quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Artigo: Os pingos nos is

* Levon Nascimento

Coisa mais comum é a sociedade organizada divulgar nomes e retratos de deputados e senadores que votam contra ou a favor de medidas de grande repercussão para a vida das pessoas.

Agora mesmo, listas de quem salvou Michel Temer de ser investigado pelos crimes dos quais é acusado, pulam em nossas vistas nas redes sociais.

É assim que funciona o Estado Democrático de Direito. Se é que ainda temos um.

Espantoso é que alguns vereadores e ex-vereadores acionaram a polícia contra o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras porque a entidade fez um banner com as fotos dos parlamentares que, em 2016, aprovaram a cobrança de contribuição de custeio de iluminação pública para quem mora na roça, onde não existe iluminação pública em frente das casas.

Coisa feia! Com tanta criminalidade atormentando a vida do povo taiobeirense, esses políticos foram chamar a polícia para a representação dos trabalhadores, gente honesta, que luta dia e noite para por comida saudável na mesa de quem mora na cidade. Lembrando que são alguns. Não todos.

Cobrar iluminação pública onde não tem iluminação pública, mais uma chicotada no lombo de quem trabalha. “Ah, mas o pessoal da roça vem para a cidade à noite, onde tem poste na rua, por isso tem que pagar”: devem pensar os responsáveis por essa insensatez. Como são esquisitos os nossos liberais meritocratas!

Provavelmente dizem que o Sindicato está fazendo política. Estranho seria se não estivesse. Se até uma mãe ou um pai ao dizer um não ou proibir os filhos de realizarem qualquer coisa estão agindo politicamente, usando do pátrio-poder, por que uma entidade de classe não poderia pressionar os políticos para defender os seus associados? Errado seria se não fosse assim.

Eu vi o banner com a lista dos que aprovaram cobrar contribuição de custeio de iluminação pública de quem não a tem. Não há calúnia, porque não acusa nenhum dos listados de ter praticado crime. Não possui difamação contra eles, pois não afirma que cometeram algum ato desonroso. Também não é injúria, pois mostra o que é verdade, ou seja, o modo como os parlamentares – livre e soberanamente – votaram numa seção da Câmara Municipal. Não é ilegal.

Pelo contrário, a lista é um ato de liberdade democrática que merece aplausos, conforme resguarda o artigo 5º da Constituição brasileira. Ela dá publicidade aos eleitores de como agem as pessoas que eles colocam no poder. Ah, se o nosso povo tivesse mais coragem de exercer assim a sua cidadania, se pressionasse mais os políticos, se participasse mais da vida e dos rumos do Estado e da sociedade! Talvez, seríamos um país melhor e mais avançado.

Que a bronca dos vereadores e ex-vereadores, que não gostaram nenhum pouco da bela ação do Sindicato, seja arquivada de pronto por quem de direito. Afinal, quem paga a conta é o povo trabalhador, que tem o direito de se indignar.

Na terra em que o povo não pode reclamar de seus políticos ou sofre perseguições jurídicas por causa disso, o nome que se dá é ditadura.

* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em Estado, Governo e Políticas Públicas.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sindicato dos Trabalhadores Rurais recebe moção de aplausos da Câmara de Taiobeiras

Na noite de terça, 15 de agosto de 2017, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras recebeu "Moção de Aplausos" da Câmara Municipal, por indicação da vereadora Gisele Oliveira Santos, em meio à tensão da luta contra a cobrança abusiva de contribuição de iluminação pública para as residências do meio rural.

Leia o discurso de agradecimento dos representantes do Sindicato. No texto, a entidade reafirma que, independente da reação de alguns parlamentares, não recuará de lutar pelos interesses da classe dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Excelentíssimo Senhor Vereador Ecleidson Inácio de Sena,
Presidente da Câmara Municipal de Taiobeiras.
Excelentíssima Senhora Vereadora Gisele Oliveira Santos.
Excelentíssimos Senhores Vereadores.
Senhoras e Senhores, Boa noite.

Na oportunidade em que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras recebe esta homenagem reconhecida como Moção de Aplausos, na qualidade de presidente desta entidade, quero aqui agradecer.

Agradecer a Deus, que sempre nos guiou na caminhada e na luta.
Agradecer aos associados e associadas, homens e mulheres, jovens e idosos, trabalhadores e trabalhadoras na agricultura familiar, pessoas de luta, que a cada momento fazem de suas energias o esforço para produzir o alimento que chega às meses de todos.
Agradecer ao queridos companheiros diretores e às companheiras diretoras, os quais  representam, pelo voto dos associados, os interesses coletivos de nossa classe.

Agradecer aos parceiros e às parceiras do Sindicato: os movimentos populares, as comunidades, as associações e todos aqueles que compreendem e apoiam a nossa luta.

Agradecer à vereadora Gisele, que indicou o Sindicato para esta homenagem e os demais vereadores que aprovaram.

Enfim, neste dia de hoje, quero celebrar, juntamente com todos os companheiros e companheiras, a luta, a trajetória, a caminhada e o esforço de todos aqueles que construíram esta entidade para bem servir o homem e a mulher trabalhador rural.

