segunda-feira, 18 de junho de 2018

A culpa é do professor: outro "p" deste país


* Levon Nascimento

Utilizar erroneamente as redes sociais é fonte de dores de cabeça. Um dia da caça, outro do caçador. Embora este texto não seja sobre redes sociais, mas a respeito do suicídio profissional que se cometeu ao tratar os professores de Taiobeiras como larápios, na semana que passou, através das ditas ferramentas de comunicação virtual.

Para ser professor o cidadão tem que fazer graduação superior, pós-graduação lato sensu e vários cursos de aperfeiçoamento ao longo da carreira, como em qualquer profissão liberal: médicos, advogados, enfermeiros, engenheiros, etc.

Mas são mal pagos. Ultimamente nem têm recebido em dia, além do parcelamento dos salários ao longo do mês. Isso sem falar do desrespeito cotidiano de alunos malcriados, estruturas escolares sucateadas e a concorrência, pelo interesse dos estudantes, com a mídia venal e o tráfico.

No entanto, geralmente os pais de alunos, que empurram os rebentos aos cuidados dos “mestres”, têm colocado a culpa nesses pela crise financeira pela qual passa o setor de educação.

A Constituição de 1988 é muita clara em dizer que educação é direito de todos e dever do Estado, da família e da sociedade.

Acontece que o Estado brasileiro, no pós-golpe de 2016, tem retirado recursos, acabou com a regra de destinação dos royalties do Pré-Sal para as escolas e trata os professores como estorvo e não como ativo.

Enquanto os altos escalões da República ganham acima do teto, viajam para receberem premiações escusas em paraísos fiscais e auferem auxílio-moradia mesmo tendo casa na cidade em que trabalham, professores são tratados como culpados pela falta de recursos públicos, pelos baixos índices educativos do país (como se fossem os únicos responsáveis por isso) e ainda têm que sustentar a atividade de ensino com recursos próprios, pois sem isso não conseguem trabalhar.

Nem se fala do risco de aprovação da lei de censura “escola com mordaça”.

É o xerox das atividades, a vaquinha para a festa do dia das crianças e do estudante, os refrigerantes para servir na recepção dos pais e mães de alunos no dia da festa da família na escola. Tudo sai do bolso dos professores. Além de serem babás de algumas crianças cujas famílias não se importam (ou não podem?) em ofertar o mínimo de ensinamentos para saberem viver em coletividade com respeito.

Pois não é que em Taiobeiras esses mesmos professores estão sendo acusados de “viajar para praia às custas dos pais”? Aliás, para as “melhores praias do Brasil”. Tudo na teia do Mark Zuckerberg.

É triste ver proletário atacando proletário, pobre atacando pobre, pais de alunos atacando professores. Enquanto isso, os grandes riem de nós.

Rede social aceita tudo. No passado era o papel. Com outros ditados, “quem conversa demais dá bom dia a cavalo”, “muito ajuda quem não atrapalha” e fulano “calado é um poeta”.

Viva as professoras e os professores deste país!

* Professor de história, escritor e mestre em Estado, Governo e Políticas Públicas.

domingo, 27 de maio de 2018

Sobre a crise dos combustíveis

Esqueça um pouco do disco arranhado da corrupção. Vamos discutir o país? Sobre a crise dos combustíveis.

Os governos Lula e Dilma pensavam a Petrobrás pela ótica do interesse do Estado brasileiro, visando o desenvolvimento econômico nacional a longo prazo. Nunca foram comunistas. A lógica era a de um capitalismo moderado (se é que isso seja possível).


Os liberais do PSDB, juntos com Temer, que lhes serve, pensam na Petrobrás como um instrumento de ganhos privados (particulares), servindo às ordens das petroleiras estrangeiras.


Ao assumir a presidência, Temer nomeou o tucano Pedro Parente, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), para presidente da Petrobrás.


Ao contrário da época de Dilma, em que a presidência da Petrobrás controlava os preços dos combustíveis até onde era possível (Dilma chegou a ser processada por não deixar a livre concorrência determinar o preço da gasolina), Pedro Parente passou a deixar "o mercado" conduzir os preços.


O interesse do "mercado" é sempre o do lucro dos acionistas, gente rica, muitos estrangeiros, pouco se importando se está caro ou não para os consumidores comuns.


Ou seja, a crise que temos agora é fruto do LIBERALISMO ECONÔMICO que algumas pessoas, equivocadamente, defendem como sendo o "novo" remédio para o país.


O correto é defender o controle público do Brasil sobre suas reservas de combustíveis fósseis, assim como sobre outros setores estratégicos para o desenvolvimento nacional.


Nada de intervenção militar, que não resolveria os problemas econômicos da Nação. Nada de histeria e maluquice. A saída é pela democracia e por eleições livres, com a participação de todos os partidos políticos, expondo com clareza o projeto de cada um para o Brasil.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Qual justiça?

