sábado, 26 de novembro de 2016

A gente folclórica de Taiobeiras

* Levon Nascimento

Taiobeiras (e, geralmente, as demais pequenas cidades) é ingrata com as pessoas que brilham ou que têm potencial para crescer no que fazem, especialmente no mundo do livre-pensar, da literatura, da música e das demais artes.

Tenho um tanto de amigos nesta situação. Podem até ser reconhecidos localmente (ou, vítimas da inveja, detestados), mas com o passar dos anos, imersos num mar de medianidade (para não usar termo mais forte, que poderia ser interpretado ofensivamente), tornam-se pitorescos, típicos e (por que não?) folclóricos.

São indivíduos julgados acima da média, mas que não encontram meios de crescer e de avançar por aqui. Tornam-se "pontos turísticos" da aldeia, "patrimônio histórico e cultural" e "museus" a ajuntar poeira da indiferença. Usados como decoração chique em momentos de necessidade especial.

Para os dias atuais, são o que o grande professor Juventino Nunes foi para Salinas na década de 1920: uma luz brilhante ofuscada pela truculência do coronelismo ignorante.

Isto decorre de vários motivos, dente eles a pouca demanda por serviços intelectualmente mais sofisticados, resultado do baixo nível educacional e dos seculares preconceitos em relação à cultura e às artes. Mercadoria de pouca saída. Mas é também fruto de uma política deliberada de negação do saber e de medo das transformações que ele pode provocar.

Para muitos concidadãos, só é gente por aqui quem anda de carro de luxo e ostenta grifes de primeira.

* Professor da rede estadual, escritor e mestrando em "Estado, Governo e Políticas Públicas".

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A República dos golpes

Deodoro da Fonseca
* Levon Nascimento
A República brasileira começou há exatamente 127 anos com um golpe de Estado contra o governo do imperador Dom Pedro II, não por apreço aos valores republicanos, mas em vingança à princesa Isabel, herdeira do trono, que um ano antes havia assinado a abolição da escravatura negra. Um misto de machismo e ódio de classe. Qualquer semelhança com a deposição de Dilma Rousseff em 2016 não é mera coincidência.
Golpe comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca (leia-se: os militares do Exército brasileiro, motivados pelo positivismo racista, última moda importada no final do século XIX). Atrás de si, um séquito de homens brancos, ricos, racistas e autoritários. Qualquer semelhança com o governo de Temer em 2016 não é mera coincidência.
De lá até aqui, é sempre com golpes de Estado que a elite brasileira se perpetua no poder. Uma lista longa: república do café-com-leite, "revolução" de 30, Estado Novo, golpe militar de 64, golpe parlamentar de 2016.

E, igualmente, é da mesma forma que combatem os movimentos sociais: Canudos, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Contestado, Intentona Comunista, Ligas Camponesas, movimento estudantil, MST, etc.

Aristides Lobo, naquele longínquo 15 de novembro de 1889, em que a República foi proclamada, narrou que "o povo assistiu àquilo bestializado". Continua a bestialização pela tela da Globo.

sábado, 12 de novembro de 2016

Doutrinação: professores e mídia

* Levon Nascimento

Indivíduos, grupos políticos ou regimes com características autoritárias sempre fizeram a aposta na burrice humana e na infantilização da opinião. Falam ao povo como se estivessem se dirigindo a uma criança de cinco anos. Dividem o mundo entre o lado do bem e o lado do mau. Inventam um inimigo, exageram no medo coletivo e o atacam através de ofensas de baixo nível, ao invés de utilizarem argumentos racionais. Este é o quadro momentâneo do Brasil. Esta é a triste realidade do mundo atual.

De Brasília a Taiobeiras, do norte ao sul, da boca de Michel Temer à cavidade oral de um pobre diabo que pensa que não será atingido pelo desastre que a PEC 241 (55) produzirá, o que se houve e se vê é a desqualificação de quem exercita a capacidade intelectual e moral de criticar.

“Estão aí protestando, ocupando escolas, mas nem sabem o que é PEC!” – dizem. “São uns vagabundos cabulando aula! Por que não vão estudar?” – rosnam. “É tudo doutrinado por esses professores comunistas” – mentem e acreditam na própria mentira.

Como não podem debater através da racionalidade, pois esta fatalmente acabaria por dar a vitória aos manifestantes contrários ao golpe de estado e à PEC, tratam de desqualificar, demonizar e ridicularizar os indivíduos e grupos que resistem à retirada de direitos. Isto é um fenômeno típico de fascistas.