Estamos enfrentando um momento difícil no Brasil. Um momento em que os direitos mais fundamentais, conquistados com muito suor, sangue e luta, estão sendo ameaçados por aqueles que não compreendem as necessidades dos mais fracos: congelamento dos gastos sociais por 20 anos, reforma da previdência, reforma trabalhista. A democracia está em risco no Brasil.

Portanto, se na democracia o Sindicato já fazia todo sentido, imagina agora o quanto mais ele é importante e necessário. É através da união que o sindicato simboliza, que o povo tem de se reunir, se organizar, reivindicar, lutar e não deixar que os direitos sejam retirados.

O Sindicato é a casa do trabalhador e da trabalhadora. É uma entidade de respeito. Tem história para mostrar. Tem conquistas e vitórias alcançadas. Merece o respeito de toda a sociedade e dos poderes constituídos. Esta homenagem de hoje, nesta casa, nesta Câmara Municipal, deve ser o reconhecimento de que os líderes do sindicato são mulheres e homens sérios, trabalhadores, lutadores, honestos, que se entregam na luta em favor dos interesses de todos, dos interesses coletivos.

Exemplo de nossa luta, está a recente manifestação contra a cobrança da contribuição de custeio de iluminação pública, a qual nós não achamos justa, pois as residências rurais não contam com iluminação pública em frente das casas, sacrificando ainda mais a vida sofrida dos trabalhadores.

De maneira democrática e respeitosa, sem ferir nenhum direito dos parlamentares, nos colocamos em luta corajosa.

Nunca foi nosso interesse afrontar ou desrespeitar. Mas será sempre a nossa missão, defender o que é certo e lutar contra aquilo que é injusto. Estaremos sempre em luta.

Que Deus abençoe a todos nós.
Muito obrigado a todos.
Boa noite.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Resposta: O desmonte da UFVJM e do ensino superior

Na crônica O jumento é nosso irmão, que publiquei aqui em 5 de agosto de 2017, recebi o comentário da internauta Ana Maria, o qual transcrevo logo abaixo.

Olá Levon, gostaria que o senhor desse sua opinião sobre os cortes de recursos que estão ocorrendo nas universidades públicas federais. Esta semana tive a triste notícia que a UFVJM, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri,instituição no qual eu me graduei em Administração Pública, poderá fechar as portas por não ter dinheiro para manter as despesas de custeio (ou seja, não tem dinheiro pra pagar água e energia). Os recursos para investimentos, nem se fala, já estão paralisados há muito tempo. E isso poderá afetar também aos alunos nos cursos à distância, que já tem suas dificuldades de manutenção, principalmente em Taiobeiras, onde há um polo. Abraços.

Respondo a Ana Maria:

Querida Ana Maria,
O desmonte da UFVJM, criada pelo presidente Lula nos governos do PT, e do ensino público, em geral, são parte do que já estava desenhado pelo golpe de 2016, que destituiu a presidenta legítima Dilma Rousseff, sem que ela tivesse cometido crime de responsabilidade, conforme reza a Constituição brasileira. Significa sucatear o serviço público para em seguida privatiza-lo. É parte da política neoliberal: mais para os ricos, menos para os trabalhadores. Menos social-desenvolvimentismo petista e mais elitismo tucano-peemedebista. Infelizmente, é o triste retrato do que as manifestações orquestradas pela Globo, de lavagem cerebral, e pelos patos, camisas amarelas e panelas produziram: tiraram uma mulher honesta da presidência, perseguem o maior estadista vivo do país (Lula) e colocam a pior quadrilha da história nacional no Planalto. O "Mineirinho" tem culpa nisso.


Egoísmo, o outro nome do Liberalismo Econômico.

LIBERALISMO: cada um por si, Estado mínimo, 0% de solidariedade social, predomínio do mercado sobre a sociedade.

Li há pouco num comentário de rede social da internet:

"O dinheiro dos meus impostos não deveria servir para alimentar crianças de escolas públicas. Eu pago pela comida dos meus filhos. Que cada um se vire pelos seus".

O dito comentário estava numa discussão iniciada pela divulgação da notícia de que o prefeito paulistano João Doria, do PSDB, havia proibido que os alunos da rede municipal repetissem da merenda escolar. Lembrando que muitas daquelas crianças só contam com aquela única refeição por dia.

Esse tipo de comentário é cada vez mais presente nas redes. Diria até que é predominante. Como se chama essa ideologia?

Respondo: LIBERALISMO ECONÔMICO CAPITALISTA em grau máximo. Ou melhor: LEI DA SELVA. Quem pode pagar, vive. Quem não pode, morre. "Salve-se quem puder!"

Muitos jovens brasileiros que foram às ruas a partir de 2013 ou que se encontraram nas manifestações "verde-amarelas" pelo impeachment embarcaram nessa onda. Alguns deles chegaram a se filiar a partidos políticos que defendem esse programa. Dizem que o NOVO chegou.

Na verdade, é um novo que já nasceu velho. Afinal de contas, tem para mais de 200 anos que o liberalismo econômico se apresentou como teoria e prática nas sociedades industriais e em suas periferias.

Além disso, desde o assassinato de Abel por Caim, na história bíblica do Gênesis, que o EGOÍSMO (outro nome do liberalismo) produz resultados nada animadores para a humanidade.

sábado, 5 de agosto de 2017

O jumento é nosso irmão


* Levon Nascimento

O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do sertão!”
Luiz Gonzaga.