* Levon Nascimento
A derrotar o pedido de HC para Lula, os seis ministros do STF alegaram que é preciso interpretar a Constituição Federal segundo a vontade das ruas. Seria como na Idade Média, em que mulheres eram queimadas nas fogueiras da inquisição porque uma grande quantidade de homens bradava nas ruas que elas estavam possuídas pelo demônio. A justiça se dava na base do grito.
A Constituição diz que ninguém pode ser considerado culpado antes de que o processo transite em julgado, ou seja, sem que o processo chegue ao final. Mas, a Constituição não existe mais no Brasil. Nem a democracia.
Muita gente a favor da prisão do ex-presidente Lula lembrou que no país os processos demoram muito e que a justiça tarda e acaba não sendo feita.
Mas alguns problemas precisam ser levantados. Lula foi condenado já em segunda instância, apesar de vários juristas, a maioria deles longe de ser petista, afirmarem que seu processo tem falhas graves, que não apresentou provas e que se baseou apenas em delações premiadas ( quando o sujeito já condenado, denuncia outro em troca de ganhar redução da pena e de não perder parte do dinheiro roubado com corrupção).
Dessa forma, Lula estaria sendo vítima de um processo político e não se teria 100% de certeza de que realmente é culpado do crime que lhe imputam.
Quando se observa que os políticos dos partidos adversários a Lula jamais foram julgados e nem sequer passaram perto do tipo de tratamento que é dado ao líder petista, começa-se a dar razão a esses juristas que questionam o processo em que Lula foi condenado por conta do tal tríplex do Guarujá.
Aécio Neves, com malas e gravações, está livre. Michel Temer, com áudio, malas e outros escândalos, está na presidência. Geraldo Alckimin, José Serra, FHC, Eduardo Azeredo, com processos prescrevendo por causa da lentidão da Justiça, que jamais prendeu tucanos. Até Eduardo Cunha, ninguém sabe como realmente se encontra.
Dá para desconfiar de que, na verdade, trata-se de uma imensa perseguição a Lula, justamente porque ele é o líder absoluto nas pesquisas de intenção de votos a presidente da República para as eleições de 2018.
Também contribuiu para se passar da desconfiança à certeza de que é uma perseguição política implacável, a campanha de grupos de direita, da Rede Globo e dos demais veículos da grande mídia, de setores privilegiados do Judiciário e até de parte das Forças Armadas contra Lula.
É um processo político para impedir eleitoralmente o líder político mais bem avaliado da história brasileira. Justamente aquele que governou criando políticas que redistribuíram renda, melhorou a economia do país e incluiu milhões de brasileiros pobres à condição de sujeitos de direito, com acesso aos bens da cidadania.
Dá para se ver que o processo que condenou Lula, na verdade, não ouviu a voz das ruas. Pelo menos não das ruas onde vivem os trabalhadores, os mais humildes, os que foram incluídos pela cidadania na era petista. E nem deveria. Os tribunais devem se ater à letra da lei. No caso do STF, sua missão seria a de ser o último guardião da Constituição Federal. Nela está escrito que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de um processo.
A Justiça, ao não conceder o HC a Lula, permite que o ex-presidente seja preso a qualquer momento, antes que seu processo termine. Supondo que, futuramente, nas instâncias superiores se descubra que ele não é culpado do que o acusam, já será tarde demais. O ex-presidente terá experimentado a cadeia, sido humilhado e seu legado político vilipendiado. Da mesma forma, não poderá disputar a eleição, permitindo que candidatos fascistas, que desprezam a democracia, ocupem o seu espaço.
Os seis ministros do STF que disseram estar ouvindo os clamores das ruas e da sociedade para não concederem o direito de Lula responder a todo o processo em liberdade, fizeram igual a Pôncio Pilatos no histórico julgamento de Jesus. Mesmo não encontrando crime algum no Filho de Deus, mandou surrá-lo, coroá-lo de espinhos e matá-lo numa cruz porque a multidão, manipulada pelos sacerdotes do templo (uma espécie de Rede Globo da época), gritava histérica a favor da condenação do nazareno na porta do palácio do governador romano da Palestina ocupada.
Antes que digam que estou comparando Lula com o Filho de Deus e que dessa forma cometo sacrilégio ou blasfêmia, digo em minha defesa que a analogia se restringe à forma como ambos os julgamentos foram conduzidos: parciais, manipulados, a serviço dos grandes e poderosos, contra réus inocentes, em desserviço do bem comum e da coletividade.
Ademais, Jesus mesmo nos ensinou a ter fome e sede de Justiça. É o que resta aos brasileiros progressistas, nacionalistas e solidários nesta triste hora da Nação. Justiça que não seja a praticada pelo Poder Judiciário.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O jejum de Dallagnol

O procurador da República Deltan Dallagnol informou que está em jejum e oração para que o STF permita que o ex-presidente Lula vá para a cadeia, por conta do tal tríplex do Guarujá. Dallagnol é evangélico e jejuou na Páscoa.
O papel de um procurador é levantar as provas para embasar a acusação que faz a um réu. Sem provas não há crime. O procurador tem todos os meios e instrumentos legais para coletar as provas, se elas realmente existirem.
No caso, em quatro anos, o procurador não conseguiu nenhuma prova contra Lula, a não ser delações de presos que ganhariam redução de pena caso citassem o nome de Luiz Inácio Lula da Silva, o que só reforça a tese de que o ex-presidente é inocente em relação às acusações que o procurador Deltan Dallagnol e sua equipe lhe fazem.
Daí, do lado jurídico e moral, o procurador comete injustiça, pois visa prender alguém mesmo sem possuir provas concretas de que ele cometeu um crime. Do ponto de vista religioso e cristão, para quem tem fé, é mais execrável ainda, pois usa o nome de Deus e abusa de práticas sacrossantas (jejum e orações) para mobilizar pela prisão de uma pessoa contra quem ele não conseguiu produzir uma única prova substancial (que seria sua função).
Se é que realmente Deltan Dallagnol, que é da Igreja Batista, acredita em Deus...

quinta-feira, 15 de março de 2018

Taiobeiras e a superação da violência


* Levon Nascimento

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão máximo da Igreja Católica no país, escolheu “Fraternidade e superação da violência” como tema da Campanha da Fraternidade de 2018, atividade sugerida para o tempo litúrgico da Quarema, sob o lema retirado do Evangelho de Mateus, “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8).

Enquanto isso, assistimos a uma atividade de intervenção militar federal no estado do Rio de Janeiro, sob a qual pairam dúvidas se é realmente para resolver os graves problemas na segurança pública da sociedade fluminense ou se para ressuscitar os moribundos números de popularidade do Governo Federal. A julgar pelas imagens escandalosas de crianças negras e faveladas tendo as mochilas escolares reviradas por agentes armados com material de guerra, temo que a segunda opção, a do marketing político, seja a mais provável.

