domingo, 29 de agosto de 2010

Artigo do Levon: O passado de Dilma e o futuro do Brasil

* Levon do Nascimento

Quando a ditadura militar foi implantada no Brasil em abril de 1964, com o apoio dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria, os meios de comunicação (Globo e afins), além das elites econômicas e políticas, todos festejaram. Na verdade, a chegada dos militares ao poder, por meio de um golpe que derrubou o presidente constitucionalmente eleito (João Goulart), veio para dar segurança aos ricos e aos interesses americanos, sempre contrários à melhoria da qualidade de vida do povão. Não se engane, a ditadura não trouxe a ordem, a paz ou o progresso. A corrupção, durante os tempos militares, foi muito maior do que agora, ao contrário do que alguns pensam e propagandeiam. Não havia fiscalização e a imprensa era censurada. Não se divulgavam escândalos que envolvessem os velhos políticos aliados dos quartéis. A ditadura veio para garantir que os ricos continuassem a ser proprietários do Brasil e que os pobres não tivessem como crescer ou incomodar aos donos do poder.

Os partidos políticos foram abolidos sob a alegação de que eram corruptos. No seu lugar criaram-se duas novas legendas: a ARENA (que reuniu todos os corruptos dos partidos extintos e que apoiavam incondicionalmente os generais ditadores) e o MDB (que incorporou os contrários à ditadura, mas que mantinham a discrição e não ameaçavam o regime).

Aos idealistas, aos jovens, aos estudantes, aos que não aceitavam ver o povo continuar na miséria, na repressão, na censura e vítima da corrupção, sobrou participar das manifestações estudantis e dos grupos de reflexão da Igreja Católica (porção progressista ligada a Dom Helder e outros bispos-profetas). Quando tudo isto foi terminantemente proibido e reprimido pela ditadura (com seus decretos-leis e atos institucionais, além de tortura, morte e sumiço de corpos) restou apenas o caminho da luta na clandestinidade.

Clandestinidade não faz sentido nenhum onde há democracia, liberdade partidária e eleições livres, como no Brasil de hoje, governado por Lula. Mas no Brasil da ditadura militar era a única opção para quem desejava mudanças significativas. Era o único canal de resistência contra todas as barbaridades do regime. O regime dos militares é que praticou o terrorismo de estado. Quem não era covarde, quem não compactuava com a injustiça, a morte e a perseguição, enfim, quem queria um Brasil melhor para todos, estes sim, partiram para a luta na clandestinidade.

Há muitos nomes que participaram desta luta e que estão hoje na política. Um deles é o de Dilma Rousseff, atual candidata de Lula e do PT à Presidência do Brasil. Naquela época, ela era uma jovem da classe média de Belo Horizonte (MG). Alguém que vivia numa família estruturada e que estudou em bons colégios particulares. Poderia ter ficado de boca calada, vivendo tranquilamente no conforto e aproveitando as benesses que a ditadura oferecia às elites. Mas ela teve a coragem de entender o que se passava ao seu redor e de não se conformar com as injustiças e com a crueldade do regime militar. Partiu para a luta. Foi presa, foi torturada. Pagou por crimes que não cometeu. Trabalhou pelo Brasil.

Hoje, com dignidade e legitimidade, disputa a Presidência do Brasil. Poderá ser a primeira mulher a comandar o país.

Como brasileiro que nasceu de uma família pobre no sertão da Bahia durante a ditadura militar (1976), que foi criado no sertão de Minas Gerais durante a redemocratização, hoje professor de história, assalariado, sinto-me extremamente feliz por testemunhar este importante fato que ficará gravado em nossa construção civilizatória. O primeiro presidente operário do Brasil passará a faixa presidencial à primeira mulher – sendo ela alguém que lutou bravamente contra o regime dos militares – que irá dirigir o país nos próximos quatro anos. Claro que isto dependerá da vontade dos cidadãos que votarão em 3 de outubro de 2010. Direito este, que só é possível hoje, graças ao esforço de muitos Lulas e de muitas Dilmas.

* Levon do Nascimento. Bacharel em Ciências Sociais e Professor de História em Taiobeiras (MG).

Um comentário:

Valéria Borborema disse...

No ano passado, abordaram-me insistemente com a tese de que Dilma seria terrorista. E isso com base em matéria veiculada na Folha de S. Paulo, que parecia querer acabar de vez com a candidatura da ex-ministra da Casa Civil. Respondi que, ao contrário, as informações fortaleciam a minha decisão de votar em Dilma, agora sob amparo da informação de que, de fato, a candidata do presidente fora uma lutadora digna, uma inimiga da ditadura militar e, portanto, em condições de ser uma legítima postulante ao Palácio do Planalto. O meu interlocutor calou-se. Emudeceu. Naquela época, quando havia muitas incertezas sobre o desempenho de Dilma nas pesquisas, a tentativa foi frustrada. Também agora se transformará num devaneio. Mais. O feitiço há de virar contra o feiticeiro. Um sinal claríssimo de que a oposição perdeu o rumo. Mais uma vez, ponto para Dilma, nossa futura presidente.