Nas tais jornadas de junho de 2013, aquelas que não aconteceram por apenas vinte centavos, mas pela entrega do país inteiro aos piratas, teve uma charge de Lúcio contendo duas cenas. Numa, os manifestantes vinham como leões furiosos, gritando contra o Congresso Nacional, sob o título 2013. Noutra, a mesma gente travestida de jumentos digitava na urna eletrônica, legendada por 2014.


O tal gigante que acordou como leão em 2013 votaria em 2014 como jumento, previa o chargista e o senso comum.

Eu até que poderia concordar, pois na última eleição geral foi escolhida a mais podre composição de deputados federais e senadores da história brasileira.

Gângsteres propinados pela alta burguesia, em negociatas intermediadas pelo execrável Eduardo Cunha, chegaram a número recorde no parlamento, muitos deles com a Bíblia debaixo do braço, a retirar uma mulher honesta da presidência e a manter um ladrão flagrado no supremo comando da República.

Mas, não, eu não concordava com a charge. Por um motivo: o Jumento é nosso irmão! Assim mesmo, exclamativamente, e colocando maiúscula na inicial do nome do nobre parente.

Quem me alertou para essa fraternidade foi o amigo Lídio Barreto Filho, identidade nada secreta do super-herói Lídio Ita Blue. Sim, super-herói. Professor da rede pública poderia ser outra coisa senão um similar do Superman? Apresentou-me à Apologia ao Jumento, do rei do baião Luiz Gonzaga, a secundar obra do padre e político Antônio Batista Vieira, não o jesuíta português dos seiscentos, mas o intelectual cearense do vigésimo século cristão, fundador do Clube Mundial do Jumento.

Aqueles leoninos manifestantes de 2013, defecando na urna em 2014, bem que poderiam ser descritos como galinhas – mantendo a tradição de comparações zoológicas – animais de pouca memória e limitada inteligência. Jumentos, não! – definitivamente.

Ora, como poderiam ser jumentos, tão imbecis criaturas? Jumento é sujeito forte, inteligente e patriota. No sertão é ele quem ajuda o homem a construir a Nação. Carrega água, rasga estradas, leva cargas, assiste o penitente e acompanha os retirantes.

No passado, recebendo a alta condecoração da Cruz no Lombo, foi o Jumento que carregou Nosso Senhor e a Santa Família para o Egito, na fuga do infanticida Herodes. Anos mais tarde, também foi o Jumento a levar o Mestre pelas ruas de Jerusalém, ocasião em que o povo acolheu o Cristo com hosanas e ramos de oliveira – coisa de rei. Aliás, mesmo povo que uma semana após gritaria histérico “crucifica-o”. Outras galinhas, não jumentos.

Certa feita, estávamos meu irmão Agnaldo e eu em Vitória da Conquista para comprar um carro. Pois, adivinhem com quem nos deparamos? Com ele mesmo, o Jumento, sofisticadamente degustando um repasto de grama do jardim da concessionária, na Suíça baiana. Gente fina é outra coisa!

Aliás, o Jumento jamais poderia ser o culpado de tão má representação política que têm os brasileiros. Desenvolvimentista como ele, jamais elegeria criaturas tão obscurantistas para cuidarem dos destinos dessa terra abençoada. Apesar de viver no pasto, o Jumento não se dá com certos pastores, daqueles que preferem montar nas ovelhas e dizimá-las com o peso das ofertas, do que servi-las como fez aquele outro Pastor, o amigo do Jumento.

O Jumento é nosso irmão porque é um trabalhador, sem previdência, o primeiro a sentir os efeitos da antirreforma trabalhista. Não é responsável pela trapalhada dos homens de bem que urram, a tentar lhe imitar sem sucesso. Recebe “castigo, pancada, pau nas pernas, pau no lombo, pau no pescoço, pau na cara, nas orelhas”, assim como muitos eleitores por aí, mas a culpa, certamente, não é dele.

Clique aqui para conhecer a letra de Apologia ao Jumento, de Luiz Gonzaga.
Clique aqui para ouvir Apologia ao Jumento, de Luiz Gonzaga.

* Professor de História, sociólogo, escritor e mestrando em Políticas Públicas.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Zé Vicente em Montes Claros

Zé Vicente e eu, durante a roda de conversa e canções
em Montes Claros/MG. Crédito: Irmã Letícia Rocha.
Na noite da última sexta, 28 de julho de 2017, Zé Vicente, poeta, compositor e cantor da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base esteve em Montes Claros para uma roda de conversa e canções.

Acho que, para quem acompanha minha trajetória, não é segredo que as músicas de Zé Vicente sempre me inspiraram na luta, nos textos e na militância.

Tive a honra de entregar a ele o meu mais recente trabalho, o livro CRER E LUTAR.

No contexto sombrio brasileiro, creio que a arte de Zé Vicente é um sopro de esperança e fé.

O que aprendi sendo xingado na internet, livro do Leonardo Sakamoto

Comecei a ser xingado na internet em 2011, quando criei conta no Facebook, por expor meus pontos de vista sociais e políticos.