Em Taiobeiras, a violência permanece a assustar. Os jovens são as maiores vítimas – e dentre esses, os jovens pobres. De acordo com o Armazém de Dados da PMMG, no período de 1º de janeiro de 2016 a 26 de dezembro de 2017, Taiobeiras ocupou a 5ª posição no ranking de homicídios entre as 61 cidades que compõem a 11ª Região da Polícia Militar de Minas Gerais. À frente de nós, respectivamente, apenas Montes Claros, Janaúba, Jaíba e Nova Porteirinha. E, enquanto esses municípios apresentaram variação de queda de 2016 para 2017, nossa cidade subiu 29% neste mesmo espaço temporal. No Alto Rio Pardo, a cidade mais próxima de Taiobeiras em número de mortes violentas é Salinas. Mesmo assim, encontra-se oito casas abaixo, em 13º lugar na 11ª RPM, e apresentando estabilidade de um ano para o outro.

Conforme dados extraídos do Cadastro Único de programas sociais do Governo Federal, 50,07% da população de Taiobeiras se encontravam em posição de maior ou menor grau de vulnerabilidade em 2016, apresentando baixíssima renda. Isto equivale à metade dos habitantes do município. Em maio daquele ano, cerca de 7.500 taiobeirenses sobreviveram com, no máximo, R$ 77,00 per capita. Pelo agravamento da crise econômica e com a retirada de direitos patrocinada pelo golpe de Estado, não creio que a situação tenha melhorado, se é que não piorou.

Muito se especula sobre as causas dessa violência taiobeirense. Sou pela tese de que, aliado a este nosso fosso social, em que metade do povo se encontra na pobreza extrema, há uma questão processual e histórica. Sempre fomos complacentes com a agressividade, de todas as formas: de homens contra mulheres, da exploração sexual de crianças e adolescentes, da grilagem de terras que expulsou os pequenos do campo, das formas de trabalho análogas à escravidão, num passado não tão remoto, e dos jovens deserdados pelas instituições, assimilados e manietados pelo tráfico de drogas.

É evidente que não é problema só de Taiobeiras. Todos os estudiosos da área de criminalidade e segurança pública apontam para a interiorização da violência nas duas primeiras décadas do século, que chega às pequenas cidades e até ao meio rural. A expansão da dinâmica globalizada, com relações de trabalho mais impessoais, apelo acentuado ao consumismo e quebra dos antigos laços comunitários de sociabilidade, contribui para que se reproduza nas localidades menores o processo de individualização e mercantilização da vida que já se conhecia nas grandes cidades do Brasil e do mundo.

Ocorre que em lugares pobres, vulneráveis e historicamente condescendentes com práticas de agressões aos direitos humanos, como em Taiobeiras, essa nova realidade global veio se somar negativamente, inflacionando dores e tragédias, dando-lhes um caráter ainda mais brutal e cruel.

Melhor do que apostar em saídas fascistoides, que vomitam nas redes sociais e nas conversas de boteco os bordões do tipo “bandido bom é bandido morto” ou “morreu porque era do tráfico”, acredito que o esforço em Taiobeiras deve se concentrar na execução de políticas públicas sociais e de segurança que se sirvam de inteligência informacional, zelo pela pessoa humana e capacidade orçamentária e profissional de articulação, eficiência e efetividade para ações integradas entre o “social” e a “segurança”.

É um caminho longo, que não permite aventuras como a intervenção do Rio. Sabendo que “em Cristo somos todos irmãos”, como professa a Igreja, é necessária a paciência fraternal para salvar os que se desgarraram do caminho da paz.

* Levon Nascimento é mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Brasil) e Fundação Perseu Abramo. Sua dissertação tem como tema “políticas públicas e a violência em Taiobeiras”.

sábado, 3 de março de 2018

O que a escola pode ou não pode ensinar?


Provavelmente, você já recebeu uma mensagem via WhatsApp, de pessoas que se dizem "a favor da Família", com o seguinte teor:

*NA ESCOLA* NÃO se aprende sobre:
1 - Sexo
2 - Ideologia de Gênero
3 - Ativismo LGBT
4 - Comunismo
5 - Esquerdismo
6 - Islamismo

Veja o que acho da mensagem, a qual considero de uma vulgaridade e imbecilidade sem tamanho.

Quanto ao que a escola deve ou não deve ensinar, é uma decisão do corpo docente, amparado por sua formação intelectual, acadêmica e por procedimentos colegiados que respeitem preceitos legais, laicos e científicos.

Por exemplo:

1) Por qual motivo um de professor de História não poderia ensinar sobre a factualidade da Revolução Russa, que instituiu o socialismo naquele país euro-asiático em 1917, ou sobre o pensamento de Karl Marx, tanto quanto de Adam Smith, opostos entre si?

2) Por qual motivo o professor de Ciências não poderia falar sobre sexo, sexualidade, reprodução humana e educação sexual?

3) Por qual motivo um professor de Educação Religiosa não poderia abordar a filosofia, os valores e o conjunto de crenças do Islamismo?

4) Por que um projeto pedagógico não poderia remeter, via debate democrático, às pautas LGBT+, uma vez que a presença e emancipação de alunos LGBTs no meio escolar cada vez se fazem notar mais?

Enfim, tenho receio dessa onda de "receitas" por WhatsApp. Elas tendem a querer ditar "o que pode" e "o que não pode", condensando-se numa nova maneira de autoritarismo, sutil, mas tão nefasta quanto os antigos "Index Proibitorum" medievais.

A escola é o lugar da experiência, do tocar no intocável, o espaço privilegiado daquilo que justamente faz a roda da civilização humana rodar e progredir.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Será que tem violência que é boa?

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), órgão máximo da Igreja Católica no Brasil, divulgou um manifesto onde afirma que: “É pecado grave usar o nome de Deus ou qualquer religião para praticar ou justificar a violência”.

Daí, um grupo de católicos tradicionalistas, extremistas mesmo, que apoia a intervenção militar de Temer contra os pobres e negros das favelas do Rio de Janeiro, desafiou os bispos e lançou uma carta na qual concluem mais ou menos assim: "Lembramos novamente: existem tipos de violência que não são ruins, mas que, pelo contrário, são muito necessários e que são nossa obrigação!"

