quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Alto Rio Pardo precisa da Esquerda

* Artigo de Levon do Nascimento para veiculação em jornal impresso e no blog.

A microrregião Alto Rio Pardo precisa de pessoas que pensem e ajam um pouco mais à “esquerda”.

Os termos “esquerda” e “direita” aplicados à política e à economia surgiram na França, durante a grande revolução burguesa no final do século XVIII. Na esquerda da sala onde se reunia a Assembleia Na-cional se sentaram os deputados que representavam os interesses das camadas populares, pequeno-burguesas e pobres da sociedade francesa. Na direita, os representantes da alta burguesia e da nobreza, as camadas ri-cas.

De lá para cá, duzentos e poucos anos se passaram e muita coisa mudou na História. No século XIX, foram chamados de “esquerdistas” todos os militantes das várias correntes socialistas, desde os utópicos de Saint-Simon e Fourier, até os científicos Karl Marx e Friederich Engels, além dos anarquistas.

Durante a Guerra Fria (1945-1989), com o mundo polarizado entre os Estados Unidos capitalista e a União Soviética socialista, “esquerda” era sinônimo de “comunismo”. Quando veio a queda do Muro de Berlim em 1989, com a consequente crise dos paradigmas socialistas tradicionais, as terminologias “esquer-da” e “direita” pareceram ter morrido, perdido o significado ou caído da moda. Era o “fim da História” nas palavras de Bush “pai”. Não foi.

No tempo atual, a escalada do neoliberalismo privatizador de “direita” nos países pobres (com suas nefastas consequências para o aumento da violência e a perca da qualidade da educação pública); as reações dos movimentos sociais em todo o mundo; a grave crise econômica de 2008/2009; e os riscos do aquecimen-to global, mais uma vez reascendem o conceito de “esquerda”. Desta vez, não mais alinhado à ideia de uma sociedade regida unicamente pelo Estado, sem classes ou inimiga da propriedade privada, mas como um pensamento que exalta a perspectiva de maior igualdade política, social e econômica entre todos, ou pelo menos, entre a maioria dos seres humanos. O Brasil de Lula tem liderado o caminho para esta nova “esquer-da” e o mundo aplaude.

“Ser de esquerda”, então, significa defender que todo o desenvolvimento tecnológico, científico, cul-tural e financeiro do presente deve estar a serviço da comunidade humana como um todo, e não somente sob o controle rígido e egoísta da propriedade privada. Significa, ainda mais, perceber que há, sim, diferenças significativas entre os homens, sejam elas étnicas, religiosas ou culturais, mas que estas mesmas desseme-lhanças não podem ser motivos para uns imperarem sobre os outros. A política externa do Brasil lulista revela esta tendência.

A consciência ecológica de que a Terra é dom para todas as pessoas, bem como a busca do equilíbrio ambiental entre os humanos consigo próprios e com o restante dos seres vivos, demonstram um “esquerdismo novo”. Um “esquerdismo” que rompe a lógica brutal e irresponsável da acumulação irrefreável de lucro meramente pessoal, egoísta e predador.

“Estar à esquerda”, ao invés da “direita”, simboliza ir contra a ideia comum de que no mundo é “cada um por si só”. Ser “esquerdista” agora, muito mais do que comunista ou socialista do passado, é entender que a humanidade só é humana porque um indivíduo depende do outro, é responsável pelo outro e tem o mesmo valor que o outro.

Quando digo que o Alto Rio Pardo precisa de pessoas mais à “esquerda”, na verdade afirmo que nos-sas lideranças sociais, religiosas, comunitárias e políticas precisam ultrapassar a mentalidade imediatista do capital e construir bases sólidas para que o humano cresça, eduque-se e consiga desenvolver uma nova cons-ciência de mundo e de fraternidade.

* Levon do Nascimento é professor da Educação Básica. Leciona História na rede pública e privada em Taiobeiras (MG). Autor dos livros “Palavras da Caminhada” (2006) e “Blogosfera dos Gerais” (2009). Seu blog é http://levontaiobeiras.blogspot.com/.

Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada - Disponível no site http://beiradeestrada.zip.net/ (Ponte velha sobre o Rio Pardo, na estrada entre Taiobeiras-MG e São João do Paraíso-MG)

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