Na campanha municipal de 2012 houve um upgrade. De 2013 até o golpe de 2016, vixe...! É a era da pós-verdade e do novo fascismo, do patrulhamento ideológico e do autoritarismo ultra-liberal.

Como disse o escritor italiano Umberto Eco, as redes sociais libertaram a voz de uma legião de imbecis.

A besta está solta. Combatamos o bom combate!

Vamos à experiência do Leonardo Sakamoto.

Dual


O anticristo e os idólatras.
A mercadoria e os consumidores.
O capital e os explorados.
As contrarreformas e os direitos.
A besta e os bestas.
A morte e a vida.
O reino e os que lutam.

O cordeiro e os mártires.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Por que o Rio Pardo morreu?

Crédito: Jornal Folha Regional (Taiobeiras, 2014).
* Levon Nascimento

A predação da natureza no Alto Rio Pardo produziu a morte do único rio que nascia no Norte de Minas e ia soberano, diretamente ao Atlântico, em Canavieiras na Bahia: nosso Rio Pardo.

Garganta larga das reflorestadoras, que encontraram as portas escancaradas deste sertão pelas mãos da ditadura de 64. Como argumento, diziam: "terras imprestáveis, só servem para eucalipto".

E também pelas patas da aristocracia "meia-boca" das cidades da microrregião, aquela que entra em estado de orgasmo ao ouvir a palavra "progresso", mas que só a enxerga na terra arrasada e estuprada pelo desmatamento.

Se hoje falta água, é porque no passado recente sobrou cobiça, ganância e violência.

Livros de Levon

Já tenho impressos e publicados cinco livros, lançados entre 2006 e 2017.

Eles são coletâneas de artigos de opinião, crônicas, contos e até orações.

Dois tem temáticas bem específicas: Sexagenarius, com reflexões sobre os 60 anos de Taiobeiras, e Memorial da Juventude de Taiobeiras, com fotografias e textos que recontam a epopeia da Pastoral da Juventude na cidade de 1985 a 2005.

Palavras da caminhada, o primeiro, e Blogosfera dos Gerais, o segundo, são ensaios de um pensamento que se desenvolveu crítico e na luta por uma sociedade "mais justa e solidária".

CRER E LUTAR, lançado neste ano, é um apelo de fé para os compromissos humanitários e civilizacionais, tão em descrédito e descuidado no contexto atual.

Veja a ficha de cada um:

1. Palavras da caminhada: superando a falta de memória pública com artigos e ensaios. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2006. 160 páginas.

2. Blogosfera dos Gerais: opinião, testemunho e outras reflexões. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2009. 138 páginas.

3. Memorial da Juventude de Taiobeiras. Escrito em parceria com Flaviana Costa Sena Nascimento. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2010. 132 páginas ilustradas.

4. Sexagenarius: reflexões pelos 60 anos de Taiobeiras. Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2014. 120 páginas. Capa com pintura de Elisiana Alves.

5. Crer e Lutar. Taiobeiras: Academia Taiobeirense de Letras e Artes (ATLAS), 2014. 116 páginas.

sábado, 15 de julho de 2017

Nunca foi tão óbvio, Brasil!

Charge de Laerte
De um lado, os mesmos políticos de sempre: ganham eleições comprando votos e, uma vez no poder, pouco se lixam para os eleitores. Votam a favor da reforma trabalhista e querem aumentar a idade para a aposentadoria. São gravados exigindo propina, carregando malas de dinheiro vivo e povoam o governo federal depois do golpe. Todos soltos e acobertados pela Justiça.
Do outro lado, aqueles que criaram políticas públicas e programas sociais em favor dos pobres, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos índios, dos LGBTs, dos professores, etc. Contrários à reforma trabalhista e previdenciária. Para persegui-los não precisa de provas, basta haver delações nas quais os delatores falem o que juízes e promotores desejam ouvir. São condenados pela Justiça.
Um país em que meia tonelada de cocaína apreendida em helicóptero de político da direita, pedidos de propinas gravados, feitos pelo segundo colocado na última eleição presidencial, e malas de dinheiro vivo são recebidas por deputado diretamente ligado ao presidente da República não dão condenação, mas um triplex sem provas condena o maior estadista vivo da Nação.
Um país em que as pessoas pouco leem e se informam pelos carteis midiáticos televisivos ou por memes mentirosos.
Um país que cultura a violência e que trata a questão social como caso de polícia.
Nunca foi tão claro. Nunca foi tão óbvio. Casa Grande & Senzala.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Brasil de volta ao mapa da fome da ONU

Antes de ler meu texto, leia esta matéria.

Passei minha juventude nos grupos de jovens, no auge do governo tucano neoliberal de FHC, tempo em que a gente tinha de fazer campanhas de arrecadação de alimentos para as famílias famintas.

Aquilo me dava tristeza, porque era paliativo, fortuito e ineficiente. Dava comida hoje e amanhã a família precisava de novo. Eram necessárias políticas públicas de combate à miséria e de geração de empregos.

Com a eleição de Lula em 2002, vieram os programas sociais, mas sobretudo as políticas de valorização constante do salário mínimo e de pleno emprego.

Tivemos a melhor época da História do Brasil em termos sociais. Milhões foram resgatados da miséria e ingressaram no mercado de trabalho. O Brasil saiu do mapa da fome. Pena que há pessoas e grupos sociais que não enxergam isso.