Segundo essa gente, os bispos estariam apoiando o "discurso do PT". É isso mesmo! A onda agora é assim: se tem uma coisa ou ideia com a qual você não concorda, grite bem alto que a pessoa que está propondo tal coisa/ideia é petista, comunista ou sei lá o que "ista", que pega.

Pergunto a esses católicos, "mais católicos" do que os bispos:
* Quais tipos de violências não são ruins?
* Pregar um homem inocente ou culpado numa cruz, pode?
* Queimar mulheres vivas em fogueiras, depois de torturá-las e seviciá-las, acusando-as de serem comparsas do diabo, pode?
* Matar milhões de índios ou negros porque algum clérigo disse que eles não tinham alma, pode?
* Molestar crianças e adolescentes em seminários ou conventos, para onde os pais os haviam enviado pensando que estavam sob a proteção de homens ou mulheres de Deus, pode?

O Papa Francisco está enfrentando uma barra para representar Jesus, tendo como "recursos humanos" tais figuras obtusas. Mas estamos firmes com Francisco, que tem muitos sacerdotes, religiosas e leigos comprometidos com o bem comum ao seu lado, rumo a Jesus, que é muito melhor do que essa patuleia.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Paraíso do Tuiuti foi a campeã do povo!

Escrito em 12 de fevereiro de 2018 (Segunda de Carnaval).

A Escola de Samba Paraíso do Tuiuti levou à Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, um desfile relembrando os 130 anos do fim da escravidão negra no Brasil, questionando se a escravidão realmente acabou. Destaque para as alegorias que representaram os manifestantes idiotas que pediram o impeachment de Dilma (os patos da Fiesp com camisas amarelas da CBF, servindo de fantoches da elite financeira), um vampiro presidente e a maldita reforma trabalhista de Temer, que matou a CLT de Getúlio Vargas. Enfim, a escola mostrou o Golpe de 2016 na avenida.

Escrito em 14 de fevereiro de 2018 (Quarta de Cinzas).

Por um décimo de ponto venceu o carnaval do Rio de Janeiro a escola de samba (Beija-Flor) que levou à avenida a velha narrativa de que o maior problema do Brasil é a corrupção. Quem pensa com a cabeça da mídia concorda. Narração que joga o povo contra a política e a entrega nas mãos dos corruptores do mercado, representados pelos “salvadores da Pátria”.

No entanto, surpreendente mesmo é ficar em segundo a agremiação que trouxe à pauta o que 9 entre 10 pesquisadores de ciências sociais consideram o efetivo motivo de nosso subdesenvolvimento: a exploração brutal da maioria de trabalhadores por uma minoria perdulária, antipatriótica e ligada a interesses estrangeiros.

E ela fez isso sem passar ao largo do assunto corrupção, retratada em suas alas de patos marionetes. Os patos amarelos, como se sabe, foram instigados pelos verdadeiros corruptores contra as políticas públicas que reduziram desigualdades.

Naqueles idos de 2016, eles iam com a camisa da honestíssima CBF às ruas bater panelas e gritar contra a pequena ascensão dos pobres ao mercado de trabalho e de consumo. Ao final, representavam mesmo era o nosso perverso e desigual modelo civilizatório - e não a moralidade e o bem público.

E a Tuiuti revelou isso na tela da maior emissora golpista, desnudando a cara de quem com as mãos conduzia os fantoches. O silêncio dos apresentadores da Globo foi ensurdecedor.

Segundo essa escola, que levou à Sapucaí as mais modernas interpretações sociológicas, o grande mal do Brasil é que, da escravidão à Lava-jato, a casa grande ainda não deixou de fustigar a senzala, haja vista a Reforma Trabalhista, que matou a CLT e retira direitos de quem mais trabalha, e a partidarização da Justiça, inerte para os direitistas e carrasca contra líderes e partidos ligados ao campo popular.

Para mim, o segundo lugar da Paraíso do Tuiuti, a furar o bloqueio da narrativa global da "corrupção moral" e a escancarar o "ranço escravocrata" dos "manifestoches" pátrios e dos "vampirões neoliberais", faz dela a GRANDE CAMPEÃ de 2018.

Sua mensagem: "Não sou escravo de nenhum senhor".

#TuiutiCampeã.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Come sardinha e arrota caviar

Daí o pseudo-capitalista decadente brasileiro – mais para um proletário metido a burguês, que come sardinha e arrota caviar – se acha o máximo da inteligência humana quando posta nas redes sociais que nos Estados Unidos não existe direito a férias remuneradas e que os pedreiros de lá compram Honda Civic.

Provavelmente, pensa, que se tal regra vigorasse aqui em Banânia (pseudônimo do Brasil depois do golpe de 2016, dado por ninguém menos que Reinaldo Azevedo, o ex-colunista da hidrófoba Veja) seríamos a quintessência do desenvolvimento mundial.

Mal sabe ele que cidadãos americanos que experimentam viver em países onde as férias duram 30 dias e são remuneradas (Suécia, Austrália, Alemanha, etc.) nem pensam em voltar ao país de origem.

Outra, nas terras do Tio Sam, quem não paga um plano de saúde morre à míngua, sem SUS, nem nada, como mostra o documentário Sicko (SOS Saúde) do cineasta estadunidense Michel Moore.

Ah, e de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país mais rico da Terra tem o pior índice de pobreza entre as nações mais desenvolvidas do planeta: 14,5% da população viviam na miséria absoluta em 2016, apesar de morarem no país que consome sozinho quase um terço de todos os recursos materiais produzidos no mundo.

P.S.: Os deputados americanos, que impedem projetos para que o país tenha direitos trabalhistas, têm direito a um mês inteiro de férias remuneradas. São parecidos com os congêneres brasileiros do Parlamento e do Judiciário.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Artigo: A fé e a vida

* Levon Nascimento

Quando comecei a participar ativamente da Igreja, nas pastorais sociais católicas, durante a juventude, uma das coisas que eu tinha como objetivo era que aquilo deveria me tornar uma pessoa melhor. Leia-se: menos egoísta, menos preconceituoso, mais honesto, mais solidário, mais compreensivo com o outro, engajado nas lutas sociais por um mundo justo, etc.

