sábado, 20 de maio de 2017

Artigo: Será que não tem ninguém honesto?

Por Levon Nascimento

Chamam-me ingênuo, outras vezes de fanático e partidário. Partidário não tem problema. Todo mundo é, ainda que não perceba ou admita. E não tem nada de mal nisso. Porém, a bem da verdade - que é relativa -, tento me guiar pelos métodos das ciências sociais, minha área de formação, buscando quando possível me afastar do senso comum e realizar um raciocínio minimamente lógico.

Santo é Deus e os que seguiram o exemplo de Cristo, conforme a doutrina cristã predominante no Brasil. Cá na Terra somos apenas humanos, sujeitos a erros, contradições e falhas. E estamos sujeitos à história, à qual construímos em nossa existência física e material. Não adianta esperar santidade de políticos, juízes, promotores, policiais, professores, empresários, mães, pais e filhos... etc. São sujeitos históricos.

Políticos de quaisquer partidos representam interesses. Efetivamente o que existe é a luta de classes, conforme nos advertiu o filósofo Karl Marx. Uns representam a classe dominante, geralmente comprados por ela com propinas – a maioria dos políticos. Outros representam a classe trabalhadora, a minoria. As recentes gravações divulgadas revelam isto: megaempresário comprando juízes, procuradores, deputados, presidente da República...

Não é uma luta entre o bem e o mal. Daí a ineficiência do discurso dual "honestidade X corrupção", “gente de bem” X “bandidos”. A realidade é muito mais complexa do que isto. Quando a Globo denuncia seus amigos Temer e Aécio, não está do lado da classe trabalhadora, embora pareça estar do lado da moralidade. Quando algum partido de esquerda chafurda na lama das propinas, corrompendo-se, não significa que tenha deixado o lado da classe trabalhadora. Mas é difícil ao cidadão médio, que não acompanha a política, compreender essas nuances. E, de fato, injuria a qualquer um de nós que labutamos muito para sobreviver dignamente. Mas tente não parar na preguiça dos chavões. Eles também são construídos por quem tem interesses políticos, geralmente não iguais aos seus.

Diferentemente da narrativa da grande mídia, o problema do país não são apenas os "políticos corruptos". Interessa a uma determinada classe que você pense assim. Lembre-se, não há isenção de ninguém, nem mesmo sua. Você age motivado por interesses, ideologias, etc., ainda que não perceba.

Por trás dos políticos corruptos há uma imensa rede de empresários corruptores. Sim, os megaempresários não são vítimas. São os que pagam propinas para poderem se valer do Estado (que deveria ser de todos) a fim de lucrar (e muito) em seus respectivos negócios. Em outras palavras: a corrupção, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é parte integrante do sistema capitalista. Um não existe sem a outra. Não há capitalismo sem corrupção.

O político corrupto é como o guarda que aceita suborno. O empresário corruptor é como o motorista que oferece dinheiro ao guarda. Ambos são o problema. Mas, lembre-se, “toda generalização é burra” e empobrece a compreensão correta dos fatos. Não se trata de demonizar políticos e empresários, mas de compreender a dinâmica do sistema, este sim, corrompido e corruptor.

Não existe imparcialidade do Judiciário ou da imprensa. Os desvios e as provas dos crimes de Aécio e de Temer já eram do conhecimento da mídia e dos juízes há anos. Só usaram agora por interesses que ainda não supomos exatamente quais são.

Há uma luta de classes no ar: aprovar reformas que retiram direitos dos trabalhadores para o mercado lucrar mais. Para isto fizeram o terremoto na política, criaram a Lava-jato, tiraram do poder uma presidenta eleita e colocaram o fantoche Temer. E, como ele não está dando conta do recado, pretendem tirá-lo e eleger alguém indiretamente, para que o mesmo faça o que a classe dominante deseja: aprovar as reformas da previdência e trabalhista.

Pode parecer ingenuidade de quem escreve, mas por enquanto há provas e mais provas reveladas na mídia (gravações, etc.) contra Cunha, Aécio, Temer e outros líderes políticos a favor do mercado – embora eles nunca tenham sido incomodados pela tal Lava-jato – do que contra Lula e Dilma, que embora tímidos nas políticas de transformação social, representariam algum risco à classe dominante. Não estou dizendo que são santos, mas a bem da lógica racional, nenhuma prova real e concreta contra eles foi apresentada até o momento em que escrevo este artigo, levantando a suspeita de que a Justiça age para destruir um lado do espectro político (a esquerda) e não para limpar a "mancha da corrupção", como muitos ainda acreditam.

Muitos imaginam que penso assim por ser "um fanático petista", mas ao contrário, repito, tento pensar pela lógica da consciência de classe e tentando fazer uso da razão e dos métodos das ciências sociais.

Enfim, O discurso antipolítica, o de que "nenhum presta" ou "fora todos eles", supostamente apartidário, é fácil de fazer porque não exige raciocínio de quem abre a boca para dizê-lo. Porém, foi esse discurso que abriu espaço para o nazismo na Alemanha em 1933 e para Trump, nos EUA, em 2016. O Hitler e o Trump brasileiros estão prontinhos, à disposição, para tomarem o poder, caso você caia nessa manipulação já testada historicamente. Pense nisso. Pesquise a história.

#DiretasJá

* Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

2 de junho: lançamento Livro CRER E LUTAR

Em 2 de junho de 2017 ocorrerá o lançamento do livro CRER E LUTAR, quinto escrito e publicado pelo professor Levon Nascimento. O livro trás uma coletânea de contos e crônicas acerca dos dilemas atuais do ser humano, iluminados pela fé e pela luta das comunidades eclesiais de base brasileiras.

Levon Nascimento é professor de história, sociólogo e mestrando em políticas públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e Fundação Perseu Abramo.