Nossos problemas sociais continuaram, mas a fome não era mais um deles.

Com o golpe de Estado que depôs Dilma em 2016, as políticas públicas passaram a ser desarrumadas. A crise econômica provocada inicialmente pela sabotagem do empresariado e, posteriormente, pelo desmonte neoliberal do país por parte do governo golpista liquidou os empregos e os salários.

E dá-lhe medidas para retirar ainda mais os direitos dos trabalhadores. As reformas trabalhista e previdenciária estão aí para serem votadas por um Congresso que representa apenas os interesses da elite, em que pese o governo estar moribundo. A pauta da implosão social está vivíssima e descolada do processo de crise política.

O resultado é que a falta do que comer em muitas famílias está de volta. Segundo a ONU, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. "Três anos depois de o Brasil sair do mapa mundial da fome da ONU — o que significa ter menos de 5% da população sem se alimentar o suficiente —, o velho fantasma volta a assombrar famílias", diz a reportagem de Daiane Costa. "O alerta, endossado por especialistas ouvidos pelo GLOBO, é de relatório produzido por um grupo de mais de 40 entidades da sociedade civil, que monitora o cumprimento de um plano de ação com objetivos de desenvolvimento sustentável acordado entre os Estados-membros da ONU, a chamada Agenda 2030. O documento será entregue às Nações Unidas na semana que vem, durante a reunião do Conselho Econômico e Social, em Nova York."

Aquela turma de classe média, apoiadora do golpe, que nunca se conformou com as políticas públicas e programas sociais dos governos petistas, agora pode alegremente realizar suas campanhas de arrecadação de comida para dar aos pobres famintos, descarregos de consciência, principalmente no Natal, visto que para essa gente a solidariedade só aflora fim do ano, quando muito.

Nossos grupos de jovens, pelo menos, tinham formação política.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Os ataques a Francisco

Dia de São Pedro é também o Dia do Papa. Por que tantos ataques ao papa atual vindos de grupos de dentro da própria Igreja? Vejamos:
Há quatro anos Francisco assumiu a chefia de uma instituição bimilenar atolada em denúncias de pedofilia e em que os casos eram acobertados por altas autoridades do clero. Ele não só deu publicidade, instituiu normas de controle, encontrou-se com vítimas e baniu até mesmo cardeais que acobertavam pedófilos.
Quando assumiu, a cúria romana estava desgovernada, com vazamentos de documentos secretos, fato que segundo consta fizeram até mesmo o seu antecessor (Bento XVI) chegar ao ato extremo de renunciar, coisa que não acontecia na Igreja há mais de cinco séculos. Ele criou uma comissão externa de aconselhamento, destituiu lideranças envolvidas nos escândalos e iniciou um processo de reestruturação da cúria, focando-a mais na vocação para o serviço evangélico do que em ser a corte mundana de um monarca absolutista.
Em 2013, encontrou o Banco do Vaticano envolvido em falcatruas diversas. Demitiu todos os envolvidos e aceitou todas as normas e procedimentos que as autoridades civis julgam necessárias para a transparência e honestidade das finanças da Igreja.
Encontrou um igreja com o umbigo voltado para o fundamentalismo xenófobo eurocêntrico. Abriu-a para as questões das mulheres, dos refugiados e das "periferias do mundo", nomeando cardeais dos lugares mais improváveis da Terra, como de países pobres da África, da Ásia e da América Latina, além de ter-se comprometido com pautas de redução das desigualdades sociais, ambientais e de gênero.
Demitiu bispos que viviam em mansões e constrói lavanderias comunitárias, cozinhas populares e centros de recepção de desabrigados e refugiados dentro dos próprios palácios vaticanos, para os pobres de Roma e de fora.
Enquanto grupos cristãos extremistas pregam a guerra contra o Islã ou sofre ameaças de atentados por parte de terroristas islâmicos, busca o diálogo e o respeito com a comunidade muçulmana.
Agora, descobre-se que grupos extremistas da Igreja, quase medievais, escandalosamente se divertem com "previsões demoníacas" que apontariam para a morte iminente do Papa Francisco. Outros (grupos católicos), acham maravilhoso que Trump tenha ganho várias "paradas", porque enxergam no presidente americano o grande rival de Francisco. Outros, ainda, já não temem gravar vídeos em que o tratam por "estúpido". Pior, uma apatia de certos indivíduos do clero em implementar suas decisões e conselhos.
Nunca me foi tão claro quanto agora de que, em verdade, para quem tem fé, o Papa Francisco foi realmente escolhido por Jesus para guiar a Igreja neste momento tão difícil pelo qual passa a humanidade. E mais, conta com a força do Mestre para reconstruir a Casa de Deus e a Casa Comum, como o outro Francisco, o de Assis.
Vida longa a Francisco! Deus o abençoe, o proteja e o mantenha firme. Nós precisamos dele e de sua coragem nestes tempos de neofascismo e extremismo.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Conto: O menino e a fogueira

* Levon Nascimento

Era uma vez um menino que sonhava o ano inteiro com a noite da fogueira. Ele não tinha quase nada, só a esperança das luzes produzidas por aquele fogo santo. Para a pobre criança, era quando tudo ficava diferente.