O fascismo é um regime de direita que aparece nos momentos de crise econômica do capitalismo. É irracional, porque baseado na exploração do medo que as pessoas têm do diferente e do futuro.

Os regimes fascistas mais conhecidos e trágicos da história foram o italiano e o alemão. Nasceram e cresceram no período entre a primeira e a segunda guerra mundial (1918 a 1939), justamente em um momento de forte crise econômica (1929), de desilusão com a classe política e de medo dos inimigos internos e externos (judeus, dentro; e comunistas da Revolução Russa, fora).

O resultado desses regimes, todos conhecem: o holocausto judeu e a segunda grande guerra.

As primeiras vítimas do fascismo são o conhecimento e a razão. Pessoas críticas e inteligentes não são suportadas por regimes autoritários: civis, como agora; ou militares, como em 1964.

Neste contexto, querem implantar a lei chamada “Escola Sem Partido”, justamente para retirar dos educadores brasileiros o direito à liberdade de expressão em sala de aula. Acusam os professores, especialmente das matérias de humanidades, de estarem doutrinando os alunos para serem comunistas ou – mais hilário ainda – petistas bolivarianos.

É uma aposta na imbecilidade que poderá custar caro à inteligência do país. É proposital da parte de quem está no comando. É involuntário em mentes condicionadas pelo autoritarismo ou pelo servilismo social que caracteriza as relações históricas no Brasil.

Cidadãos críticos desestabilizam governos autoritários. Mentes que estudam não aceitam o alto grau de retirada de direitos e de destruição do Estado nacional, como o que ocorre no Brasil pós-golpe de 2016.

Juntamente com o ataque à Educação através do “Escola Sem Partido”, acontece a criminalização dos movimentos sociais. Os jovens que estão ocupando escolas são tachados de baderneiros e vagabundos. Sem-terras, sem-tetos, lideranças de partidos de esquerda e outros grupos de luta são perseguidos pelo aparato estatal como se fossem bandidos contumazes e perigosos.

Contraditoriamente, quem de fato pratica doutrinação é a grande mídia do país. As reportagens são tendenciosas e seletivas, sem a mínima preocupação de demonstrar imparcialidade jornalística. Praticam-se diariamente assassinatos de reputação, sem direito a defesa, contra os inimigos da grande burguesia nacional. Os programas policiais de fim de tarde atiçam o medo, o ódio e a vontade de vingança. As telenovelas e os demais programas incentivam o consumismo e a futilidade.

As massas que saíram às ruas para protestar contra a corrupção do governo petista, vestidas com a camisa amarela da corrupta CBF, foram “convidadas” pelas principais redes de televisão e por outros tipos de veículos de comunicação da grande imprensa. A cada meia hora, os canais de TV entravam ao vivo para mostrar e elogiar as manifestações, classificadas como pacíficas e democráticas. No entanto, o que se via era pessoas gritando: “somos milhões de Cunhas”, “morte ao Lula”, “nordestinos burros não sabem votar”, “pelo fim da ditadura comunista no Brasil”, “basta de Paulo Freire”, “Dilma vaca!”, “contra a invasão bolivariana no Brasil” e, mais recentemente, “contra a comunista Hillary Clinton” e “Trump, estamos com você”.

Democraticamente puderam sair às ruas para gritar palavrões contra a presidenta-eleita da República, sem sofrer nenhum tipo de repressão. Mesmo assim, afirmavam estar lutando contra uma “ditadura comunista e bolivariana” que iria mudar a cor da bandeira verde e amarela para vermelho.

No entanto, quando mil escolas brasileiras estão ocupadas por estudantes secundaristas e universitários contra os cortes em educação e saúde; quando milícias fascistas atacam os estudantes em ocupação sem qualquer reação das instituições do Estado; quando policiais invadem a escola do MST sem mandado judicial; quando índios são mortos por fazendeiros em suas próprias terras; e quando líderes de movimentos sociais são fichados como meliantes, nada é informado na TV. E quando mostram, é para por mais lenha na fogueira, desqualificando quem luta.

Burrices como estas e outras, gritadas nas ruas e nas redes sociais pelos zumbis amarelos, não são exclusividade do Brasil. No mundo inteiro, o fenômeno é o mesmo. Há um vento conservador e autoritário no ar.

Donald Trump ganhou a eleição presidencial dos Estados Unidos com um discurso parecido, apostando na irracionalidade, embalado em racismo e machismo, reverberando ódio e estimulando o medo do outro. Conseguiu até ressuscitar a defunta Ku Klux Klan, organização terrorista branca norte-americana que no passado lutou contra o fim da escravidão negra.

