sábado, 6 de março de 2010

Com os olhos da fé

O Evangelho da Transfiguração do Senhor (cf. Lucas 9,28b-36), meditado no 2º domingo da Quaresma deste ano, permite fazer uma reflexão menos racionalista dos mistérios divinos, sem dirigir para um sentimentalismo estéril ou para uma alienação religiosa primária.

A Transfiguração do Senhor no Monte Tabor, com toda aquela luminosidade irradiante e alocução de uma voz transcendente que provém da nuvem, aponta para a valorização da mística, inerente ao mistério cristão. Mística tão esquecida nas práticas burocráticas de nossas vidas paroquiais e nos rituais litúrgicos congêneres. Mística tão excessivamente abusada em “teologias” populistas de pouco fôlego e de muito barulho, achegadas a uma pirotecnia da fé.

Não, a transfiguração não é pretexto para pregações milagreiras ou devotadas ao mundo mágico dos mitos, das curas e das pretensas “libertações”. A irradiante luz que alvejou as roupas do Senhor não apontavam, em nenhum instante sequer, para uma vivência da fé de maneira individualista, nem para a conformação com os problemas do mundo, à espera de um reino meramente pós-morte. Ao contrário, quando os apóstolos quiseram ali ficar, levantando tendas para melhor se aconchegarem àquele momento de sutil tranquilidade espiritual, o Senhor novamente lhes deu a missão de descerem e não contarem o que viram até a sua Ressurreição gloriosa (vitória sobre o mundo e sobre a morte). Em outras palavras, Jesus ordena manter a fé na verdade vista e escutada no Monte Tabor, no segredo do coração, porém com os pés bem fincados no sopé do monte, na planície da vida, no vale dos enfrentamentos humanos.

A transfiguração vista pelos apóstolos abriu-lhes os olhos da fé. Fez com que ao avistarem as realidades celestes, preparassem o coração e a mente para as realidades terrestres. Não os fez se conformarem. Não lhes tornou egoístas a ponto de ficarem com a impressão daquele momento apenas para si. Impulsionou-os a descer e a viver aquela transfiguração no relacionamento com os demais irmãos e irmãs, sem que houvesse a necessidade de verbalizar tudo o que experimentaram naquele instante.

A fé, ao contrário do que alguns dizem, quando não é alienada e conformista, torna-se força motriz dos fieis para a transfiguração do mundo, para a transformação dos corações, para edificação do Reino de Deus no universo tangível aos nossos sentidos, abrindo caminho para o intangível. Enxergar com os olhos da fé não significa apagar os erros de nossa humanidade transgressora. Qualifica-nos para o exercício da correção mútua e fraterna.

Desçamos do monte. Caminhemos com o Senhor na História dos homens... até a Ressurreição.

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