Já se passou um bom tempo de lá para cá. Evidentemente que não me tornei perfeito. Muito pelo contrário. Mas eu continuo acreditando nisso e buscando. A fé me conduziu ao universo da militância política, conforme aprendi nas CEBs: "unir fé e vida".

E é justamente aí que esbarra a minha inconformidade, porque vejo muita gente religiosa bradando "Deus" e regras bíblicas, entoando louvores e orações "acaloradas", mas na vida real sem apresentar qualquer vontade ou disposição para a justiça, à aceitação da diferença ou à prática solidária, no máximo um velho assistencialismo piegas.

Escandaliza-me, gente que se entrega à mesquinharia, aos preconceitos, ao racismo, à intolerância, à acumulação corrupta, aos privilégios e que se soma ao ideário político fascista (pós-verdade, fake news, cultura do ódio), enquanto diz ser a favor da moral, da família e de Jesus.

Sinceramente, nunca foi desse tipo de religião que eu quis me aproximar. Nem quero.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Bravismundo

Bravismundo critica todos os políticos, xinga, fala mal, diz que é contra a corrupção, que vai votar em branco, nulo ou que vai rasgar o título, etc.

Também é a favor da liberação das armas, mesmo com os especialistas falando que cidadão comum armado tem muito mais chances de morrer durante um assalto do que aquele que esteja desarmado. Isso deve ser conversa "dos direitos humanos", resmunga Bravismundo, enquanto pensa em votar naquele candidato que disse que vai liberar rifle para todos, isso se não rasgar o título antes.

Porém, na hora em que um deputado golpista chega à cidade, daqueles que salvaram Temer duas vezes da investigação; ou que aprovaram a saída de Dilma, mesmo sem crime de responsabilidade por parte dela; ou que votaram a favor da reforma trabalhista que retira os direitos conquistados desde a época de Getúlio Vargas; ou que aprovaram o limite de gastos com saúde, educação e seguridade social no fim de 2016, aí Bravismundo faz festa, fala manso e ainda chama de doutor.


No fundo, no fundo, Bravismundo sente uma pontinha de inferioridade diante do "doutor deputado". Aí ele desconta a frustração em cima daquele pessoal que consegue enxergar a realidade, criticar e lutar por direitos.

Bravismundo não consegue entender essa gente de sindicato, de partido de esquerda, de movimento social. Deve ser tudo cambada de ladrão, comunista, cubano, venezuelano, igual aos políticos lá de Brasília. Menos o doutor deputado que apertou a mão de Bravismundo, claro!

Bravismundo é fã do juiz da Lava-jato. Para ele, o juiz vai botar essa bandidagem toda na cadeia. Afinal, no Brasil a lei é para todos e os juízes são pessoas inteligentes que não tem lado político. Na verdade, podia até decretar pena de morte, ele pensa e diz.

Bravismundo não vê problema no fato desse juiz ganhar acima do teto constitucional e ainda levar um por fora através do imoral auxílio-moradia de quase R$ 5 mil para os magistrados. Afinal, o juiz está limpando o Brasil. Bravismundo é contra esse tal de Bolsa Família, que sustenta vagabundo com R$ 85,00 por mês, inventado por aquele Lula. Por que não ensina os pobres a pescar ao invés de dar o peixe?

Bravismundo também concorda com aqueles rapazes que trabalham na prefeitura desde que o tataravô deles chegou nas caravelas de Cabral. Os rapazes falam para Bravismundo que tem de privatizar, que o Estado deve ser mínimo e que empresa privada funciona melhor do que estatal. Bravismundo acha certo, afinal são moços estudados que estão falando. Tão estudados que trabalham na prefeitura, na câmara de vereadores e de assessores dos políticos, sem nunca terem enfrentado emprego numa empresa particular.

Outro dia, Bravismundo foi pegar um remédio na secretaria de saúde e não tinha o medicamento. Bravismundo fez um arraso no Facebook por causa disso. Deve ser culpa da crise que a Dilma criou. Bravismundo nem se lembrou que Dilma saiu da presidência já tem quase dois anos. Cravou: "É culpa do PT". Teve que comprar na farmácia particular, porque empresa privada é melhor do que pública e o Estado tem que ser mínimo, sem privilégios, nem medicamentos.

Bravismundo também quer gravar um vídeo falando do "Brasil que ele quer para o futuro" e enviar para aparecer na Globo. Mesmo com a Globo passando aquela novela que ele chama de imoral, mas que não perde um dia sequer. Só no domingo, porque não tem, aí ele vê o Sílvio Santos entrevistando o Temer e apoiando a ideia de que os brasileiros tem de ser aposentar só aos 65 anos de idade. Mas só os brasileiros que não são militares, juízes, promotores e deputados. "Tá certo", pensa Bravismundo, senão a previdência social vai quebrar. Detalhe: Bravismundo tem 43 anos de idade, trabalha desde os 15, não é militar, juiz, promotor e nem deputado.

Conheço vários eleitores Bravismundos. Eles são pobres e trabalhadores, mas não entendem que "a história da humanidade é a história da luta de classes".

Os golpistas, inclusive os de toga (juízes), estão mandando e desmandando no país por culpa de Bravismundo, que late muito nas redes, mas é adestrado na vida real.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Artigo: Quando estivermos mortos, vocês entenderão do que falamos?

É obvio que é uma perseguição política.

Todos os corruptos dos partidos de direita, com fartura de provas contra eles (malas de dinheiro, aeronaves carregadas com drogas, áudios, etc.), estão livres e usufruindo da riqueza que roubaram. E mandando no país. Os banqueiros lucram como nunca. Os empresários corruptores que delataram sem provas, têm as penas diminuídas e não precisam devolver o que roubaram. A "justiça" manda reestabelecer o helicóptero da cocaína ao dono, que nunca foi incomodado pela polícia. Está na cara que é uma nova ditadura, dessa vez uma DITADURA DO JUDICIÁRIO.