"Nosso objetivo é devolver a América à nação cristã branca. (...) Isto não significa que queremos que nada de ruim aconteça às raças mais escuras. Simplesmente queremos viver separados delas" – é o que está escrito em um manifesto dessa organização convocando uma marcha para celebrar a vitória do magnata de cabelos amarelos.

A onda fascista não aparece do nada. No entreguerras e agora, ela é fruto da grave crise econômica do capitalismo. Quando a grande burguesia sente que vai perder muito dinheiro, não hesita em abrir mão de seus próprios valores liberais: liberdade, igualdade e fraternidade. Atira-se sem pudores nos braços do autoritarismo de direita. No passado, Hitler e Mussolini representaram a válvula de escape. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos nada fizeram contra o führer enquanto ele parecia ser a solução para o inimigo comum, a comunista União Soviética. Só se deram conta do erro quando as bombas alemãs caíram sobre Londres. Paris, humilhada, viu o próprio líder nazista desfilar sob seu arco do triunfo. Na esteira da crise de 2008, estaríamos a reviver o passado?

O caso brasileiro é ainda mais grave. Numa nação marcada pela secular desigualdade, a onda fascista serve à Casa Grande, aquela pequena porção de bem nascidos que não engoliu até hoje os programas sociais, criados por Lula, que deram uma pequena chance aos pobres deste país. É sua arma para fazer o povo voltar à Senzala.

O melhor exemplo da verdadeira doutrinação que sofre o Brasil – a midiática – é ver que somente a corrupção atribuída ao PT gera revolta. Nunca se roubou tanto e tão descaradamente como nestes dias depois do afastamento de Dilma Rousseff, mas não se vê uma manifestação que seja de gente vestida de amarelo contra isso.

Os pobres professores brasileiros pagarão o pato da alienação nacional. Perigosos terroristas que são, deverão ser amordaçados para não corromperem a inocência da juventude canarinha. “Ordem e Progresso” aos nossos jovens! Inteligência, não!

Viva a burrice! Ela herdará a Terra.

* Levon Nascimento é professor de história e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/ Seção Brasil.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Trump, o muro; Francisco, a ponte

* Uma crise econômica mundial em 2008, ainda não resolvida.

* A "primavera" árabe.

* O recrudescimento dos fundamentalismos de todos os matizes.

* A crise imigratória na Europa.

* O esquecimento sempre perene da África.

* A Rússia se preparando para a guerra.

* O cerco oligárquico aos governos progressistas da América Latina.

* Um golpe de estado parlamentar, jurídico e midiático no Brasil, em favor do capital financeiro e da desnacionalização dos recursos do país.

* Agora, a cereja do bolo: a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, cuja principal proposta é construir um muro na fronteira com o México. Não que Hillary Clinton fosse substancialmente melhor.

* Bem-vindos aos novos velhos tempos de direita.

Só nos resta o Papa Francisco como sinal de esperança!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Bandido bom é bandido morto?

Competição mercadista + consumismo + perca da referência de valores coletivos + estímulo constante à ambição + falta de educação libertadora + acesso precário à saúde + jornada de trabalho longa, que desune as famílias + desemprego +  lavagem cerebral da mídia comercial + drogas + intolerância + preconceito + machismo + racismo + misoginia + homofobia + agressões intra ou extra-familiares + retenção de recursos e políticas públicas insuficientes = alguns fatores da complexa cadeia que gera a violência cruel da atualidade brasileira.

Gritar "Bandido bom é bandido morto" sem levar em conta tudo isso é se tornar um ser humano pior do que o criminoso que se deseja combater.

domingo, 6 de novembro de 2016

Taiobeiras, por Levon Nascimento

A menina dos olhos
Do Alto Rio Pardo
Tanto chorou, chorou
Pelos filhos mortos
Na violência do consumo
Que sem lágrimas
E sem água
Ficou, secou.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O interminável 2016

Ana Júlia: "a menina que fala por nós".
* Levon Nascimento

Este ano ficará marcado na história do Brasil como aquele em que um golpe de estado foi desferido pela “treta” entre a mídia, o parlamento, o judiciário e as corporações estatais (ministério público e polícia federal) contra uma mulher honesta, a primeira brasileira eleita para a presidência da República, pelo motivo fútil das “pedaladas fiscais” – artifício anteriormente praticado sem nenhuma consequência grave por todos os seus antecessores – e pela adesão dos golpistas a todos os pressupostos ultraliberais e fascistas que põem em risco o Estado Democrático de Direito pactuado pela Constituição de 1988 e os direitos trabalhistas herdados da era Vargas. Não foram apenas Lula, as esquerdas ou os movimentos sociais os derrotados, mas as garantias mínimas para a construção de uma Nação civilizada que saíram gravemente feridas deste triste episódio.