O evento acontecerá na Câmara Municipal de Taiobeiras, Avenida da Libertade, 314, Centro, a partir das 19 horas.

domingo, 7 de maio de 2017

Artigo: Quintino de Rio Pardo e as reformas temerosas

Vista da cidade de Rio Pardo de Minas antigamente. Foto extraída
do site "Fotos Antigas de Rio Pardo de Minas".
* Levon Nascimento

Há 129 anos, em 13 de maio de 1888, a regente do Império do Brasil princesa Isabel, na ausência do pai o imperador dom Pedro II, em viagem ao exterior, assinou a famosa Lei Áurea, colocando fim a quase quatro séculos de escravidão no país. Fim legal, pois as formas de trabalho análogas ao escravismo continuariam a existir em solo brasileiro até os dias atuais.

Por motivos de argumentação e de curiosidade histórica, relato dois fatos pitorescos ocorridos naqueles dias no Vale do Rio Pardo (norte de Minas). Recorro à coleção de informações apresentadas nos quatro volumes da obra “Efemérides Riopardenses”, publicada em 1998 pelo cônego Padre Newton de Ângelis, da cidade de Rio Pardo de Minas.

A 11 de junho de 1888, vinte e oito dias depois da abolição, os poderes públicos da região ainda se encontravam na “árdua” tarefa de proteger o patrimônio privado e desfigurar a dignidade humana. Em Rio Pardo, o delegado de polícia mandou amarrar em frente à porta da casa do subdelegado um negro chamado Quintino, que chegara à cidade em 19 de maio (quatro dias depois da publicação da Lei Áurea), “fugindo de seu dono”, morador de São José do Gorutuba, região da futura Janaúba. O “dono”, um tal de Vitorino Nunes de Brito, à revelia das autoridades, ameaçava levar o negro de trinta e poucos anos amarrado ao rabo do cavalo de volta à sua fazenda.

Pela lei da princesa, Vitorino não era mais senhor de escravos, Quintino era um homem livre e mesmo que não fosse a legislação da época também não permitiria tal atrocidade, caso empregada corretamente pelas autoridades. Porém, pouco importava. Valia mesmo era a noção torta de propriedade, atrelada aos conceitos de autoritarismo, patrimonialismo, racismo e latifúndio, marcas da colonização e da formação do Estado brasileiro e de nossa sociedade. Em outras palavras, corrupção da lei. Característica ainda muito forte nestas terras esquecidas do Vale do Rio Pardo. Vitorino rugia enquanto Quintino sangrava.

Também em Rio Pardo, a 12 de julho de 1888 – um mês adiante –, o vereador Atanásio Silva sugeriu à Câmara Municipal rio-pardense a nomeação de uma praça com o nome de TREZE DE MAIO, em homenagem à libertação dos escravos. Segundo relatos, foi naquele espaço, alguns dias depois de 13 de maio (sem exatidão de data), que os ex-escravos “fizeram a grande festa da liberdade (...) e batucaram (...) até o alvorecer do dia seguinte”. Não sei se a praça ainda existe com o mesmo nome naquela cidade.

A verdade é que no episódio de Quintino, as autoridades já sabiam do fim legal da escravidão. A festa da liberdade na praça comprova isso. Por que não interviram no assanhamento do ex-dono que queria levar o jovem ex-escravo de volta à senzala? Pior, por que elas próprias algemaram um homem livre e inocente à porta do subdelegado?

Talvez a resposta esteja na cultura da violência autoritária e na desumanização do outro, sempre presentes na história brasileira, sobretudo quando se trata do negro, dos indígenas, do desvalido (vide o caso da guarda municipal de São Paulo, seguindo ordens do prefeito, tomando colchões e cobertores de moradores de rua em pleno frio paulistano), da mulher, do submisso, do indefeso, enfim, do pobre. Só é gente para as autoridades encasteladas no Estado brasileiro aqueles que se apresentam como proprietários. A condição humana apenas, não basta.

Quintino, “o negro forro” que fugiu dos maus-tratos, mesmo tendo a lei a seu favor, não tinha a proteção do Estado de Direito que lhe garantisse a liberdade e o respeito frente a um senhor ilegítimo e cruel. Ele representa, com altas cores de atualidade, os brasileiros trabalhadores de 2017. Cidadãos que a despeito das garantias da avançada Constituição de 1988 estão à mercê da gangue temerária que se apossou da República com o golpe de 2016.

O Estado brasileiro sempre esteve comprometido com a manutenção do status quo da elite perdulária, perpassado por um ou outro período em que esse predomínio plutocrático se fez menor ou ameaçado. O getulismo, o janguismo e o lulismo se constituíram nesses curtos momentos, mas todos igualmente golpeados e fulminados pelos “verdadeiros” donos do poder.

As medidas do governo Temer, tais como o teto dos gastos públicos para a seguridade social, a selvagem lei das terceirizações, a reforma trabalhista que mata a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) aprovada sob Getúlio Vargas, o desmanche das políticas públicas da era Lula-Dilma e a indefectível reforma da previdência, que pretende fazer com que os brasileiros morram sem se aposentar, são comparáveis – em forma e conteúdo – à desenvoltura com que Vitorino Nunes de Brito, diante do delegado de polícia, afrontava a lei vigente ameaçando de morte alguém que não lhe pertencia mais, mas que estava atado a um tronco por quem lhe deveria dar segurança. Nossa pergunta: onde estão as instituições, como o STF, que nos deveriam proteger da sanha dos golpistas de hoje?

Se o povo brasileiro não desafiar a conjuntura e se reunir na praça, como aqueles negros de Rio Pardo de Minas nos dias que se seguiram à Lei Áurea e, com força, celebrar a liberdade com batuques, palavras de ordem e enfrentamentos de luta, até o alvorecer de uma República mais justa, as reformas dos senhores de escravos de hoje passarão e reduzirão os trabalhadores à condição de indivíduos prostrados, como Quintino, prontos para serem arrastados pelo humilhante rabo do cavalo da história.

Às ruas. Às praças. Para Brasília.

* Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Taiobeiras: Escola Tancredo realiza projeto sobre Direitos Humanos

A Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, da cidade de Taiobeiras, no norte de Minas, realizou nesta quarta 3 de maio a quarta edição da Gincana de História.

