quinta-feira, 25 de março de 2010

O pobre, o reino e o antirreino

Mais uma vez aproveito o tempo especial da Quaresma - preparação para a Páscoa - para lhe oferecer uma oportunidade de refletir. Veja este texto que escrevi em 2008 e publiquei no antigo blog e no livro Blogosfera dos Gerais.


* Levon do Nascimento, em 20 de outubro de 2008.


Assumir a evangélica opção preferencial pelos pobres não é fácil. Muitos pensam apenas em se tratar de fazer caridade. Aquela caridade de dar comida e roupa a quem não as tem. É também. Mas isto é só o começo. É algo bem maior. É libertar o ser humano de todas as amarras materiais e espirituais que o impedem de viver a riqueza de Deus (o usufruto dos bens da vida e a integridade dos valores eternos e divinos).

Assim, às vezes, conviver com pessoas que são detestadas por quem se considera honesto, justo, seguidor das leis humanas e/ou divinas, também pode ser um ato de estar com os pobres. O próprio Jesus conviveu com cobradores de impostos, prostitutas e ladrões. Nunca se tornou como eles. Ao contrário, levou-os ao seu exemplo e seguimento.

A opção pelo pobre, especialmente os pobres mesmos, os deserdados e excluídos, é mais do que simples ação de fim de ano ou caridade de limpeza de consciência. É ter a coragem de se tornar profeta ou até mesmo mártir por uma causa que valha a pena. Dizia uma velha canção que "o sangue vermelho dos mártires fez a semente do Evangelho se espalhar". De fato, os Atos dos Apóstolos nos revelam que quanto mais os primeiros cristãos eram perseguidos e presos, torturados e mortos, mais e mais pessoas, especialmente pagãos, pobres e escravos, se convertiam à nova fé em Cristo.

O Evangelho ou Boa Notícia, anunciado por um Jesus humano, pobre, filho de carpinteiro é, por essência, revolucionário e transformador em qualquer época e sociedade. Não somente e puramente no plano político ou material. Ele transcende as realidades do universo. É espiritualmente revolucionário. Começa no cotidiano da vida terrena e se completa na felicidade celestial da salvação dos homens e das mulheres que seguirem os seus valores, até se encontrarem com o Jesus divino, o ressuscitado, o Senhor.

O Evangelho de Jesus Cristo aponta para o Reino de Deus. Reino este que, segundo o próprio Jesus, em metáfora humana, é semelhante a um banquete. Ora, num banquete todos os convidados estão alegres, se confraternizam e dividem entre si os alimentos e as bebidas. É uma festa. Logo, o Reino do Pai é uma comemoração. E todas as pessoas são convidadas.

No entanto, não é um Reino somente para depois da morte. Jesus mesmo, em todas as ocasiões, buscou se banquetear com seus amigos e seguidores. Multiplicou o pão para o povo faminto a fim de não vê-lo sofrer e de tê-lo perto de si, ao invés de enviá-lo à cidade mais próxima para comprar comida. A fim de unir seus discípulos, despediu-se deles numa Ceia, na qual Ele próprio se fez alimento para saciá-los durante a luta que haveria de vir até sua volta. O Reino de Deus, pregado por Jesus, não suporta a fome, a divisão e a exclusão. É um Reino de justiça, de paz e de igualdade.

O contrário do Reino anunciado por Cristo é o antirreino. E se engana quem acha que é apenas aquele inferno alegórico da Idade Média. É o mau espiritual também. Mas começa no cotidiano da vida. São as peias e instituições humanas que provocam a competição, a rivalidade, a desigualdade, o egoísmo e todo azar de males humanos.

Os sistemas econômicos e políticos, quando utilizados para satisfazerem os egos perniciosos de pessoas ou grupos elitistas, em detrimento dos apelos dos pobres, tornam-se antirreinos; causadores da divisão; diabos (quem divide, separa, espalha) a assombrar os homens com a fome, as pestes, as guerras, as injúrias e as infâmias.

No entanto, o antirreino tem estratégias de dominação e sedução que, às vezes, chegam a confundir o seguidores de Cristo e de seu Evangelho. Apresenta-se belo, admirável e seguro. Induz ao erro. Mutila as consciências. Aliena.

Nas figuras metafóricas de linguagem do livro do Apocalipse, fala-se em bestas (tudo que é contra o Reino de Deus) que adquirem poder sobre as nações e os homens. Numa dessas passagens, há uma segunda besta que incute símbolos nas pessoas crédulas, incapazes de se perceberem dominadas. Tais sinais servem para tudo: comprar, vender, demonstrar reverência à besta. Somente aqueles que se mantiverem atentos ao Evangelho perceberão tais armadilhas, mas serão perseguidos até o Salvador venha redimi-los definitivamente.

Isto significa que os sistemas humanos, principalmente o econômico e o político, amparados nas técnicas de marketing e propaganda, iludem as pessoas com falsos valores, que lhes retiram a dignidade e a consciência, fazendo-as desprezarem a si mesmas, aos seus irmãos e a Deus para seguirem ditames que prejudicam a elas próprias, sem que percebam. Quem rejeita tais sistemas corre o risco da exclusão social e econômica, mas é amado por Deus.

Símbolos vazios de sentido, sinais do antirreino, amarelados pelo tempo, ornam as inconsciências de muitos. Aguardam pelo sopro do Espírito daquele que veio anunciar o Reino, para enfim tombarem na escuridão do esquecimento, destronados pela justiça que vem de Deus.

O antirreino tem seus estratagemas. Mas é pueril. Será destruído. O Reino de Deus, ao contrário, é forte e eterno. Vencerá. O sangue do Cristo, unido ao dos mártires, é o fundamento de sua existência pelos séculos sem fim.

Fonte:
NASCIMENTO, Levon do. Blogosfera dos Gerais: opinião, testemunho e outras reflexões. 1.ed. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2009. pp. 43-46.

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