Os erros do governo Dilma, típicos do presidencialismo de coalizão, e o agravamento da crise mundial do capitalismo no Brasil deram a senha para um impeachment sem outro fundamento senão a inconformidade do candidato perdedor de 2014 com a derrota que teve nas urnas.

Com o golpe, veio o fascismo. Exemplos se encontram na famosa “operação lava-jato”, seletiva até a raiz do fio de cabelo mais recôndito de seu magistrado-símbolo. As delações premiadas que revelam nomes de políticos do tucanato e da direita em geral são trancadas a sete chaves em gavetas mágicas, enquanto que o apuro desmesurado de supostas irregularidades na posse de sítios e de apartamentos que, por mais que se comprove não pertencerem ao presidente mais popular da história brasileira, servem para desgastá-lo e ao seu partido, judicial e eleitoralmente, à exaustão. Prisões temporárias convertidas em “perpétuas”. Calendário de operações com timing midiático e focado nas eleições. Rigor inquisitorial para petistas e leniência com fraudadores bilionários alinhados à banca financista. Torquemada, Mussolini e Franco teriam inveja.

O fascio também se faz notar na escandalização da opinião divergente. Ouve-se: “Ah, mas a menina que discursou no Paraná é filha de um advogado petista”. Escreve-se: “Tem escola colocando petista pra (sic) dar ‘palestra’ falando mau (sic) da PEC 241 com desculpa de q (sic) serve pro (sic) ENEM”. É como se o fato de ser petista ou esquerdista invalidasse o direito inalienável à opinião, à participação política ou obscurecesse as verdades contidas nos discursos de indivíduos ou de grupos sociais não alinhados ao pensamento dos golpistas. Em outras palavras: patrulhamento ideológico e censura.

No entanto, nada é mais sintomático do fascismo do que o sumiço das hordas de zumbis “apartidários”, vestidos de camisas amarelas, quando o assunto é a supressão dos direitos dos pobres e dos trabalhadores pelo governo golpista.

O Estado Democrático de Direito advindo de 1988 é solenemente atacado quando o Supremo Tribunal Federal, último guardião da Constituição, a pisoteia ferindo de morte o direito de greve, a permitir que governos “cortem o ponto” de grevistas do serviço público mesmo sem que a paralisação tenha sido declarada ilegal. Ou quanto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é relativizada em favor de convenções coletivas ou acordos com o patronato. Além, quando um juiz de primeira instância manda invadir o Senado e outro, no Distrito Federal, ordena que a polícia aplique práticas de tortura psicológica em menores de idade, afim de que estudantes legitimamente exercendo sua cidadania desocupem a escola que lhes pertence.

Tal despropósito também se faz notar quando o Ministério da Educação (MEC), ao invés do diálogo com os estudantes que ocupam as escolas, prefere utilizar a velha tática de dividir para conquistar, colocando alunos contra alunos, como no caso do adiamento do ENEM para aqueles candidatos que fariam as provas nas instituições convertidas em espaço de resistência. Estes adolescentes lutam em seus educandários por contrariedade com a reforma arbitrária do Ensino Médio, por não aceitarem o projeto de mordaça denominado “escola sem partido” e indignados com a famigerada PEC 241, agora PEC 55 no Senado, a qual congelará os investimentos em saúde, educação e seguridade social por 20 anos. Vale lembrar que os TREs dialogaram com o movimento estudantil e conseguiram realizar o 2º turno das eleições municipais sem maiores transtornos. Por que o MEC não poderia fazer o mesmo com o ENEM? Canalhice, talvez a melhor resposta.

Os brasileiros ainda estão adormecidos ou intoxicados. Uns dormem o sono da negação da política, afirmando que “nenhum presta”, “voto nulo” ou que “é tudo ladrão”, do jeito que os programas policiais de fim de tarde lhes hipnotizaram. Outros estão envenenados pela lavagem cerebral midiática que lhes manda gritar “o PT quebrou o Brasil”, “fora PT” ou “Lula na cadeia”. Quando acordarem ou se descontaminarem, os direitos já terão sido retirados e o sonho de um país soberano e justo terá se convertido em pesadelo.