Neste ano, os organizadores escolheram o tema dos Direitos Humanos. Segundo eles, os direitos básicos estão sob risco no Brasil e no mundo. “O contexto global e brasileiro de 2017, marcado pelo avanço de ideias e de práticas neofascistas, racistas, xenófobas, machistas, misóginas e homofóbicas, bem como a ameaça da retirada de direitos historicamente conquistados pelas classes trabalhadoras e oprimidas ao longo do século XX, suscita a consciência histórica a se posicionar”, afirma o texto de justificativa do projeto da IV Gincana de História.
Dentre as atividades anteriores à culminância, as equipes produziram quadros através da arte do grafite retratando os principais artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento proclamado pelas Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 como resposta aos horrores perpetrados durante a Segunda Guerra (1939-1945).

Os estudantes também puderam conhecer, interpretar e observar melhor a biografia de personagens internacionais e brasileiros cujas trajetórias de vida se moldaram na luta pelos direitos civis, ambientais e econômicos. Dentre eles, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Maria da Penha, Chico Mendes e o rapper MV Bill, ativista dos direitos dos moradores de comunidades da periferia.
Mas a prova que mais agitou as equipes foi a da coreografia interpretando músicas de protesto ou de reflexão social do cancioneiro brasileiro, passeando por vários estilos como o samba, o rap e o pop rock.

O projeto teve ainda provas de conhecimentos gerais em história e de produção de letras em defesa da paz e dos direitos fundamentais registrados no capítulo V da Constituição brasileira.
A Escola Estadual Presidente Tancredo Neves, de Taiobeiras, atende do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, funciona de manhã e pela tarde e realizou versões específicas deste projeto para cada turno escolar. No período da manhã, a equipe Saúde-Branca venceu. À tarde, em empate triplo, as equipes Educação-Preta, Alimentação-Verde e Moradia-Vermelha ganharam a gincana.
A equipe da disciplina de história da escola é composta pelos professores Adão Soares, Cristiane Brito e Levon Nascimento, cuja formação acadêmica se deu na Universidade Estadual de Montes Claros. Artistas, professores de outras escolas e ex-alunos da instituição formaram o júri.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Greve Geral de 28 de abril em Taiobeiras, norte de Minas

A Frente Brasil Popular realizou ato de manifestação contras as Reformas da Previdência e Trabalhista, dentro das atividades da Greve Geral convocada para esta sexta, 28 de abril, no centro da cidade de Taiobeiras.
Segundo os organizadores, 500 pessoas participaram do ato. Entre elas, professores e demais servidores das redes municipal e estadual de ensino, empregados dos Correios, trabalhadores rurais e diretores do STR (Sindicato dos Trabalhadores Rurais) de Taiobeiras, Movimento dos Atingidos por Barragens, membros da ONG Tascor (Taiobeiras Sem Corrupção), padres e freiras, dentre eles o pároco da cidade Padre Ivan Alckimin, e os funcionários da Arruda Alimentos, que foram liberados pelo empresário Carlito Arruda, presidente da Associação Comercial de Taiobeiras, para irem participar da manifestação.
Nas falas em carro de som, muita indignação com os principais elementos da Reforma da Previdência e com a Reforma Trabalhista. Ao final, os participantes percorreram a Avenida da Liberdade e contornaram o Mercado Municipal entoando palavras de ordem e empunhando faixas e cartazes.
A Rádio Transamérica do Alto Rio Pardo deu cobertura ao evento através do programa do locutor Adelmo Oliveira.

Depois do ato, a Frente Brasil Popular se reuniu e o avaliou como satisfatório.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

História da violência em Taiobeiras

* Levon Nascimento

Às vezes, recorrer ao passado ajuda a iluminar o presente e potencializa os desejos e as ações de diálogo para a construção de um futuro diferente e melhor.

A história da violência em Taiobeiras é tão antiga quanto a própria localidade, muito antes dela ser cidade. Recorro ao clássico Avay Miranda para recontar essa odisseia de dor.

A violência é cultural e estrutural. Passa pela riqueza exuberante de uns e pela pobreza tétrica da maioria ou pela hipocrisia das famílias “de bem”, cujos patriarcas mantinham “mulheres e filhos particulares” desprovidos dos direitos legais reconhecidos às matrizes e aos legítimos.

Também é violência moral, quando a exploração sexual de crianças e adolescentes, praticada por muitos, gente com ou sem poder, tornou-se a chaga aberta e a mancha envergonhada da história recente do município.

É violência contra a democracia, na medida em que a vontade do povo quase sempre é manietada pelos cabrestos desonestos da compra e da venda de votos nos pleitos eleitorais.

Na noite de 23 de setembro de 1911 o pistoleiro Hipólito, jagunço de um poderoso de Salinas, deu tiro certeiro em Martinho Rêgo, líder do povoado, a mando de Quinca Roxo, meliante que tempos antes havia sido preso por Martinho ao promover brigas na feira livre de Taiobeiras.

Em 1919, um tal Leonídio, que a história não registrou nem mesmo o sobrenome, achacava pessoas em troca de dinheiro, jurando-lhes de morte e, em alguns casos, chegando a matar mesmo. Como em filmes de faroeste, ia ao velório dos que assassinara carregando velas acesas. Teatralmente, entrava reverente na igreja em dias santos, de arma em punho, retirando as balas do “Brune” e pondo-as sobre a toalha do altar enquanto rezava. Foi assassinado por uma liga de “homens de bem” do povoado num dia de sexta-feira santa. Matou muitos. Tinha mulher e filha. O que foi feito delas ninguém sabe.

Já em 1927, como efeito colateral da “Revolução de Salinas” (Revolução ou Golpe?), quando Idalino Ribeiro depôs Juventino Nunes do comando daquela cidade sob o amparo de bandoleiros baianos por ele contratados, Maneca Primo, mercenário de Vitória da Conquista, vitorioso na terra da cachaça, retornava à Bahia. Passando por Taiobeiras com seu bando, cercou o distrito, saqueou as casas e os comércios. Fez o que quis com o povo do lugar por dias a fio. Foi detido somente quando passava por São João do Paraíso, já perto da fronteira baiana.