Em qual democracia os partidos, as lideranças e as pessoas que pensam diferente são tão perseguidas, processadas e presas por conta de acusações judiciais farjutas, contra as quais juristas do mundo inteiro apontam falhas homéricas? A maior delas, a falta de provas contra os acusados. Pior, com base em delações conseguidas de pessoas presas sob a promessa de premiá-las com a diminuição da pena ou de não incomodar seus familiares. Tortura moderna.

A ordem da direita não é só para prender o líder político mais popular do país, Lula, e impedi-lo de disputar, ganhar a presidência da República e interromper o roteiro escravocrata do golpe de 2016. É para acabar com os partidos políticos que representam algum risco ao projeto neoliberal (privatização, reformas da previdência e trabalhista, diminuição absoluta dos investimentos sociais para os pobres, venda do patrimônio nacional a estrangeiros, etc.) e, se possível, ELIMINAR FISICAMENTE as pessoas que têm pensamento crítico.

A quantidade de lideranças de movimentos sociais assassinadas depois do golpe só fez aumentar e comprova a tese da guerra total. As "fake news" (notícias falsas) na internet, contra qualquer movimento por direitos dos pobres, são avassaladoras. A última vítima foi o 14º Encontro Intereclesial de CEBs ocorrido em Londrina/PR.

O uso da religião e da Bíblia para demonizar o pensamento de esquerda é de uma sordidez que custará muito caro ao país. Uma Pátria dominada pelo fanatismo religioso, manipulado para fins políticos dos ricos, tem como espelho de futuro aquilo que acontece em nações como o Afeganistão. É o tempo mais terrível e crítico que já percebi neste país em toda a minha vida.

Mas, a maioria, como sempre, está anestesiada ou bestializada por quem defende a morte, as armas e a exaltação de todos os preconceitos mais terríveis da barbárie humana. Quando estivermos desaparecidos ou mortos, como em outras ditaduras do passado, parentes, amigos, colegas de profissão e irmãos de igreja serão capazes de enxergar?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Justiça partidária é justiça?

Que Lula será condenado pela justiça partidária, não há dúvida.

Pela mesma justiça que mantém Aécio, Serra, Alckmin, Azeredo, Temer, Globo, compradores de votos em eleições municipais e bandidos de colarinho branco impunes; que vive de super-salários e auxílios-moradias imorais; que condenou Olga Benario, João Cândido, Antônio Conselheiro, Frei Caneca, Tiradentes, Zumbi de Palmares e negros fugidos da escravidão por lutarem por uma vida mais justa; que permitiu o impeachment de uma mulher honesta sem crime de responsabilidade.

Nunca foi contra a corrupção que essa justiça agiu ou age. Ela é de classe, mantenedora das desigualdades, carrasca de pobres e pretos, parcial, elitista e lesa-pátria.

Por hora, só posso afirmar que quem é condenado por ela vira herói. E, o lugar do legado de seus julgadores, a lata de lixo da História.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Pena de morte e religião cristã

* Levon Nascimento

A julgar pelos números da última pesquisa Datafolha (08/01/2018) e forçando uma interpretação "sui generis", 63% dos católicos brasileiros seriam favoráveis à condenação de Jesus à morte na cruz por parte dos poderes públicos do período em que ele viveu, seguidos com o apoio de 50% dos evangélicos para o mesmo fim. Já entre os ateus, mais de 50% seriam contrários.

Observações:

1) Tempos estranhos: a maioria daqueles que seguem o livro que tem como um dos mandamentos "Não matarás" (Êxodo 20,13), defendendo a violência e desejando assassinar através das mãos do Estado.

2) Ateus "mais temerosos a Deus" do que "cristãos"!?

3) Onde ficam os ensinamentos de CRISTO sobre "amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (João 15,12) ou "perdoai até setenta vezes sete" (Mateus 18,32) para os que se declaram CRISTÃOS?

Enfim, especialistas em ciências sociais afirmam que em momentos de crise, como o de agora, o desejo por violência e sangue costuma aflorar nas sociedades. As pessoas, especialmente as mais pobres, sentem na pele a violência econômica, do Estado e da marginalidade em suas vidas, com maior intensidade do que as classes ricas. O perigo é que espertalhões da política se apropriem desse sentimento e aproveitem para implantar o terror, como fez Hitler na Alemanha dos anos 1930, o que só viria a agravar ainda mais a situação violenta. Inclusive, já temos um candidato a Hitler no Brasil. Fiquemos mais espertos e prudentes do que as serpentes (Mateus 10,16).

Para fechar, veja o que Jesus disse diretamente às pessoas que se julgavam muito religiosas na época em que ele viveu na Terra: "Em verdade vos digo: os publicanos [cobradores de impostos] e as meretrizes [prostitutas] vos precedem [entram primeiro] no Reino de Deus!" (Mateus 21,31b).

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O casarão da Fazenda Alegria em Cordeiros

* Levon Nascimento

O município de Cordeiros, situado no sudoeste baiano, perto da divisa com Minas Gerais, tem um tesouro patrimonial histórico belíssimo. Trata-se da antiga sede da Fazenda Alegria.

As terras foram repartidas entre camponeses do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), os quais se organizaram no assentamento Maria Zilda.

No entanto, o velho casarão, muito provavelmente construído no século XIX, permanece a sussurrar na paisagem os dias de fausto da antiga aristocracia.

Residência de José Moreira Cordeiro e, posteriormente, de sua filha Mercedes com o esposo, o caixeiro-viajante, médico-prático e prefeito de Condeúba Joaquim Mutti de Carvalho (Cordeiros fazia parte de Condeúba), o casarão é testemunha viva do passado, além de fiel depositário das memórias de uma miríade de trabalhadores agregados, um sem par de histórias maravilhosas a serem descobertas e recontadas às gerações do presente e do futuro.

Mas está com os dias contados, tragado pelo tempo e devorado pelo esquecimento.