Esperava ansiosamente pelos traques, foguetes, chuvinhas de prata, biscoitos de goma de mandioca, xotes e baiões. Naquela noite de luz, pensava, tudo contribuía para que se sentisse gente e feliz.

Chegou a data. Escureceu mais cedo. Noites frias de junho no sertão.

Sob bandeirolas, pilhas de lenha amontoadas em frente a cada casa da vizinhança, à espera do ritual de riscar o palito de fósforo, menos na morada do menino que tanto desejara aquele momento.

Quanto mais a noite caía, uma a uma, as fogueiras eram acesas pelos pais de cada família. Ao brilhar o fogo, se via a alegria da criançada correndo, barulhando, atirando os fogos que ganharam, provando da magia daquele instante pelo qual ele tanto esperara.

E o menino sozinho, triste, amargurado e desesperançado. Pobre, mais do que nos outros dias. Parece que a miséria do ano inteiro também se recusava a partir naquela hora.

É que o pai do menino havia saído um mês antes para trabalhar fora, boia-fria, sem terra, espoliado pela sanha dos coronéis da região, e não voltara ainda.

Aquela que deveria ter se tornado a noite mais linda, era agora o momento do desprezo e do desamparo. Sim, porque o menino se sentia desprezado pela vida e desamparado pela sorte.

Onde estaria seu pai? Por que não viera preparar e acender a fogueira? Por que não trouxe seus fogos? Por que não compareceu com o pão de cada dia? E o menino chorou.

A lágrima que escorreu de seus olhinhos castanhos, da cor de tantos olhos de meninos desvalidos do sertão, rolou até o chão ressequido e poeirento de junho. Foi quando uma menina franzina lhe tocou a cabeça, abaixada de tristeza, chamando-o para ir brincar em volta da fogueira da casa em frente.

Ele até relutou em levantar o semblante, envergonhado das lágrimas que ainda caíam. Mas se pôs de pé e a seguiu.

Chegando lá, poucos passos adiante, olhos ainda banhados em choro, mas fixos no fogo que devorava as lenhas com o mesmo apetite com que moleque guloso engole uma boa canjica ou um pedaço de pão-de-ló, a partir do convite e do gesto de compaixão da menina, enxergou além da luz que dali se desprendia e viu mundos diferentes.

Lugares de gente sem tantas necessidades insatisfeitas quanto as dele. Países de abraços e carinhos, com mesas fartas, casas confortáveis, roupas bonitas, livros ilustrados e histórias fantásticas. Espaços sem dor e injustiças, nos quais a terra é de quem nela trabalha e em que os pais não precisam ser boias-frias como o seu. Viu homens que não subjugam as companheiras, mulheres que não se deixam subjugar e crianças que ao invés de trabalhar duro – como ele – leem e se divertem. Enxergou a fantástica maravilha de não existirem mais coronéis nem capangas, nem homens que os obedecem ou que apanham deles. Percebeu que nesse lugar as armas foram trocadas por flores e a alegria vive estampada no rosto de cada pessoa. Em sua visão através da fogueira, as pessoas poderosas eram aquelas que dão a mão a quem tem a mínima precisão que for.

A fogueira tornou-se um portal. O universo parou naquele instante que envolvia dor e mistério, contemplação e êxtase. O menino percebeu quem era e o que poderia ser, em que mundo vivia e para o qual lutaria por transformá-lo.

“Acorda, João! Acorda!” – ele ouviu longe. Logo a voz conhecida se tornou próxima. “Acorda, João!”. Era Zacarias, o pai do pobre menino, atrasado pela falta de transporte, que acabara de chegar. Nas costas trazia um fardo com várias coisas, fogos, alimentos, roupas e alegria no semblante, fortemente marcado pelo tempo e pelo trabalho. Estava feliz em rever o filho. Isabel, a mãe, já estava preocupada com a demora do marido e a tristeza da criança.

O menino João acordou de seu sonho, devolvido ao mundo real através do limiar aberto na luz da fogueira da vizinhança, despertado pela voz enternecida do pai. Abraçou-o, em gesto pouco comum na crueza do sertão. Afinal, ele vira esse carinho na visão do instante anterior.

João não estava mais infeliz. Acordara. Para a vida. A fogueira, mística, lhe revelara que um outro mundo é possível, menos injusto, fraterno e solidário. Agora era possível viver a alegria poética daquele curto interregno de amor.

Uma cantiga popular tocava em alguma casa. O som chegava para embalar a surreal lição que aprendera naquela noite de alegria verdadeira: “São João está dormindo/ Não acorda não!/ Acordai, acordai, acordai, João!”

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"Crer e Lutar para combater amando" - diz Levon Nascimento

Assista aqui ao vídeo com o meu discurso durante a cerimônia do lançamento do meu quinto livro, CRER E LUTAR, ocorrida na noite de 2 de junho de 2017 na Câmara Municipal de Taiobeiras.


domingo, 18 de junho de 2017

Jesus e o CRER E LUTAR

Creio num Jesus misericordioso, não vingativo.

Ele não se importa com as contradições humanas.

Ele vem abraçar as pessoas na história e dá a elas a chance de serem dignas.