Em janeiro de 1981, o comerciante Tezinho Mendes foi assaltado e assassinado em sua loja de forma bárbara, tornando-se o marco de um evento de latrocínio no município.

Entre 1990 e 1991, dois feminicídios estremeceram minha vizinhança. Antonina, vizinha humilde, foi morta a punhaladas pelas costas por um marido mentalmente enfermo e atormentado por uma personalidade machista. Joventina, outra vizinha, foi barbaramente assassinada e seu corpo jogado numa cisterna.

Naquele mesmo período, um frentista supostamente acusado de roubo apareceu morto com todos os traumas de tortura. Nos mesmos dias, vários corpos foram deixados na porta do cemitério sem que ninguém soubesse, até hoje, a causa de suas mortes. E o terror se espalhou entre o povo taiobeirense.

A partir da última semana de 2007, na qual em poucos dias várias pessoas conhecidas foram assassinadas, uma onda violenta de assaltos, latrocínios e guerra entre gangues do tráfico de drogas tornou-se corriqueira, assombrosa e deletéria para a vida social, a paz popular e a imagem pública de Taiobeiras.

A morte do proprietário do Super Granja permanece envolta em mistério. Jovens morrem e matam e muitos assistem, brandindo a cínica justificativa de que são envolvidos com as drogas.

Em 2012, um casal de amigos de Montes Claros bateu à minha porta pedindo ajuda porque o filho deles havia sido preso em Taiobeiras envolvido com a criminalidade. Não negavam a culpa do rapaz. Pessoas honradas e trabalhadoras, questionavam-se sobre o que de fato havia tomado de suas mãos a vida de um ente querido e a levado para o lado sombrio da violência.

E este é o drama de muitos pais e mães. A violência se entranhou como uma maldição. Tornou-se um drama moral, social, econômico e humanitário.

No povoado de Mirandópolis, em 2014, um homem foi morto, esquartejado e o assassino ainda ateou fogo aos restos mortais. Inúmeros são os outros casos de maus-tratos, torturas e mortes assombrosamente violentas de homens, jovens, idosos do meio rural mortos por parentes em busca do dinheiro da aposentadoria e de mulheres, vítimas de machismo e misoginia. Sem contar os suicídios, frutos de doenças psicológicas ou, talvez, das incompatibilidades de uma sociedade que segrega.

Conhecer essas histórias não pode nos fazer acomodar ou tragicamente nos resignar com algo que parece ser um “determinismo biológico ou geográfico”. Tomar ciência desses fatos nos deve abrir ao diálogo, acima de nossas paixões e rivalidades momentâneas, em busca de um plano audacioso de ação.

A maldade, a crueldade, o ódio e a violência não devem vencer a batalha. Que nenhum jovem se perca! Que nenhuma vida morra! O amor, o serviço fraterno, a caridade cristã e a vontade de fazer uma Taiobeiras mais justa deve nos irmanar neste momento de dor.

* Levon Nascimento é professor de História, sociólogo pela Unimontes e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

sábado, 15 de abril de 2017

Sobre a trágica violência em Taiobeiras

* Por Levon Nascimento

Já passou da hora de todo mundo em Taiobeiras dialogar para encontrar soluções para a violência.

D - I - Á - L - O - G - O, com letras maiúsculas.

Ninguém chegando com verdades prontas. Todos se portando humildes, sabendo que falharam e que não têm respostas prontas. Oposição e Situação. Será que dá?

PROPOSTA, MAIS DO QUE CONVERSA...

Eu tenho uma proposta para o início de conversa. Lembrando que não tenho respostas para esse problema da violência, apenas vontade de fazer algo para resolver.

A ideia é reunir a classe política no poder e fora do poder, situação e oposição, as famílias das vítimas e também dos algozes (elas também são pessoas interessadas no assunto), sem preconceito para com elas, lideranças religiosas, sindicalistas, artistas, trabalhadores em geral, professores, representantes de alunos adolescentes, direções escolares, autoridades policiais, do MP e do Judiciário e - a palavra chave - ouvir a todos: o que pensam, o que acham, o que compreendem, sem a pretensão de que um sabe mais do que o outro sobre o assunto.


Ao final, levantar os pontos de consenso e buscar formas de trabalhá-los, todos juntos. Que erremos tentando, mas que não erremos por omissão.


Podemos e devemos ter diferenças em quaisquer áreas. Mas vamos nos unir nessa questão: o combate à violência enquanto fenômeno e a defesa da vida e da dignidade de todos, até daqueles que nós classificamos como bandidos.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Taiobeiras: quando a oposição chegar lá

* Levon Nascimento

Pressinto que a oposição política de Taiobeiras está próxima de chegar ao comando do município. O resultado de 2016 foi como uma bola na trave numa decisão de pênaltis, embaralhando um roteiro que o destino já tinha escrito. Mas o dia está próximo.

“Deus escreve certo por linhas tortas” ou “o que não nos mata nos fortalece” poderiam ser os ditados empregados para o adiamento dessa mudança de rumo para a história de Taiobeiras. Sim, por que já passou pela cabeça das lideranças oposicionistas o que fazer quando chegar lá?

Tenho pensado muito sobre isso. O que a oposição faria ao chegar à prefeitura? Há clareza dos rumos? Como corrigir a rota de uma cidade que caminha para o precipício? Quais as estratégias para reverter o esgarçamento do tecido social? Como salvar as vidas que se perdem na guerra da violência urbana? Como perenizar a água? São questões que demandam mais do que voluntarismo e boa vontade. São necessárias consistência e assertividade.

De todas essas perguntas, uma coisa já é certa, os problemas saltam às nossas vistas e a lista é grande. Mas o que os provocou? Quem é o nosso povo? Por que se mata e se morre tanto em Taiobeiras? O que fazer para garantir a vida plena e com dignidade como direito básico e fundamental a todos os taiobeirenses? Quais os métodos para alcançar a cultura de paz? Se as respostas forem encontradas, a oposição fará um bom trabalho.

Analisando os planos de governo oposicionistas, apresentados nas duas últimas eleições, uma coisa alegra. Há uma lúcida noção quanto ao compromisso pela promoção da dignidade da pessoa humana. Mas é, por enquanto, só uma frase numa carta de intenções. Como fazer ao chegar lá, no dia que certamente se aproxima, para que ela se torne efetivamente real?

