que o próprio José Serra, candidato da oposição, quando ministro da Saúde do governo FHC, assinou ordens para a realização do chamado “aborto legal”.

A nós cristãos, que não aceitamos nenhuma forma de aborto, por considerá-la anti-evangélica, cabe analisar bem a realidade e não partir para cruzadas fundamentalistas contra quem quer que seja. Devemos esquadrinhar as propostas de todos os partidos e candidatos, bem como suas histórias e suas práticas não-escritas, denunciando todas as ações de morte contidas nelas, tais como: o aborto, a pedofilia, o preconceito, o neoliberalismo, a privatização, o assassinato de lideranças sociais, a corrupção, a compra de votos, etc...

O mesmo escândalo que nos provoca o aborto, deve-nos causar também as outras formas de matar impostas por práticas políticas e econômicas injustas.

Em tempo, cruzadas fundamentalistas, como esta que ora se levanta em torno da questão do aborto, nunca fizeram bem à Igreja. Vide a história do “Santo” Ofício. O Cristo nunca foi fundamentalista, e sua cruz (não cruzada) foi tomada sobre os ombros em amor a todos os seres humanos (sem distinção de partido político).

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