Para Jesus não há meritocracia. Não importa a hora do dia em que o sujeito começou a se esforçar. Vale é a dignidade que ele/ela tem, simplesmente por ser humano e amado.

É um Jesus de luta, do lado dos fracos - contra a opressão - da viúva, do órfão, do cego, do coxo...

Ele salva a mulher do apedrejamento machista.

Ele confronta os fariseus que andam com a escritura debaixo do braço, porém fora do coração.

Ele come com os estrangeiros imigrantes impuros e conversa com a samaritana de vários maridos no poço de Jacó.

É ecumênico. Não é xenófobo nem racista.
É possível ter religião e se manter inteligente.

É possível viver a fé sem se tornar um intolerante fanático.

CRER E LUTAR

Poema: A arma e o idiota

* Por Levon Nascimento

A arma nasceu na fábrica
Vendida na loja
Manejada pelo homem do treinamento
Exibida no desfile militar
Paramentou o traje policial
Feriu o manifestante
Iludiu o garoto
Caiu em mãos imprecisas
Deu sensação de poder
Orgasmos de prazer
Tornou-se absoluta
Mais que Deus
Objeto de culto
Autorizou o usuário
Roubada, furtada
Contrabandeada
Sacada pelo bandido
Matou o jovem e o idoso
Manuseada pelo machista
Matou a mulher e as crianças
Entendida como solução
Matou o negro e o favelado
Sonho do idiota
Matou a inteligência nacional
Colocada no altar da ignorância
Pode eleger o político fascista
A morte vive na arma
Fonte de lucros
No bolso do fabricante
A arma nasceu na fábrica
Vendida na loja...
Pá! Pá! Pá!

domingo, 11 de junho de 2017

As guerreiras negras da divisa da Bahia com Minas

Casa de Feliciana e José Martins, ainda de pé em foto de 2007.
 * Por Levon Nascimento

Feliciana era uma mulher negra que viveu no Areial, região próxima do Morro da Feirinha, na zona rural de Condeúba, Bahia, divisa com o norte de Minas Gerais.

Ela fazia peneiras de taquaras retiradas de coqueiros e outras palmeiras, junto com as filhas Joaquina, Rita, Euflosina e Francisca. Era a única riqueza de seu trabalho que conseguiam comercializar. Artesãs de mão cheia! As taquaras eram amarradas com cordão de algodão lubrificado com cera de abelha. Começo, meio e fim do processo produtivo todo dominado por elas.
Fabricação de peneiras de taquaras
A terra onde Feliciana morava ficava sob um pedregulho aos pés do morro. Era assim desde seus pais e avós. Herança dos tempos do cativeiro. Quem sabe, um resquício de quilombo? Talvez, um dos poucos pedaços de chão que sobrou para ela e outros negros da região. Os terrenos bons eram propriedades de brancos.

Mesmo com o rio banhando os fundos da casa, a infertilidade do solo exaustivamente usado por anos não deixava que nenhuma cultura rendesse. No máximo uns pés de mandioca, umas covas de milho e mangueiras que matavam a fome da meninada. E os pés de algodão, para fazer os cordões das peneiras.

Feliciana foi casada com José Martins do Nascimento. Conta-se como lenda que ele foi mais de quarenta vezes a pé a São Paulo para trabalhar. Ganhava muito pouco. Quando chegava, era o suficiente para pagar as dívidas de sobrevivência da família. Já nas últimas expedições à capital paulista, levava consigo alguns dos filhos homens. Retirantes... Viúvas de marido vivo.

Feliciana era rígida. Criou filhos e filhas numa pobreza material imposta pela realidade, mas criativamente rica de significados místicos, morais e éticos desenvolvidos pela capacidade de seu povo em ressignificar as agruras da vida e torná-las palatáveis e belas.

Quando morria um anjo[1] de família negra ou branca, na ausência e na distância das instituições religiosas, era Feliciana e suas filhas que faziam o ritual de colocar o pequeno esquife[2], quando havia caixão, sobre rodias[3] na cabeça, cantando e dançando em círculos durante a sentinela[4], encomendando a pobre e desvalida alminha a Deus e Nossa Senhora. Cerimônia de sentido determinista, conformados que todos estavam com a sina e a naturalidade da mortalidade infantil, mas que remetia à necessidade de continuar vivendo e celebrando, mesmo em meio à miséria social.
Morro da Feirinha, município de Condeúba/BA,
divisa entre a Bahia e o norte de Minas.
Para buscar pindoba, das quais se extraia as taquaras para as peneiras, Feliciana e suas filhas tinham de ir aos boqueirões das terras do Capitão Fabrício, o latifundiário que mandava na região da Feirinha do Morro. Fazenda a perder de vista, matas virgens nas divisas baianas com os sertões geraizeiros. Iam com todo o cuidado, escondidas, porque por diversas vezes foram ameaçadas de espancamento pelos capatazes do senhor de terras, punidas por “invadir” desobedientemente e extrair as riquezas naturais das quais aquele rico homem nem fazia caso. Mas elas insistiam na ousadia. Era preciso viver.