De antemão, sabe-se que Taiobeiras é herdeira de uma forte cultura elitista, hierarquizante e discriminatória. A política por aqui sempre foi feita para determinadas castas bem nascidas, correias de transmissão do atraso, ainda que travestidas de elegante fachada modernizante. É preciso romper com este ciclo que criou um escandaloso fosso social entre os que podem consumir e os que só desejam, mas não podem. Tem-se que fazer com que o taiobeirense sonhe alto – e lute por isto – mais do que consumidor, cidadão.

Creio que o primeiro passo será ouvir o povo que nunca foi convidado às mesas da “Casa Grande”. Conhecê-lo. Compartilhar de suas dores e participar de seu cotidiano.

Em seguida, promover pesquisas e sondagens científicas para desvendar o porquê de nossa violência tão acentuadamente mais forte do que em cidades de mesmo perfil. Dar respostas sobre quem são os nossos jovens que adentram ao mundo da criminalidade. Entender o que pensam e o que sentem. Interpretar seus sonhos e conhecer o que lhes falta. Lutar ao lado deles para salvá-los, a partir de suas experiências concretas, da sina da morte certa.

Há que se empreender um grande esforço investigativo e interpretativo, sem a pretensão de deter o controle da verdade, abrindo espaço de diálogo com aqueles que se pretende salvar das garras da violência. Construir com eles alternativas reais e integrá-los à condição de cidadãos de primeira grandeza.

Por fim, descobrir métodos e maneiras de fazer superar as ideologias de dominação que ainda teimam em agredir a inteligência da classe política e do povo. É preciso sepultar a arrogante e falsa ideologia de que “Taiobeiras é a melhor cidade para se viver”. Embora para muitos seja útil cultivar esta ilusão aborrecida, porque se sentir superior serve para mascarar a covardia ou a apatia, ainda assim é preciso insistir e fazer enxergar que não vivemos numa cidade modelo. Tomar consciência da realidade é psicologicamente fundamental para que a sociedade taiobeirense comece a mirar numa utopia nova, mais generosa, melhor e mais justa, para todos.

Quando a oposição política chegar lá, precisará dar respostas rápidas, firmes, humanitárias e consistentes. Agora, já, é necessário diálogo, esforço e preparação para o dia que já foi agendado na história pelo destino.

* Levon Nascimento é professor de História, sociólogo e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo/Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Levon Nascimento se prepara para lançar 5º livro

O meu novo livro, "Crer e Lutar" está no forno. Já escrito e diagramado, segue para a impressão na Gráfica da Editora O Lutador, em Belo Horizonte.

Um novo livro é sempre uma nova missão que a vocação nos chama a enfrentar.

"Crer e Lutar" é a síntese daquilo que aprendi na caminhada das pastorais e das comunidades da Igreja: "unir fé e vida".


É um livro místico, de leitura orante da Palavra de Deus, mas que não se deixa levar pela armadilha da auto-ajuda. É um livro "pé-no-chão", voltado para os problemas existenciais e estruturais do ser humano, sempre guiado pela esperança que as palavras e os exemplos de Jesus garantem.

Busquei na poesia de Dom Pedro Casaldáliga a inspiração recente: "combater amando, combater amando, morrer pela vida, lutando na paz"; e, na passagem evangélica da multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes, o sentido concreto para a escrita. É preciso organizar o povo e compartilhar (multiplicar) os saberes, as aprendizagens, a luta coletiva e a fé tolerante e benfazeja.

"Crer e Lutar" tem 116 páginas e a capa, mais uma vez, com muita alegria, é uma parceria com a grande artista Elisiana Alves. A amiga jornalista e psicóloga de Montes Claros, Valéria Borborema, assina a apresentação.


Muito em breve teremos o lançamento em Taiobeiras e em Montes Claros.

Desde já um agradecimento especial aos apoios culturais do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras, do Deputado Estadual Paulo Guedes (PT-MG), dos empresários Carlito Arruda, da empresa Arruda Alimentos, e Gil Alves, da Vogue Calçados. Sem estes apoios não seria possível a publicação.


Artigo do Levon: Comunicar com liberdade é preciso

* Levon Nascimento

A comunicação é direito humano básico. É por meio dela que a espécie homo sapiens potencializa uma necessidade fundamental para sua sobrevivência: a vida em sociedade. Viver socialmente só é possível com interação comunicacional entre os indivíduos e os grupos sociais, culturais e econômicos nos quais eles constroem, participam e transformam.

No Brasil, mesmo após a redemocratização de 1985 e a promulgação da Carta Magna de 1988, a comunicação social de massa, aquela que se faz pelos contemporâneos meios que a tecnologia humana proporcionou à sociedade: radiodifusão, televisão, jornais e revistas impressos e internet, não é livre, democrática e acessível à maioria do povo brasileiro.

No caso dos grandes veículos de massa, como a televisão e o rádio, em que pese serem legalmente concessões do poder público, estão subordinados à concentração e à cartelização exercidas por grupos econômicos poderosos, comandados por poucas famílias que definem, ditam e propagam uma linha editorial autoritária, voltada aos interesses políticos e econômicos de seus donos e ignorante ou manipuladora quanto aos desejos e às reais necessidades da maioria da população, especialmente das classes trabalhadoras e pobres. O mesmo se dá com a quase totalidade da mídia de jornais e revistas, impressa ou virtual, marcada por igual cartelização e autoritarismo editorial.

No Brasil não se desenvolveu um contraponto midiático a partir dos interesses das classes trabalhadoras, das etnias historicamente subjugadas e nem dos movimentos sociais, sindicatos ou partidos políticos que representam esses segmentos. Tampouco o Estado brasileiro se preocupou em criar canais de mídia públicos com capacidade financeira, técnica e operacional de modo a fazer o contraponto plural em relação às empresas privadas. Vive-se uma ditadura midiática que molda corações e mentes, educa para os interesses das elites e intimida e constrange as instituições sociais e os poderes constituídos da República.

