sábado, 27 de fevereiro de 2010

A maldição branca

* Eduardo Galeano
Fonte: Grupo de Discussão Discriminação Racial

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.

Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.

O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos  jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.

Da maldição branca não se falou.

A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:
- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?
- O anterior.
- Pois, que seja restabelecido.
E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.

Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final. Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.

Nem Bolívar

Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.

Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.

Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte,  pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.

A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.

E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.

Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.

Náufragos anônimos

Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.

Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.

Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo. Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes… Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.

O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

Este texto me foi enviado por Delci Alvez Luz, Secretário Municipal de Administração da Prefeitura Municipal de Cordeiros - Bahia, através de e-mail datado de 27/fev/2010.

27 comentários:

Anônimo disse...

Este texto é muito bom. Conta a história do Haiti que ninguém conhecia. Na verdade, o povo negro do Haiti é grande vítima do imperialismo europeu e norte-americano. Longa vida ao povo negro do Haiti.

Pedro Motta

Rayssa disse...

Amei o texto , é muito interessante fiquei sabendo de muitas coisas que eu nãao sabia .Que estes negros do Haiti superem isso cada vez mais e mais, e que eles tenha uma boa e longa vida .

Parabéns Levon .

Levon disse...

Teste de comentário na sala 7º ano Toquinho. Teste concluído com sucesso.

willian disse...

Isto é um teste como os alunos do 7 sno Cazuza, da Escola Estadual Presidente Tancredo Neves.

Marcos disse...

Isso conta com a maioria das pessoas julga erradamente o Haitie tambem e bom para que todos saibam coo o povo dela sofreue sofre.

Marcos Antonio
Turma:Gilberto Gil

Marcos disse...

Que esse texto conta a verdadeira história do Haiti e as falsas falasdas pessoas que o julgavam.E que essa pessoas do Haiti nos sorpreenderam mais ainda.
Isabel
Turma Gilberto Gil

blog do kaio disse...

Muito bom..Esse texto fala sobre a história do Haii que nós nunca ouvimos falar.Os negros eram grandes vítimas do imperialismo europeu e note-americano.Ápos uma revolta dos escravos,em 1794, o Haiti tornou-se o primeiro país domundo a abolir a escravidão.

blog do kaio disse...

Muito bom..Esse texto fala sobre a história do Haii que nós nunca ouvimos falar.Os negros eram grandes vítimas do imperialismo europeu e note-americano.Ápos uma revolta dos escravos,em 1794, o Haiti tornou-se o primeiro país domundo a abolir a escravidão.

lucas disse...

eu entendi que no primeiro dia deste ano,a liberdade completou dois séculos de vida no mundo.

lucas disse...

Eu entendi que no Haiti niguém se inteirou disso,ou quase nimguém.O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão.

thjessica lainny disse...

''A maldição branca é um relato muito interessante,que envolve o haiti.conta a história onde os negros superam uma crise.o haiti e um exemplo de superação onde os negros são tratodos sem preconseito.por isso muita saúde e paz o resto eles correm atrás.

leandro disse...

eu entende que no haiti os habitantis erampobres e no haiti fala muita coisa que nos nunca ouvimos na escola e tambem que o haiti foi o primeiro país do mundo a bolir a escravidão.

leandro disse...

eu entende que no haiti os habitantis erampobres e no haiti fala muita coisa que nos nunca ouvimos na escola e tambem que o haiti foi o primeiro país do mundo a bolir a escravidão.

blog do kaio disse...

Eu achei o texto muito interessante.Ele fala sobre as pessoas do Haiti ,todos do desse país são negros.Nesse texto eu aprendi coisas que eu não sabia.

lucas disse...

Eu entendi muitas coisas que antes eu não sabia e hoje já sei que o haíti era um país muito rico mais mesmo assim tinha escravos mas com o passar do tempo ele foi se tornando pobre e hoje e um país mais pobre da América central com varios roubos enfim e um pais de muito sofrimento.Obrigado Levon por nos ensinar isso .

... disse...

Muitas coisas que você citou aí,são que eu ainda não sabia.O mais interessante foi que os haitianos conseguiram se libertar e também exportar o seu arroz que os manteve naquele país muito pobre.E também a faixa que colocaram na entrada da cidade, sem vergonha de dizer que são catadores de sucatas!
Muito Bom!!....Mênyky

nyky disse...

Levon essas pessoas tem que fazer mais duações para as pessoas do Haiti eles estão precisando desde do dia do terremoto ..a Levon sobre a maldiçao branca ate que legal !! Achei ,mais enteressante o do Haiti....
Monyky

nyky disse...

Levon está ótimo principalmente falando Haiti por causa do terremoto ,,,as pessoas podiam mandar comidas e dinheiro para ajudá-los!!! Ah, Levon eu li "A maldiçao branca"

8° ano , Gilberto Gil...Monyky

Tamires disse...

O Haiti tornou-se um país pobre, em decorrência da questão da etnia racial e social,que estabeleceu posições de níveis culturais sócio econômico entre o país que não valorizou a espécie humana constituída e considerada de valor relativo de acordo as intenções políticas seus representantes incapazes.


Tamires de O. Almeida

Turma:Gilberto Gil .

Tamires disse...

O Haiti tornou-se um país pobre, em decorrência da questão da etnia racial e social,que estabeleceu posições de níveis culturais sócio econômico entre o país que não valorizou a espécie humana constituída e considerada de valor relativo de acordo as intenções políticas seus representantes incapazes.


Tamires de O. Almeida

Turma:Gilberto Gil .

erick disse...

eu achei o texto muito informativo sobre a historia do haiti,mostra que o haiti foi um dos lugares com mais escravidão, e com muita luta dos haitianos eles conseguiram abolir a escravidao e serem livres. apesar dele ja for comandado por outros paises como os Estados Unidos.Mas depois disso o haiti nao foi mais reconhesido pelo povo ate acontecer essa catastrofe que abalou o mundo inteiro, e ele foi reconhecido em jornais,revistas,enternet.


erick kevin rocha ramos turma:coragem

Joâo Paulo disse...

levon gostei muito disso por causa do comentario sobre o haiti

lucas disse...

eu entendi que o chile não e apenas um dos paises pobres mas também um dos paises álem do Brasil , que teve a escravatura .

Levon disse...

Lucas, não seria o Haiti, ao invés do Chile, de que trata este post?

wesley disse...

eu achei o texto muito informativo neste texto fala sobre o haiti que neste ano este pais foi o primeiro a abolir a escravidão.
eu aprendi muitas coisas que eu nao sabia...

keyle karolyne disse...

adorei o texto e saber o que está acontecendo no haiti e ve que eles estao superando

Franciely disse...

Gostei, conta a história do Haiti e quanto eles sofriam ,e o quanto eles tinham que enfrentar para vencer o preconceito , e também o Haiti tornou-se o primeiro país do mundo a abolir a escravidão.


Franciely Cruz Alves
Turma: GILBERTO GIL .