De sexta para sábado, aquelas mulheres negras, vestidas de longas saias pretas e blusas brancas de algodão, por elas mesmas cultivado, tecido, costurado e ornado, punham-se a caminho de Condeúba. Sete léguas[5] de distância, a pé. Sobre as cabeças dezenas de peneiras. Entregavam a preços módicos o fruto sofrido de seu trabalho a comerciantes de Guajeru, que por elas já esperavam. Certamente conseguiam lá na frente dinheiro melhor naqueles produtos.

Uma fila indiana de mulheres negras, corpos esguios, quase sempre famélicas. Enquanto isso passavam os carros de boi das famílias brancas. Cumprimentavam-se, compadres e comadres que eram, mas nenhum se propunha a pelo menos levar a carga de peneiras daquelas criaturas até a feira da cidade-sede do município. Contavam apenas com seus corpos e com a fé nas forças divinas para as quais encaminhavam as pobres alminhas brancas e negras.

No século XIX, na região do atual Benin, na África, os imperialistas brancos se defrontaram com a bravura das guerreiras mino, amazonas negras que desde o nascer recebiam treinamento de suas tribos do Reino de Daomé para dar a vida lutando contra os invasores. Eram as Ahosi. Relatos europeus informam que elas possuíam muito mais vigor, bravura e técnica do que os combatentes do sexo masculino e que só a muito custo se conseguia derrotá-las, quando conseguiam.

Guardadas as devidas proporções, Feliciana e suas filhas, como muitas outras mulheres, foram Ahosis do sertão. Bravas, rigorosas, tecnicamente eficientes, lutadoras numa terra onde tudo lhes ignorava ou era hostil, desafiadoras de uma sociedade que as queria mortas, rebeldes insistindo em viver.

Feliciana morreu em julho de 1976. Eu tinha cinco meses de idade quando isso ocorreu. Ela nasceu e viveu num país que nunca se deu ao trabalho de saber de sua existência. Não tinha documentos, não votava, não era alfabetizada, nunca se aposentou. Retornou ao infinito durante uma feroz ditadura militar que prendia, torturava e matava pessoas que pensavam em construir um Brasil mais digno e justo para os seus descendentes. Feliciana era minha bisavó, mãe de Manoel José do Nascimento, meu avô materno. Uma Ahosi brasileira.

* Levon Nascimento é sociólogo, professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Fundação Perseu Abramo e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.





[1] Criança que morria geralmente antes de completar um ano de vida. Mortalidade infantil.
[2] Caixão de defunto.
[3] Pano enrolado em círculo e posto sobre a cabeça das mulheres para servir de anteparo para o carrego de potes com água e outros objetos pesados.
[4] Velório.
[5] Uma légua, segundo a tradição sertaneja, equivaleria a seis quilômetros.

sábado, 3 de junho de 2017

CRER E LUTAR lançado em Taiobeiras

Público lotou a Câmara Municipal de Taiobeiras
Na noite de sexta, 02 de junho de 2017, realizamos o lançamento do meu livro CRER E LUTAR na Câmara Municipal de Taiobeiras.
Mesa de Honra
Noite bonita, alegre e cheia de cultura e encontros.

De Indaiabira, nossa querida Chiquinha, do Movimento dos Atingidos por Barragens, representou as lutas "do lado certo da História".

De Salinas, o amigo Milton Santiago nos brindou com sua poesia.
Milton Santiago e Ada, sua esposa
De Rio Pardo de Minas, companheiros de luta presentes.
De Rio Pardo de Minas...
De São João do Paraíso, Lídio Ita Blue e família, juntamente com o rapper José Flávio trouxeram a arte alternativa das praças.
De São João do Paraíso...
De Montes Claros, Leninha Alves de Sousa nos motivou com a garra e a determinação do povo sertanejo.
Rosa, Leninha e Nilson
De Taiobeiras, cultura, empreendedorismo, solidariedade, gratidão e arte.

Elisiana Alves presenteou-me com a capa do livro e com a exposição do quadro que a ilustra: "Multiplicação dos pães". Jesus não mandou os famintos embora, individualizados, ele teve compaixão, organizou-os e repartiu o pão para a multidão.
Quadro "Multiplicação dos pães", de Elisiana Alves,
capa de CRER E LUTAR.
Yure Colares, voz, canção, coração e sertão. Tudo junto. Fabiano Alves Pereira, com a maestria da interpretação musical ao teclado, secundado a poesia de Milton Santiago. Felipe Cortez Grimaldy, um talento jovem, vigoroso e que veio para ficar e crescer ainda mais. Toninho, interpretando Utopia de Zé Vicente, foi a expressão da fé que me motivou a escrever este livro e a sempre perseverar na luta por um mundo mais justo.
Apresentação de Felipe Cortez Grimaldy
Intervenções precisas, justas e impactantes de Alex Sandro Mendes, apresentando a obra, de Mônica Alves Costa, representando a classe dos educadores de Taiobeiras, da Irmã Creuza, falando de fé e sinalizando a voz da Igreja, dos nossos patrocinadores-parceiros: seu Gêra, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Gil Alves, da Vogue Calçados, e Carlito Arruda, Arruda Alimentos.
Carlito Arruda, Levon Nascimento e Alex Sandro Mendes
Crianças, jovens e idosos, trabalhadores rurais e militantes de movimentos sociais, estudantes e educadores, artistas e políticos, gente de fé e gente de luta: todos presentes.

Uma noite de festa! Estou muito grato e feliz!