Para fazer justiça, é preciso destacar que no governo do ex-presidente Lula foi criada a EBC – Empresa Brasil de Comunicação, responsável pela pública TV Brasil, no intuito de avançar na pluralidade da comunicação televisiva no país. Desfechado o Golpe de 2016, essa emissora tem sido gradativamente desmontada, a começar pela demissão de profissionais de viés crítico e autônomo em relação aos interesses do governo em exercício. Já no campo das redes sociais, descortinam-se várias iniciativas de blogues e portais alternativos, mantidos por jornalistas dissidentes do cartel midiático empresarial ou por entidades e movimentos representativos dos interesses populares. A falta de articulação e de definição de uma pauta editorial comum, no entanto, faz com que essas experiências ainda não sejam capazes de produzir efeitos substantivos contra a grande mídia.

Mais recentemente, preocupa o que vem se convencionando denominar de “era da pós-verdade”, em relação ao predomínio da comunicação através das redes sociais da internet, no tocante à disseminação avassaladora, proposital e acidental de notícias falsas, no Brasil e no mundo, as quais têm tido enorme impacto sobre os processos políticos e econômicos. Nos Estados Unidos, credita-se à “pós-verdade” a eleição do ultra-direitista Donald Trump. No Reino Unido, a vitória do Brexit, que pôs abaixo anos de esforços da União Europeia. No Brasil, inaugurado em 2010 pela campanha obscurantista de José Serra à presidência da República, tal fenômeno se avolumou e foi decisivo para as “Jornadas de Junho de 2013”, ao combate inclemente aos governos de esquerda do Partido dos Trabalhadores e para a deposição, por meio de golpe parlamentar-judiciário-midiático, da primeira mulher a se eleger presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, em 2016.

Assombram as imensas possibilidades das tecnologias de informação da internet se tornarem meios de espionagem e de manipulação das massas. Ao utilizar instrumentos como a distribuição de conteúdo por meio de probabilidades algorítmicas, redes sociais como o Facebook de Mark Zuckeberg – um dos oito homens mais ricos do mundo, segundo relatório da organização Oxfam – levam grupos humanos inteiros a se isolar em bolhas de interesses, contrárias aos direitos humanos e às conquistas civilizatórias, fomentam patologias sociais como o machismo, o racismo, a xenofobia e outras bizarrices, ou manipulam a construção de perfis e procedimentos sociais que tornam pessoas cada vez menos cidadãos e sujeitos de direitos, para transformá-las em consumidores condicionados de determinados produtos ou de posturas que o sistema capitalista julga úteis para a sua manutenção, reprodução e perpetuação.

A “pós-verdade” comunicacional tem criado indivíduos e grupos sociais “zumbis”, formados no simplismo das redes sociais, incapazes de diálogo civilizado, mentalmente fechados e cegos às diferenças, à pluralidade e à tolerância.

A concentração midiática que nega o direito humano básico à comunicação com liberdade se encaixa no fenômeno atual de renascimento da direita e de seus valores. Da mesma forma, é fruto das contradições e dos interesses de sobrevivência do sistema capitalista. Por esta razão, ela afeta e ataca sistemicamente o pensamento dissonante e as tentativas históricas de lhe fazer frente e contraposição.

No Brasil se tem o agravante de que o Estado nunca se propôs a regular democraticamente a mídia. Isto é particularmente grave quando associado à tradicional inspiração autoritária das elites nacionais, as quais por meio de seu cartel de comunicação insuflam valores que as mantêm secularmente no poder, achacam governos e instituições e destroem ou constroem reputações conforme lhes é conveniente aos seus interesses.

O desafio que se impõe é o de que a comunicação é a principal arena para a disputa cultural e de valores. É algo mais profundo e que se inscreve, inclusive, como espaço de educação popular. Pela comunicação social de massa se formam cidadãos ou bestas autoritárias.

A sociedade organizada e os governos democráticos precisam atuar em duas frentes: 1) a construção de meios de comunicação de massa abrangentes e capazes de diálogo e 2) a regulação legal da mídia, de modo a garantir pluralidade, liberdade e democracia informativa.

* Levon Nascimento é professor e mestrando. Este texto é parte de um trabalho do autor para o mestrado em “Estado, Governo e Políticas Públicas”, no qual está matriculado.

sábado, 1 de abril de 2017

Taiobeiras e Salinas repudiam Reforma da Previdência de Temer

Manifestação em Taiobeiras
O mês de março foi de muita luta contra a PEC da Reforma da Previdência enviada ao Congresso pelo governo (considerado golpista pelos trabalhadores) de Michel Temer.
Manifestação em Salinas
Na microrregião Alto Rio Pardo, temendo os impactos negativos para a maioria da população, professores, alunos e trabalhadores rurais realizaram paralisações e manifestações para alertar contra os riscos dessa reforma.
Audiência na Câmara de Taiobeiras
Nos dias 08, 15, 28 e 31 de março os professores de várias escolas da região paralisaram as aulas. Já os trabalhadores rurais, convocados pelo coletivo de mulheres, manifestaram-se no dia 29 pelas ruas de Taiobeiras. Em São João do Paraíso, no Dia Internacional da Mulher, alunos e professores foram às ruas contra o projeto de Temer.
Moção de Repúdio da Câmara de Taiobeiras
No dia 15, professores foram às ruas de Salinas, convocados pela coordenação regional do SindUTE (Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais), para conscientizar a população dos itens trágicos da proposta enviada ao Congresso. No dia anterior, alunos de Ensino Médio de Novorizonte realizaram passeata com o mesmo fim pelas ruas da cidade.
Moção de Repúdio da Câmara de Salinas
No sábado 25, em assembleia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras, esse mesmo debate foi realizado com os associados.
Manifestação em São João do Paraíso
Na segunda 20, os vereadores de Salinas aprovaram por unanimidade uma moção de repúdio à elevação da idade mínima de aposentadoria para 65 anos, de autoria da vereadora Etelvina Ferreira. No dia seguinte, foi a vez da Câmara de Taiobeiras também aprovador unanimemente outra moção também criticando a PEC 287/2016, por iniciativa do vereador João Eudes de Oliveira.
Protesto em Novorizonte
Nas duas ocasiões, o povo lotou as galerias das duas casas legislativas demonstrando estar atento e preocupado com os perigos embutidos na reforma previdenciária. Queixa-se dos 49 anos de contribuição, da idade mínima de 65 anos, da supressão dos regimes especiais de professores e trabalhadores rurais e da equiparação injusta de mulheres e homens, além da desvinculação de aposentadorias e salário mínimo.
Protesto em Montezuma
Em outras cidades também ocorreram manifestações, como Curral de Dentro, Águas Vermelhas e Montezuma. A ameaça e o risco de morrer sem se aposentar une classes, categorias e políticos de todos os matizes no Alto Rio Pardo.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Juízo Final brasileiro, por Levon Nascimento