Mas não basta só a crítica. É preciso apontar caminhos. Que tal uma significativa união da associação dos trabalhadores assentados nas terras da antiga fazenda com os representantes do poder público local, estadual, nacional e demais interessados em preservar o patrimônio? Para planejar e executar um plano de recuperação, preservação e uso coletivo daquele espaço.

Se for bem cuidado, a velha sede da Alegria pode, inclusive, atrair visitantes, gerar algum tipo de renda e contribuir com a economia do município. O que não pode, em minha opinião, é deixar morrer aquilo que custou o suor e o sonho de tantos ancestrais.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

2017, por Levon Nascimento

* Levon Nascimento

As crianças de Janaúba, rostinhos tão nossos, gente inocente, vítimas da tragédia humana.

Os jovens de Taiobeiras, marcados e exterminados, vítimas da escravidão entorpecente e da ausência de amor nas políticas de Estado e na sociedade.

No Brasil, a cada dia sete mulheres são mortas por ex ou atuais companheiros por serem consideradas propriedades deles: feminicídio. Inclusive em Santo Antônio do Retiro.

Os direitos trabalhistas dos brasileiros foram vitimados no altar do Congresso Nacional. Sacrificados ao deus-mercado. Saciaram de sangue os gananciosos. Dificultou-se a Justiça. Puniu-se o pequeno.

Condena-se sem provas. Perseguição aos que lutam por um mundo melhor. Indulto aos criminosos lesa-pátria.

Todos esses escândalos clamam aos céus. Nosso passivo é exorbitante.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Quando descobri o Natal: Papai Noel e Jesus

* Levon Nascimento(Texto originalmente publicado em 25 de dezembro de 2009. Reformulado e reescrito em partes nesta data)

Em tempos de Natal, resolvi buscar no baú da memória as referências que tenho sobre as personagens/personalidades que fazem parte dessa festa.

Pelo que me lembro, a primeira vez em que ouvi falar e vi o Papai Noel foi no Natal de 1980.

Nós morávamos em Taiobeiras/MG, tinha um ano, mas meu Pai levou a família para passar o Natal em Cordeiros/BA. Estávamos na casa de Tia Ana, que ficava em frente à Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus da Boa Vida (a igreja velha que foi demolida nos anos 1990 para dar lugar à construção da nova).

Era início da noite. Passou uma caminhonete C10 com um homem vestido de vermelho e com uma barba branca, feita de algodão. Atrás, vinha uma meninada sem fim. Meu irmão, meus primos e eu fomos atrás. Ele jogava balas para todos. Não me lembro se conseguimos apanhar alguma no meio daquele corre-corre, empurra-empurra.

Sei que o destino final do homem fantasiado de "bom velhinho" foi um coreto acoplado aos fundos da igreja. Quem já viu o filme "O Auto da Compadecida" sabe como é o coreto do qual estou falando. Lá continuou a jogar mais balas para a criançada. Não sei se levava presentes para alguém. Naquele tempo eu não me preocupava com isto. Senti uma enorme alegria por estar ali. 

Só depois fui entender que se tratava do Natal. Natal - que significa nascimento. Nascimento de quem? Mas essa pergunta eu só fiz muito tempo após.

E quando a fiz, sobre quem nascera no Natal, é que fiquei sabendo de que se tratava de um certo menino, Jesus, que embora nascera cerca de 2000 anos antes, nessa época do ano continuava menino, no presépio, acompanhado do pai e da mãe.

O primeiro Presépio que vi, aliás, foi em minha casa, creio que naquele mesmo ano do Papai Noel, ou no ano anterior. Não sei ao certo. Eu ainda não ligava uma coisa com a outra. Chamou-me a atenção o colorido das coisas e as diversas imagens que lá foram colocadas. Não somente José, Maria e o Menino Jesus, mas também todos os santos do lar realizaram um tour pela gruta de Belém erguida por minha mãe.

Ai me veio o questionamento, quando foi a primeira vez que eu vi Jesus? E ruminando nas lembranças, percebi que foi em situação bem menos auspiciosa do que naquela em que me encontrei com o Velho Noel.

De novo, foi em Cordeiros. Acho que em 1979. Ainda não havíamos mudado para Taiobeiras, o que só ocorreria em setembro daquele ano.

Era uma sexta-feira santa, também à noite. Mais novo ainda, eu me via caminhando entre uma multidão (procissão). Em outros momentos alguém me carregava nos ombros. Mas eu já era bem grandinho e de novo voltava ao chão.

Num desses instantes vi que uma mulher vestida com uma longa roupa escura, a cabeça coberta por um véu, subiu num banquinho e começou a cantar uma canção triste. Enquanto isso, desenrolava um pano que, ao final, continha um rosto todo marcado e sofrido. Perguntei de quem era o retrato. Disseram-me: "É Nossinhô, que morreu para nos salvar".

Mais tarde é que correlacionei que "Nossinhô" e Jesus eram a mesma pessoa.

E mais, a fé diz que ele morreu, ressuscitou, venceu a morte e continua vivo. Menino, Homem e Ressuscitado!

Dos dois encontros da primeira infância, com o "Bom Velhinho" das balas e com o Jesus de Verônica, só tempos adiante pude tirar as conclusões: o primeiro é o doce desejo de consumir e o segundo, a necessidade de amar e partilhar sem limites.

Feliz Natal para você.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Taiobeiras 64 anos

Há exatos quatro anos, em 12 de dezembro de 2013, conclui o livro "Sexagenarius: reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras". Era a comemoração do sexagésimo aniversário da emancipação política e administrativa.

Fiz como esforço para contribuir no entendimento histórico da trajetória taiobeirense, mesmo sabendo que ainda há pouca ou nenhuma massa crítica para o debate acerca de quem somos e do futuro que desejamos trilhar.

No máximo, uma parabenização, de quem gosta mim, ou uma cara feia, de quem nem leu o texto (rsrs). De qualquer forma, nem uma coisa nem a outra eram o objetivo do trabalho, que continua a ser a reflexão crítica, para a qual é o livro apenas um pequeno instrumento despretensioso.

