terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Quando os diabos querem..."

* Do Blog da Valéria Borborema e com minha total concordância quanto ao conteúdo.

Após inúmeras e vãs tentativas de abocanhar uma fatia do eleitorado que, até o momento, decidiu por votar na candidata a presidente Dilma Rousseff, a oposição usa agora uma velha tática. A apelação ao conservadorismo para chegar à religião.

Essa estratégia é muito conhecida. Tempos atrás, ela ocorreu nos Estados Unidos quando da reeleição de George W. Bush. O que se viu, entretanto, foi um oportunismo sem precedentes. Um homem apresentado como justo, temente a Deus e teoricamente contra questões morais como aborto e casamento homossexual, mas a favor da adoção de correntes para os presos e do corte de benefícios sociais, que levou o gigante das Américas a ser antipatizado e odiado nos cinco continentes.

E que, ao terminar o segundo mandato, enfrentou resistência até entre os comparsas republicanos mais aguerridos, tal as ações tresloucadas que autorizou, sobretudo no Oriente Médio. Daí os ataques de 11 de setembro de 2001 em solo norte-americano, as invasões covardes ao Iraque e Afeganistão e uma política econômica maquiada, frágil que redundou na grave crise de setembro de 2009, sentida em todo o planeta. A eleição de Barack Obama deveu-se mais ao descontentamento com Bush do que por mérito do democrata.

Então há que se perguntar se valeu a pena acreditar no comportamento aparentemente devoto de Bush. Não, claro que não. Ainda que seja fruto de boa intenção, o conservadorismo não passa de embuste e sempre se transforma no fundamentalismo, partindo do pressuposto da existência de uma única verdade. Aqueles que não compartilham dela são inimigos. Eis as sementes lânguidas do totalitarismo.

A Igreja não apoia qualquer candidato ou partido. Apenas estimula a candidatura de quem se alinha com os ideais cristãos, que evidentemente privilegiam o ser humano em detrimento do mercado. Pela força que representa, entende-se que em todos os pleitos a instituição sofra pressão para pender para um lado específico.

Do alto de sua história de mais de dois mil anos, entretanto, a Igreja não desce ao nível que os oportunistas desejam, ainda que movimentos eclesiais ou mesmo integrantes da hierarquia às vezes se manifestem publicamente. Eles, contudo, falam por si e não em nome da Igreja, no exercício do direito à cidadania. Nada mais.

O problema é que alguns enxergam no particular o coletivo e armam a confusão. Sem contar os comensais, que penetram as hostes eclesiais somente para fazer um criminoso proselitismo partidário. Como se o fiel fosse um tolo desprovido de qualquer senso crítico. É a velha prática política provinciana.

Hoje recebi um e-mail (prefiro não revelar a identidade de quem o enviou) com a carta de um Bispo que teria orientado seu rebanho a não votar em Dilma. A tal missiva existe de fato e foi divulgada com estardalhaço há pouco mais de um mês. A maldade está no título, que cria a ilusão de se tratar de um texto oficial, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Ora, nada mais longe da realidade. O presidente da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha, prudente e sábio, já declarou em alto e bom som o apartidarismo sacro.

A ação de espalhar a mentira certamente parte do ninho desesperado da oposição, que teima em se autodenominar "moralmente sadia". Esquece-se sorrateiraneamente de olhar para o próprio umbigo, onde encontrará o neoliberalismo asqueiroso que prioriza o mercado em detrimento do ser humano, na teoria do estado mínimo. Moral é acima de tudo uma vida digna para a população.

Cabe ao eleitor avaliar a atuação política do candidato que se apresenta como "anjo", de joelhos e cabisbaixo. No dizer de William Shakespeare, em "Otelo", "quando os diabos querem os mais negros pecados incitar, de início se apresentam em celestes aparências".

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