Quando a Dor na Consciência vier na sua glória, acompanhada de todos os seus remorsos e arrependimentos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os brasileiros serão reunidos diante dela.

Então a Dor na Consciência dirá a uma parte deles: “Afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno preparado por Temer e por seus ministros. Porque eu falei que era um golpe de Estado, e vocês me chamaram de ‘petralha-esquerdopata’; eu disse que era para retirar seus direitos, e vocês gritaram ‘Fora Dilma’; eu disse que a Lava-jato era seletiva, e vocês berraram ‘Lula-ladrão-nove-dedos’; eu falei que a democracia ia se acabar, e vocês exaltaram ‘mito... mito... na ditadura é que era bom’; eu disse que impeachment por pedaladas era uma falácia, e vocês me chamaram de “mortadela-fanático”; eu afirmei que o golpe ia destruir a economia, gerando desemprego em massa, e vocês disseram ‘que era para combater a corrupção’.”

E essa parte dos brasileiros respondeu à Dor na Consciência: “Senhora, quando foi que te vimos falar que era golpe, dizendo que retirariam nossos direitos, afirmando que a Lava-jato é seletiva, que a democracia se acabaria, que o impeachment era uma falácia ou que o golpe destruiria a economia gerando desemprego em massa?”

Então, a Dor na Consciência responderá a eles: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês bateram panelas da varanda gourmê, vestiram e desfilaram com as camisas amarelas da corrupta CBF contra a corrupção dos outros, ajoelharam-se e adoraram patos amarelos de borracha da FIESP ou trollaram militantes pela defesa da democracia nas redes sociais, foi a mim que deixaram de escutar. Portanto, vocês irão para o castigo eterno, trabalhar sem esperança de aposentadoria, virar terceirizados com salários bem mais baixos, ver os governos deixarem de realizar concursos públicos para a classe média e viver num país que tinha tudo para dar certo, mas que virará chacota permanente entre as nações civilizadas”.

(Inspirado em Mateus 25,31-33.41-46)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Poder global e redes sociais

Publicado no Facebook em 06/03/2017.

Dizem que o Zuckeberg, dono desse troço aqui, o Facebook, quer fazer de sua rede social o grande poder global, acima dos Estados e daqueles três inventados pelos iluministas: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Apesar de saber que só os da "nossa bolha" nos lêem, com base na tal de manipulação por algorítimos, que seleciona o que aparece na "linha do tempo" de acordo com as preferências de curtir, comentar e compartilhar do dono do perfil, ainda uso esta rede social para alguns fins...

O principal: manifestar minha liberdade de opinião política, social, intelectual e cultural.

O segundo: relacionar-me com pessoas com quem tenho afinidades e, não muito (rsrs), com quem não tenho.

O terceiro: entreter-me.

De resto, continuarei a dar minha contribuição à democracia, ainda que limitado por um dos oito homens mais ricos da Terra.

O nazifascismo era de direita

O Nazifascismo foi uma ideologia totalitária, porém nunca foi de esquerda.

Totalitário, porque se colocou como única alternativa de Estado, de política e de ideologia a ser seguida e obedecida pelas pessoas de onde foi historicamente experimentado.

Não esquerdista, porque a esquerda pressupõe a redução das desigualdades socioeconômicas e o respeito à diversidade racial, enquanto que o nazifascismo ambicionou a criação de uma super-casta racial e social, superior, destinada a subjugar os estratos considerados inferiores, e teve apoio das burguesias capitalistas dos países que sofreram dessa tragédia.

Uma das formas de iludir quem pouco se informa é confundir conceitos para embaralhar o jogo. Fique atento.

A nova face do capital

No mundo inteiro, o capitalismo escancara suas contradições e cada vez mais deixa de ser o sistema no qual as pessoas se iludiam com a possibilidade de mobilidade (nascer pobre e ficar rico).

Oito homens apenas têm fortuna igual à da metade do resto da humanidade, segundo a Oxfam. No Brasil, seis indivíduos são tão ricos quanto 100 milhões de brasileiros juntos.

E não para por aí. A burguesia capitalista tem dispensado intermediários na condução de seus negócios na política. Na crise do sistema que a enriquece, ela própria quer comandar o Estado, revelando o quanto era mentirosa a ideia de que capitalismo e instituições democráticas andam juntos. Donald Trump nos Estados Unidos, João Doria em São Paulo, o prefeito de Betim, etc.: a burguesia no poder.


E os trabalhadores? Como diria Justo Veríssimo, personagem de Chico Anísio: "Pobre que se exploda!"

De preferência como homem-bomba.

Aparecida no Carnaval

Acabei de assistir o vídeo do desfile da Escola de Samba Unidos de Vila Maria, de São Paulo, homenageando os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil. Desfile lindo, encantador e emocionante, ocorrido na madrugada de sexta para sábado.
Que se mordam os conservadores! Nossa Senhora e o Evangelho do Filho dela têm de ir a todo lugar, inclusive ao sambódromo, que é onde o povo está.
A fé só é viva se entranhada na cultura.

Postado no Facebook em 27 de fevereiro de 2017.

