sábado, 14 de agosto de 2010

Uma Igreja Samaritana

6º Encontro Mineiro das CEBs (julho/2010) em MOC.
Artigo do Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis, presbítero do clero da Arquidiocese de Montes Claros

É certa para nós a ideia de que o nosso Deus é misericordioso a partir das vítimas, dos que sofrem, dos pobres e excluídos, dos mais necessitados. O Jesus histórico nos mostra que “praticar a misericórdia” é condição para “permanecer em Deus” e, ao mesmo tempo, fonte de plenificação humana. Isso é nitidamente demonstrado através da Escritura e reforçado tanto pela Tradição quanto pelo Magistério. De fato, pouco ou nada adiantaria um discurso compassivo se não viesse atrelada a ele uma prática misericordiosa. Devemos, pois, ser testemunhas do amor e da misericórdia numa realidade expressivamente anti-misericordiosa, conscientes de que levar a misericórdia ao mundo é levar a ele a salvação do Evangelho.

O discípulo que se deixa alcançar pela misericórdia de Deus torna-se, naturalmente, misericordioso para com os outros. A misericórdia brota como virtude interior, bem-aventurança que nasce das entranhas humanas. Por isso o verdadeiro discípulo de Jesus se compadece sem coação; não vê na misericórdia uma tarefa árdua e pesada, pois faz parte integrante de sua essência espiritual. Donde se conclui que a misericórdia na vida do discípulo é refluxo do amor recebido de Deus, ou seja, o discípulo é misericordioso em virtude da herança que recebeu do Pai Celeste.

Tivemos, nesse mês de julho, em nossa Arquidiocese, o 6º Encontro Mineiro das CEB’s, incentivando-nos a construir uma Igreja Solidária, como dizia o seu lema. Contudo, junto a isso julgamos oportuno apresentar também a proposta de uma Igreja verdadeiramente samaritana, tal como o próprio Cristo a instituiu. A misericórdia deve ser “nota” constitutiva da verdadeira Igreja de Jesus (Uma, Santa, Católica, Apostólica [e Misericordiosa]). Fora do “Evangelho da Misericórdia” é forte a tentação de ser ou “voltar a ser” uma Igreja do domínio ou da exclusividade. A partir da práxis da misericórdia, a Igreja deverá ir, como samaritana, ao encontro do drama humano, das necessidades dos seus fiéis, deverá estar à escuta dos clamores do povo e deslocar-se para solidarizar-se com eles. Mas é também dentro de si mesma que a Igreja deve cultivar a misericórdia como imperativo do Evangelho e fidelidade à herança deixada pelo seu Senhor.

Concretamente, isso significa não excluir absolutamente ninguém, mas estarmos sempre prontos a tomar ao colo os mais fracos e pecadores, e até mesmo aqueles que incomodam pelo fato de questionar as estruturas ou práticas eclesiais não tão condizentes com o evangelho da misericórdia. Chamada a se aproximar dos mais afastados e acolhê-los com respeito e compreensão, a Igreja samaritana deve tomar cuidado para não correr o risco de realizar “obras de misericórdia” mas, em contrapartida, não deixar-se reger pelo “princípio de misericórdia”.

Jesus nos convida a uma opção fundamental e universal pela compaixão-misericórdia, de maneira livre, espontânea e desinteressada, sem qualquer tipo de acepção. Em outras palavras, urge propor hoje uma verdadeira “revolução da misericórdia”. O contexto atual – seja ele social, histórico, econômico ou político – nos apresenta uma situação crucial e degradante. Assim, ou a humanidade fará a escolha premente pelo amor e pela misericórdia ou correrá o sério risco de deixar de ser “humanidade”, e mais ainda, deixar de ser cristã. A alternativa é substituir a atual “cultura da conflituosidade” – baseada no princípio do “homo hominis lupus” (o homem é o lobo do homem) – por uma “cultura da compassividade” – que prioriza o princípio da fraternidade e da relação misericordiosa entre os seres humanos – uma vez que a misericórdia não é apenas uma entre muitas outras realidades humanas, mas a que define diretamente o seu humano e, sobretudo, o ser cristão.

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