De lá para cá, perdi a paixão política pela cidade, um sinal de maturidade. As coisas nela fluem lentamente, às vezes regredindo, às vezes avançando, mas não deixo de lado o compromisso cidadão e histórico com a edificação da sociedade humana, inclusiva, de desigualdades diminuídas e de preconceitos enfrentados, seja em Taiobeiras ou noutros lugares.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Não se deve discutir religião e política?

Abraçar uma luta política, quer num partido ou noutro tipo de organização social, é escolha livre, eticamente direcionada e ideologicamente fundamentada. Isto é para pessoas corajosas e transformadoras, o que não as livra, e às suas organizações e escolhas, de equívocos e contradições.

Um partido político, um movimento social ou uma ONG são formados por gente. Humanos que pensam, divergem, erram, acertam, caem e se levantam.

Diferentemente da religião, que exige uma crença em dogmas (verdades absolutas), onde fé é lei e a dúvida é pecado, a política é o espaço do questionamento, da crítica e da contradição civilizada (ou não).

Ainda assim, a religião se organiza no íntimo dos indivíduos, mas se estrutura também em entidades coletivas: as comunidades conhecidas como igrejas, os grupos em torno das sinagogas, das mesquitas, dos terreiros, das casas espíritas, etc.

Assim como na política, igrejas são grupos de pessoas que discordam ou convergem. O problema é que, na maioria das vezes, há um espírito autoritário na religião que vê essas características tão naturais da inteligência humana como coisas negativas e as tenta esconder sob o véu da infalibilidade da fé e como desobediência à vontade de Deus.

No fundo, as organizações religiosas são extremamente políticas e, na maioria das vezes, adeptas das piores formas de se fazer política, a do autoritarismo, da repressão e do ódio. Mas há também os religiosos e as religiões que trabalham pelo bem comum, partilha, fraternidade e justiça.

É incrível como o cristianismo de Jesus se encaixa no viés da libertação humana, da misericórdia e da compaixão, ao mesmo tempo que a história da cristandade ocidental caminha pelo lado oposto, apenas a título de exemplo. E não é exclusividade dos cristãos essa aparente contradição.

Discordo de quem separa o mundo entre uma suposta religião que impera como vontade exclusiva de Deus e a política como o reino do diabo. Quem faz isso, é mais político do que pensa, mais diabólico do que divino, no sentido de que diabo significa dividir. Geralmente serve de fantoche aos que praticam política ruim. Pior, vive uma fé que não esclarece. Ao contrário, emburrece.

Política e religião são universos distintos, mas mentes inteligentes operam e transitam por ambas e em várias outras multiplicidades de vivências possíveis aos seres humanos sem se tornarem fanáticas, sectárias ou alienadas.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O santo e o fariseu

Eu vejo Francisco como um papa que tenta trazer as pessoas para perto do amor de Jesus Cristo: divorciados, gays, imigrantes, pobres, mulheres, muçulmanos, orientais, etc, sem a necessidade de mutilá-los em sua cultura com nossos dogmas milenares; ao mesmo tempo em que denuncia a sociedade de consumo que desumaniza as pessoas e descaracteriza a criação divina, nossa casa comum.
Estranho mesmo é gente que se diz de Igreja (quaisquer igrejas) pregando o ódio, falando mais no diabo do que em Deus, mergulhando no irracionalismo tipo "shalarilarabá", adorando o vil metal como se fosse bênção e afastando todos aqueles a quem Francisco tenta abraçar.
Essa é a diferença entre um santo e um fariseu aos nossos olhos.

domingo, 26 de novembro de 2017

O Senhor é Rei!

Hoje é a solenidade de Cristo, Rei do Universo, último domingo do calendário litúrgico (2017) católico.

Jesus é rei porque se põe a serviço dos outros, cura em dia de sábado, mesmo aos não-judeus, dá de comer aos famintos, tem compaixão dos órfãos e das viúvas, expulsa os vendilhões do templo, transforma água em vinho para alegria dos festejantes, salva a mulher do apedrejamento patriarcal, deixa fariseus e outras autoridades em saia justa com sua sabedoria, incomoda os instalados no poder em sua época e se entrega individualmente para salvar coletivamente.

Já os "reis" da Terra reinam com mordomias descabidas, lucros exorbitantes, riqueza concentrada à custa da pobreza institucionalizada, manipulação do Estado para interesses privados, jantares suntuosos a quem deveria legislar pelo bem comum em troca da destruição dos direitos dos pobres e dos trabalhadores, instrumentalização da justiça para absolver os aliados da iniquidade e condenar os inimigos do status quo, e deboche perseguidor aos que lutam por um mundo mais fraterno.


A diferença entre a realeza de Cristo e a glória passageira dos homens poderosos está na humanidade de Jesus e no egoismo de quem só tem poder porque dá golpes.


"Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos" (Marcos 9,35).

Àquele que era, que é e que vem, honra e glória. Vem, Senhor Jesus!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Dias difíceis na profissão

Alunos são filhos dos outros que passam mais tempo com a gente do que nossos próprios filhos.
Embora estejamos ali para lhes mediar o acesso ao conhecimento acumulado da humanidade na forma do currículo escolhido pela escola, acabamos por nos envolver, nos revelar e conhecer a personalidade de cada um.
Nesse emaranhado que é o processo educativo, tomamos contato com suas vidas, suas dores e suas tragédias. E, como pais e mães que não deveríamos ser, compreendemos e somos compreendidos, incompreendemos e sofremos incompreensão.
E não estamos num mundo à parte. A crueldade caminha com nossos alunos, sobretudo com os que vêm de condições vulneráveis.
O que fazer quando aqueles que temos em sala se embriagam figurativa ou literalmente, viciam-se nas muletas ilícitas, entram para o mundo da criminalidade e sofrem de ausência de projeto de vida? Nós vivenciamos juntos. Às vezes, assimilamos a descrença, a raiva, a desesperança, também.
Há dias que são difíceis demais para quem "professa" fé na humanidade, professores...