quarta-feira, 10 de março de 2010

A falta de liderança nossa de cada dia

* Levon do Nascimento, para a Folha Regional

Já ouvi de várias pessoas as seguintes frases: “Taiobeiras só teve bons prefeitos”. “Uilton era organizado”. “Isalino foi muito honesto na prefeitura”. “Lúcio era um empreendedor”. “Joel, além de popular, trouxe muitas obras”. “Nen Sena e Dona Lia investiram muito na expansão do ensino e na melhoria da saúde”. “Denerval é um bom administrador e planeja tudo”.

Deve ser líquido e certeiro que todas essas assertivas do compêndio popular, listadas no parágrafo anterior, carregam um gérmen de verdade. Mas cabe uma análise histórica metódica para confirmar cientificamente tais afirmações. Deixo isto para algum momento posterior ou para outros que queiram aceitar a empreitada. Lanço, de fato, um questionamento crítico. Se sempre tivemos bons líderes, como parece correto, então por que tão poucas opções de nomes se viabilizam para a discussão de ideias e para o embate político propriamente dito, nestas terras de Bom Jardim das Taiobeiras? Em outras palavras: temos várias pessoas com potencial de liderança, porém pouquíssimas ou nenhuma se aventuram a propor um debate de ideias sobre o desenvolvimento e o futuro do município.

Verificamos, na história passada e na presente, uma órbita composta por vários nomes-satélites que se ligam a verdadeiros astros-messias que gravitam de tempos em tempos. Partindo de Joel e chegando ao presente grupo de Denerval, à sombra destes senhores não florescem potenciais sucessores com identidade própria e definida. E não posso afirmar que seja por culpa deles ou se por conta de uma condicionante histórica socialmente construída ao longo do tempo. Aos nomes que se assentam à távola não tão redonda destes senhores, impõe-se a dura sina de repetir mecanicamente os mantras entoados por seus mestres. No passado o discurso era o da busca de obras ou o de que o chefe era perseguido por sua bondade para com o “povão”. No presente, cantarolam a lisura das contas, o arrojo empreendedor da máquina pública e a administração científica empresarial. Nenhuma fala é criativa ou distinta “em substância” à do senhor.

Notem, não proponho que quem esteja num governo qualquer afronte o eleito com críticas disparatadas ao seu modo de agir. Falo de brilho, de carisma, de ideias próprias e de lucidez política dos que, eventualmente, poderiam assumir a liderança de um novo projeto, sucessório ou não, ao dos grupos que integram.

Para ser mais claro, se compararmos nossos “bons prefeitos” com árvores frondosas, testemunharemos que debaixo de sua sombra não nascem novas árvores que venham a atingir o mesmo porte. Eles nunca se preocuparam ou nunca quiseram construir grandes líderes que lhes sucedessem. A construção é sempre de pálidos reflexos de seus próprios egos. Daí se explica porque as campanhas eleitorais em Taiobeiras são tão caras, dispendiosas e insanas; e isto em linha ascendente na história. Pois, o que não se consegue pelo carisma, pelo debate franco de ideias e pela “bagunça” democrática, se tenta alcançar pelas forças do dinheiro e da sedução dos interesses pessoais.

Vamos pensar, meu povo! Que líderes queremos? Os vinculados somente ao dinheiro, que com ele criam uma situação de ficção visual; ou os peregrinos das ideias, que na luta podem provocar verdadeiras transformações? A resposta é sua, na urna e na participação. Incrivelmente, eu lamento já intuí-la. Mesmo assim, não perco a esperança.

* Publicado em 10 de março de 2010 na edição impressa do Jornal Folha Regional, Taiobeiras/MG (Ano VIII, nº 159)

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