sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tradições de maio em Taiobeiras - Parte 2

Continuação...

Na década de 1970, com a aprovação do Plano Diretor de Taiobeiras e consequente implantação da Avenida do Contorno, a “Igrejinha” (foto) ficou “condenada” por se situar numa extremidade do traçado da nova via de trânsito rápido da cidade. Um erro grosseiro do planejador, que não foi sensível às tradições e devoções religiosas nem ao monumento cultural e arquitetônico representado pelo pequeno templo. Chegou-se ao cúmulo de se ventilar a sua demolição. Até uma praça, com nome “13 de maio”, a Prefeitura criou para em algum momento se construir uma nova Igreja e realizar as festividades ali. A ideia não vingou. A “Igrejinha” continuou de pé. Quando houve o asfaltamento de uma parte da Avenida, em 1982, os engenheiros tiveram que realizar modificações no projeto para contemplar o popular templo. E este, cada vez mais, ganhou ares de santuário popular dos taiobeirenses.

Mas na mesma década de 70, o “técnico” se impôs pela primeira vez ao “religioso”. Apesar da “Igrejinha” permanecer na Avenida do Contorno, as festividades de maio tiveram de ser transferidas para a Praça da Igreja Matriz de São Sebastião. Alegava-se razões de segurança, pois a Avenida do Contorno de então era também uma extensão da Rodovia que ligava Taiobeiras a Salinas (Rio Bahia e BR-251, por conseguinte) e Taiobeiras a Rio Pardo de Minas. Desde então, na manhã do primeiro dia da novena, após grande alvorada com fogos, carro de som com música religiosa e oração do terço, buscava-se a imagem de Nossa Senhora de Fátima em sua “Igrejinha”, com grande procissão e alarde, dirigindo-se até a Matriz.

Devido ao grande número de fieis daqueles dias, já naquela época, todas as celebrações de Nossa Senhora de Fátima, bem como as coroações, eram realizadas ao ar livre, demandando a construção de um palanque provisório feito de madeira. Quase todas as gerações de Taiobeiras, desde então, passaram por este “altar” nas cerimônias em homenagem à Virgem. As coroações, aliás, são patrimônio imaterial da cultura de Taiobeiras, reconhecidas no inventário cultural de 2006, que concedeu pela primeira vez o “Selo Unicef Município Aprovado” à cidade. No nono dia da novena, um sábado à noite, a Liga Operária levantava o mastro com a Bandeira de Nossa Senhora, acompanhados de foguetório e de folia de reis (atualmente o mastro/bandeira é erguido pela Liga Católica). Já em seguida, na manhã de domingo, havia a grande procissão de Nossa Senhora e a missa de encerramento. A grande passarela de palmeiras da Praça da Matriz foi especialmente projetada para acolher a procissão e sua chega triunfante à Igreja de São Sebastião. À noite, mais uma missa, chamada de “A despedida” era realizada e, mais uma vez em procissão, o povo levava a Imagem de Nossa Senhora de Fátima à sua “Igrejinha” octogonal, entre muitos “vivas”, “benditos” e forte emoção. Ficava a saudade e o desejo de novas celebrações para o próximo ano.

A partir de 1983, no mandato do Prefeito Geraldo Sarmento de Sena, a Prefeitura buscou dar ordem às muitas barracas particulares, extra-quermesse, que se impunham no cenário da festa religiosa na Praça da Matriz. Espaços foram demarcados, taxas cobradas, exigências de horário de funcionamento impostas. Também aproveitou para incrementar a parte social e cultural. Um parque de diversões passou a ser instalado nos fundos da Matriz e um palanque extra, na frente da Prefeitura, passou a ser espaço para shows artísticos variados, após as missas e coroações, nos dez dias da festa.

Os eventos sociais cresceram e atraíram os interesses comerciais e políticos. As administrações municipais passaram a aproveitar do momento festivo para alcançar ganhos publicitários e eleitorais. Situações grotescas como bebedeiras, uso de drogas, brigas e até prostituição, passaram a sufocar as atividades especificamente religiosas e a constranger a Igreja e os católicos. Diante do caráter mundano e consumista que o evento tomou, a crítica interna e externa à Igreja avolumou-se.

Continua na parte 3, abaixo...

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