segunda-feira, 15 de março de 2010

Pe. Gledson: A prática do amor fraterno

A prática do Amor Fraterno: uma herança apostólica

* Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis

Os Doze apóstolos foram os primeiros a confiar no Filho Amado, depois de terem tido o privilégio de conhecê-lo. Seu conhecimento da manifestação da caridade divina é o de testemunhos oculares. Durante sua vida comum, com Cristo, os apóstolos reconheceram nele o Verbo de vida, por lhe terem experimentado a virtude ou vislumbrado a glória. A manifestação do ágape divino, objeto de fé dos apóstolos, é o Cristo encarnado e redentor. Os Doze discerniram essa manifestação viva e tangível “entre eles”.

Se o amor compreende toda a atividade de Deus, todas as suas relações com o Filho e as criaturas, é por ter-se inscrito na natureza de Deus. Com efeito, o apóstolo João não diz que Deus é “amante”, ou somente que ele “ama”, mas que “ele é amor”. Mais ainda: não se trata de uma definição de seu ser, mas antes, a mais exata concepção que poderíamos ter de sua natureza.

Se o cristão se define como “aquele que ama de caridade”, é porque se caracteriza por um modo de amor, um tipo de amor totalmente particular, de qualidade divina e, em conseqüência, recebe uma denominação original entre todas as outras benevolências e beneficências: o ágape de origem celeste. 1Jo 4,7 refere-se a este caráter divino da caridade: “este amor é de Deus”. O ágape é fruto da “semente” divina recebida no batismo. Por isso, o gerado do Pai é capaz de amar divinamente.

Dizer que o cristão deve amar porque é gerado por Deus, significa que o amor tem uma afinidade com a natureza de Deus. O amor encontra em Deus a sua plenitude, sua fonte. Assim, tendo compreendido tudo quanto havia de caridade no coração de Cristo e manifestado em sua morte, o discípulo que Jesus amava concluiu haver em Deus um amor idêntico àquele que discernira no Verbo feito carne. Desse modo, na vida e nos lábios de Jesus, as expressões do amor divino são de tal forma extremas, múltiplas e como que gritantes, que o ágape do Pai é o atributo mais freqüentemente atestado por ser o mais manifesto.

O ágape do Pai, com efeito, refletia-se na vida de seu Filho único. A fé consistia, precisamente, em discernir no homem Jesus a presença e a natureza de Deus, em descobrir que Deus é caridade, isto é, um amor que se traduz, comunica-se e se doa. Acreditar no amor que Deus tem “no meio de nós” não é apenas confessar o Cristo salvador que manifesta essa caridade; é dar-lhe acolhimento, permanecer unido a Ele e dele viver. É, por conseguinte, incorporar-se ao ágape divino, “permanecer no amor”, que, por sua vez, é uma definição do cristão, ou seja, daquele que adere à revelação que Jesus fez do verdadeiro Deus e se insere na sua economia de salvação, sendo fiel a seus preceitos, especialmente àquele da dileção fraterna. Na verdade, o ágape é um elo, uma união, e, já que Deus é amor, permanecer neste amor é estar permanentemente no próprio Deus.

Não poderíamos conceber esse ágape como um meio ou um ambiente, nem mesmo uma virtude. São relações pessoais que se instauram entre o crente e Deus, como Jesus o exprimira (cf. Jo 17,26). Assim, amar, segundo São João, é estar presente um ao outro, é ser para outro, em função do outro e, em última instância, ser um no outro. Como as pessoas autônomas não se podem fundir numa só, essa imanência recíproca deve ser concebida como uma assimilação dos cristãos a Deus. De fato, somente pelo amor os cristãos se tornam semelhantes ao Pai.

 * Padre Gledson Eduardo de Miranda Assis é sacerdote da Arquidiocese de Montes Claros/MG.

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