quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Oposição aos profetas

* Dom José Alberto Moura


Nos escritos bíblicos encontramos, muitas vezes, narrativas sobre profetas perseguidos porque disseram a verdade e fizeram críticas a desmandos de lideranças. Deus escolhia pessoas até frágeis para a realização de missões difíceis. Jeremias, por exemplo, foi admoestado sobre sua árdua incumbência, mas com a segurança da proteção divina: “Não tenhas medo... eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes... eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te” (Jr 1, 1-19).

Não raro até a pessoa honesta é perseguida porque sua honestidade contrasta com os projetos e práticas de pessoas sem escrúpulo em lesar o bem alheio e até o bem público na realidade da política. Há quem se vinga porque alguma pessoa ou instituição religiosa não se colocou ao lado de atitudes pouco éticas. Não se conforma com a conscientização da população sobre a responsabilidade do voto em quem realmente tem condição moral e prática de servir o bem público. Na verdade, até quem quer servir com honestidade a comunidade fica com receio dos obstáculos no exercício do mandato. A própria comunidade e toda pessoa deveriam acompanhar as pessoas eleitas para que elas exerçam o cargo de acordo com a finalidade pela qual foram escolhidas.

Jesus anuncia a ação de Deus em bem de pessoas aceitadoras de seu projeto, manifestando sua fé mesmo nas dificuldades e nos obstáculos da vida. Assim, lembrou o milagre acontecido com a viúva de Sarepta, que beneficiou o profeta Elias, dando-lhe o pouco que tinha e suas vasilhas não ficaram sem comida. Lembra também a cura do sírio Naanã, feita com a ação do profeta Eliseu. O divino Mestre apresentou esses fatos, contrastando-os com a incredulidade dos judeus (Cf. Lucas 4, 25-30). Por isso, estes não quiseram aceitar a crítica de Jesus e o expulsaram da cidade. Se o próprio Messias não foi aceito e até o crucificaram, muitos também, por causa dele e de sua verdade, não são aceitos numa sociedade com muito paganismo, hedonismo e materialismo. O Evangelho apresenta um itinerário de vida exigente para se obter dignidade e grandeza moral. Muitos querem que a Igreja seja “light” ou leve em suas exigências. Mas ela não pode mudar os valores de Cristo. Aliás, Ele mesmo disse que o caminho que leva à salvação é estreito e exige renúncia.

No seguimento ao Filho de Deus, como discípulos, temos que fazer a experiência de vida na contenção do que diminui ou anula o valor ético e moral da vida. Não se pode abrir mão do respeito à vida desde a fecundação até a morte natural. A família bem constituída, conforme o projeto do Criador, é um desafio frente à sua desvalorização apresentada em tantas novelas e tantas pessoas que são cegas para o valor da dignidade do matrimônio, da mulher e da sexualidade humana. A proposta cristã não pode ser vista como freio aos instintos, mas como elevação da interrelação das pessoas, que são imagem e semelhança de Deus. Mesmo nas oposições em relação aos valores humanos e cristãos, temos que apresentar e defender a verdade do humano e a perspectiva do divino no humano.

* Dom José Alberto Moura é Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Primeiro Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic). Nasceu em Ituiutaba, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1943. Pertence à Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo (CSS). Foi nomeado Arcebispo Metropolitano de MOC em 07 de fevereiro de 2007, tomando posse nesta Igreja Particular em Missa Solene no dia 14 de abril do mesmo ano.

Fonte: Arquimoc.

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