sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Igreja de São Sebastião de Taiobeiras

Neste ano de 2010 a Paróquia São Sebastião de Taiobeiras/MG comemora os seus 75 anos de fundação, a sua Igreja Matriz foi reformada e em breve será reinaugurada, além da Arquidiocese de Montes Claros/MG, da qual faz parte, estar celebrando o seu centenário. Dentro deste contexto, achei interessante publicar aqui no Blog este excelente poema da Professora de Língua Portuguesa e taiobeirense, Nair Marques Freitas, publicado na última edição do Jornal Folha Regional, de Taiobeiras.

Igreja de São Sebastião de Taiobeiras

* Nair Marques Freitas

Antigamente,
Lá pelos meados de 1900,
São Sebastião atendia aos seus devotos
Na praça Joaquim Teixeira.
Sua morada era pequenina
E em torno dela repousavam
Corpos e almas pelo além chamados
Do Bom Jardim das Taiobeiras.
Para contrastar com tanta
Humildade e singeleza
Erguia-se ali, em frente à igrejinha,
Um majestoso e robusto cruzeiro...
Nas madrugadas frias e desertas,
As almas levantavam-se das catacumbas
E ajoelhavam-se soturnas e fervorosas ao pé dele:
Imploravam misericórdia e desvelo.

Mas na maior parte do tempo
Reinavam os vivos que por ali se iam:
Os padres, ora Horácio de Rio Pardo,
Ora Salustiano de Salinas.
Missões, missas, casamentos, batizados, rosários...
E a famosa festa do santo,
Sempre no mês de janeiro?
Eram nove dias de reza,
Nove dias de leilão,
Nove dias de churrasco, cada dia,
Na casa de um novenário.

Vai que dona Rachel Torres,
Recém-chegada de Rio Pardo,
A igreja muito pequena achou.
Pois não. Um pedaço na frente aumentou,
Dando-lhe o formato que até hoje ficou.

Por volta de 1938,
A igreja a paróquia passou.
Veio então frei Acário,
Bondoso como ele só!
Coração de mãe,
Alma de passarinho,
Franciscano convicto.
Logo que chegou, percebeu
Que hereges ao pé do cruzeiro
Começaram a se sentar
Pra, na calada da noite,
Suas tramoias combinarem.
Ficou furioso e mandou
O cruzeiro dali tirarem,
Que levassem-no pra bem longe,
Onde ninguém pudesse
O símbolo do Cristianismo
Com seus atos profanar.

Um dia disse o bom frei:
— A igreja está pequetita,
A freguesia crescida...
Vamos outra mais bela,
Na rua Grande*,
Com habilidade levantar?!

Assim que acabou o alicerce,
O bom frei foi transferido,
E dizem as más línguas, não sei,
Que o motivo foi que ele
Dava todo o dinheiro da igreja
Para os pobres desvalidos.

Mil, novecentos e quarenta,
Frei Juca chegou então,
Com uma febre intermitente...
Era maleita,
Ou era somente garra
Por um trabalho diferente?!

Assim que baixou a febre,
Começou a revolução,
Arrancou o alicerce novo,
Querendo o povo ou não,
Levou-o para o outro lado*
Recomeçou a construção.

Pegava picareta,
Ajudava com suas mãos,
Jogava tijolo pro alto,
Com bravura cavava o chão.

Cimento era coisa rara,
Areia e cal tava bom,
Dinheiro, mesmo difícil,
Todo filho de Deus doou.
E frei Juca, com jeitinho,
Foi criando artifícios:
“Padrinhos do Sino”
Que deram o sino;
“Afilhados de Nossa Senhora”
Que doaram sua imagem,
Mas tantos outros, sem nenhum ajeito,
Foram se dando, sim senhor:
Davam o seu parco salário
Ou seu valoroso labor;
Purcino Cardoso, por exemplo,
Deu todo o telhado
Sustentado por aroeira,
Revelando assim seu amor.

A construção foi bem lenta,
Pois com férias de dois em dois anos,
Por duas vezes frei Juca
À Holanda foi passear,
Gozando seis meses de cada vez
Antes da obra acabar.
Da primeira vez em que foi,
Assim que retornou...
Era chuva,
Mas tanta chuva na terra,
Que o alicerce arriou.
— Qual nada! — disse ele -
E a emenda efetuou.

Ficando pronta a jovem igreja,
Diversas lápides dos sepulcros
Do cemitério da igreja-mãe
Para a nova, com cuidado,
Conseguiram transportar.
Estão lá, debaixo do piso,
Bem na frente do altar.

E frei Juca, para registrar,
No alicerce deixou enterrada
Uma garrafa contendo moedas,
cédulas e informações da época.
Mais tarde, também lá,
Exigiu que construíssem
A sua eterna morada.

Em 1975 frei Salésio chegou
Também franciscano,
Também holandês,
Também conservador,
Mas a igreja reformou:
Um busto do frei Juca se exibiu na praça,
Holofotes se acenderam no chão,
Um coreto ecoou seu silêncio...
A modernidade com o velho se misturou.
O sino tocou tristemente,
Frei Salésio se foi...
Também lá pediu pousada
Pros seus restos, pra sua ossada.

Outros padres vieram:
Jovens, anciãos, meia-idade,
Franciscanos e não-franciscanos;
Outras ovelhas vieram:
Crianças, jovens, idosos, meia idade,
Fiéis e não-fieis,
Calorosos e não-calorosos.

Janeiro de 2009,
Festa de São Sebastião,
Padre Fernandes levantava
Uma complexa questão:
- Que tal, agora,
A velha igreja ampliar,
Já que ela não comporta
Tantos cristãos a rezar?
E a discussão se acirrou
Por tudo quanto foi lugar...
Gente a favor,
Gente contra,
Todos queriam opinar.
A maioria não aceitava
Ver a igreja querida
Ser mudada, demolida,
Não dava pra conformar.
E graças a Deus, a seguir,
Padre e povo conseguiram
Um pleno acordo atar
Padre Antônio chegou, então,
Para a reforma prevista
Ser o coordenador.
E com a sociedade atuante,
O projeto foi avante,
Ficou pronto, sim senhor!

E o monumento permaneceu,
Antigo, é verdade,
Mas lúcido o suficiente
Para contar histórias a toda a cidade,
Confrontando o presente e o passado,
O velho e o novo,
Garantindo a identidade,
A fé e a religiosidade
De seu humilde povo.

E adiante,
O que virá?
Quem viver, verá!

OBS.:  Rua Grande: Avenida da Liberdade. Outro lado: Praça da Matriz.

* Nair Marques Freitas é Professora de Língua Portuguesa e reside na cidade de Montes Claros/MG.

Comentário do Levon:

Nair Marques Freitas foi uma das minhas excelentes professoras de Língua Portuguesa nos Ensinos Fundamental e Médio. Aliás, tive grandes professoras nesta área, como também Janete Moreira e Emília Bandeira. Evidentemente que não chego aos pés de minhas mestras, mas foram elas que me ensinaram o bastante para me expressar razoavelmente na língua de Camões e Machado de Assis. Nair também escreveu o prefácio do meu primeiro livro, Palavras da Caminhada (2006).

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