A Lava-jato não é o que você pensa

A operação Lava-jato não é boa para o Brasil. Ela não existe para combater a corrupção.
É uma operação montada para fins políticos-eleitorais, de modo a destruir a esquerda e proteger a direita, e com fins econômicos e geoestratégicos, como destruir os setores industriais nacionais e premiar o capital estrangeiro.
Só que a Lava-jato, similar à Mãos-limpas italiana, que jogou aquele país europeu no colo do histriônico Berlusconi, teve como efeito colateral, depois de alijar o PT - seu único alvo inimigo, o de entronizar a quadrilha peemedebista no poder e não o PSDB, seu verdadeiro objetivo, parceiro e protegido.
De quebra, a tal força-tarefa ainda abriu espaço para a agenda zumbi da classe média descerebrada, permitindo o latido cada vez mais potente dos loucos nazifascistas.
Curitiba destruiu o Brasil.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Artigo: O espírito do tempo

Publicado originalmente no jornal Folha Regional, n. 265, ano XIII, Taiobeiras/MG.

Por Levon Nascimento

Zeitgeist é a expressão alemã para “espírito do tempo”. Algo como “para onde o vento sopra”. O atual zeitgeist interrompe a civilidade e conduz a humanidade de volta à barbárie.

Ao final da segunda guerra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada. Era preciso apagar as manchas vergonhosas do nazifascismo e de Hiroshima e Nagasaki. Discriminação racial, perseguição ideológica, machismo, misoginia, xenofobia e totalitarismo foram combatidos com leis e educação nas nações modernas.

O “politicamente correto”, mais do que padrão de etiqueta, tornou-se a norma das sociedades civilizadas. Há 20 anos seria impensável um presidente-eleito americano, “republicano” ou “democrata”, ironizar uma pessoa com qualquer tipo de deficiência. Mesmo na esfera privada, se fosse flagrado, teria a carreira arruinada. Hoje é aplaudido.

A crise do capitalismo neoliberal de 2008, repetindo a tragédia da primeira metade do século XX, rompeu com isso e abriu espaço para o zeitgeist da falência das instituições reguladoras. O Estado nacional, a universidade, a instituição religiosa, a imprensa tradicional e as democracias já não guiam o homem comum.

O que antes era motivo de vergonha, hoje é exaltado orgulhosamente nas redes sociais ou reverberado com frequência no cotidiano real. Tornou-se “normal” disseminar o ódio contra as minorias, discriminar a pessoa negra, espancar ou matar a mulher que não se submete ao homem, repudiar as políticas afirmativas para as etnias vilipendiadas, aplaudir torturadores em sessões parlamentares, regredir na superação da homofobia, defender a morte, o tratamento indigno e as condições subumanas dos presidiários, golpear o Estado laico.

É o zeitgeist da era da pós-verdade. Com a internet, o homem comum tem acesso a todo tipo de informação às quais ele recebe e transmite. Num sistema ideal poderia ser a chance de democratizar a comunicação, mas se tornou o esgoto da alma humana. Mentiras se misturam a verdades e são propagadas em tempo real, confundindo, manipulando e nublando a vida social.

“Gente de bem” ou “pessoa honesta”, expressões de presunção e vaidade de quem pouco sabe sobre a complexidade da vida humana, tornaram-se bandeiras de difusão de ódio de uma classe média acuada pela perda de status econômico e confrontada pela ascensão de quem ela considerava subalterno.

Homer Simpson, o imbecil protagonista da série “The Simpsons”, fez-se de carne-e-osso e infesta os ambientes sociais com seu discurso infame, geralmente comemorando chacinas em presídios do terceiro mundo ou defendendo homens que ainda matam suas companheiras pelo decadente conceito de “legítima defesa da honra”.

Este zeitgeist permitiu o renascimento do nacionalismo xenófobo na Europa, a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a guinada à direita na América Latina e o golpe de Estado parlamentar no Brasil. Também é o responsável por uma onda mundial de retirada de direitos arduamente conquistados pelos pobres e trabalhadores. No Brasil, manifesta-se na aprovação do trágico congelamento dos gastos sociais por 20 anos e nas indecentes propostas de reformas trabalhista e previdenciária.

Qualquer tentativa de discurso racional ou de bom senso é combatida com violência simbólica e, não se duvide, pode chegar às vias de fato. Fundamentalmente, é a nova forma da igreja do Mercado adorar o deus Capital.

Uma das poucas vozes de respeito contra este zeitgeist é o Papa Francisco, sobretudo no atendimento aos refugiados que batem às portas do continente europeu, correndo das guerras patrocinadas pelo centro do capitalismo em seus países de origem. Não por acaso, ele enfrenta uma rebelião dos cardeais apegados ao velho farisaísmo clerical. Nas palavras do pontífice argentino, o mundo já vive uma terceira guerra mundial, velada e hipócrita, porém igual ou mais letal do que as anteriores.

Que o espírito do tempo não nos conduza à paz dos cemitérios.

* Levon Nascimento é professor de História em Taiobeiras/MG e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil e Fundação Perseu Abramo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Poeira, Pérola e Perdão

Por Levon Nascimento

Já fui tentado diversas vezes a "sacudir a poeira dos pés" para lugares, pessoas e situações que me indignam.

Vontade que só aumenta quando se trata de indivíduos com posturas fascistas, ingratas ou canalhas.

Certa vez, Jesus disse aos discípulos como deveriam agir com as cidades que não aceitavam a Boa Notícia, segundo Mateus 10,14-15...

"Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés. Em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade."

Anteriormente, ele já tinha falado "Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem" (Mt 7,6), provavelmente se referindo àquelas situações em que damos o melhor a quem não quer ou não valoriza o que recebe.

Mas estou me aguentando e fazendo um esforço para seguir outro ensinamento do mestre: "Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará" (Mt 6,15).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Poema livre - Taiobeiras


Taiobeiras
Caravana que passa
Rodoviária
Árvore tombada
Bala perdida
Encontrada
No corpo tombado
Corpo jovem
Sem remédio
Barraca
Trabalho tombado
Mensagem indireta
Desrespeito direto
Nossa terra
Que amamos
Água pouca
Muita hipocrisia
Ainda assim amamos
Cão que ladra
Taiobeiras