Por hora, à exceção de Ana Júlia Ribeiro, a adolescente de 16 anos que pôs o dedo na cara dos deputados paranaenses, não há sinais de esperança para 2017.


* Levon Nascimento é professor de história, graduado em Ciências Sociais e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.

sábado, 15 de outubro de 2016

Os erros do PT

* Levon Nascimento
A questão vai muito além dos erros do PT ou da esquerda. Erramos muito, com certeza, e estamos pagando por isso. Mas os ataques da direita se concentram justamente nos acertos e nas virtudes do PT, ou seja, nos direitos sociais, no fortalecimento do mercado interno e nas políticas de inclusão construídas nos governos de Lula e Dilma.
Para a direita nativa, é preciso confinar novamente a "negrada" à senzala, de onde nunca deveria ter saído. Onde já se viu pobre estudar em cursos antes reservados às "castas superiores"? Parece uma mistificação essa pergunta anterior, mas é exatamente como pensa o setor que foi às ruas, espumando de ódio fascista, nas tais manifestações "contra a corrupção" (dos outros), vestido de amarelo-cbf.
Mas, o atual momento também não pode ser compreendido fora do contexto mundial. Trata-se do rearranjo das forças do capital, golpeadas pela crise que se iniciou em 2008 nos EUA, buscando a qualquer custo manterem-se vivas. Para elas, o lugar destinado ao Brasil sempre foi e será o de colônia dócil, aberta sem resistência ao imperialismo do Norte. Nada de política externa ativa e altiva como na Era Lula!
Enfim, os pecados do PT e da esquerda foram vários e, talvez, imperdoáveis, mas nenhum foi maior do que ambicionar construir uma Nação mais justa e forte ao sul da linha do equador. E não há, nunca houve e nem haverá opção pura, sob o risco de continuarmos em nosso letárgico messianismo, sempre à busca de um salvador da Pátria.
O caminho é que os trabalhadores e os pobres se envolvam na política e a tornem parte de suas vidas
* Professor de História e mestrando em "Estado, Governo e Politicas Públicas" pela Flacso/FPA.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

As urnas falaram

Cantor e compositor Yure Colares, numa performance
política durante as eleições de 2016.
* Levon Nascimento

Na primeira eleição depois do golpe de estado jurídico-midiático-parlamentar, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, as urnas revelaram um Brasil bravo, arredio e revoltado com a política, a um passo da indiferença e do fascismo. Vejamos:

O PT foi a maior vítima. De seus próprios erros, dentre os quais o de acreditar que seria possível fazer política conciliando-se com a “casa grande” e utilizando os velhos métodos dela. Mas, também, da longa perseguição midiática que fez a maioria dos brasileiros acreditar que a corrupção nasceu com o partido de Lula e que somente o PT é corrupto. PSDB e PMDB, campeões de todas as listas de políticos mais corrompidos do país, saíram ilesos e vitoriosos na disputa. A mídia cartelizada, que odeia políticas públicas de inclusão social, foi a grande vencedora da rodada.

No Alto Rio Pardo, a mudança predominou, ainda que para mais do mesmo. Em Taiobeiras, apesar da reeleição do grupo tucano, não houve consagração. A diferença foi mínima e, a julgar pelo crescimento do candidato opositor na reta final, se a campanha eleitoral tivesse durado mais uma semana, o PSDB teria sido escorraçado do mapa político da cidade.

Em Taiobeiras, apesar de ser pleno século XXI, ainda há políticos que se utilizam da vulnerabilidade mais básica do ser humano, distribuindo cestas de alimentos aos necessitados, com a certeza de poder manipular uma das maiores conquistas da civilização moderna: o direito universal do voto. Pior, valendo-se de sujeitos hipócritas que se escondem por detrás da capa da caridade e da demagogia comunicativa de baixa extração.

Como não confio mais nas instituições brasileiras, sobretudo nas jurídicas, especialmente depois da vergonhosa deposição de Dilma Rousseff sem ter cometido crime de responsabilidade, sob o silêncio vergonhoso do STF e a cumplicidade do MPF, acredito que não se fará justiça quanto à escandalosa compra de votos registrada em vídeos e divulgada pelas redes sociais. Mas, muita gente, principalmente a juventude taiobeirense, crê e espera.

Neste item, um componente de esperança. O candidato Carlito Arruda conseguiu desprender uma valiosa energia jovem com sua campanha pela mudança em Taiobeiras. Ao tocar em temas-chaves para as políticas públicas, como água, segurança e educação, atraiu personagens novos que nunca se tinha percebido na política municipal. Os vídeos feitos por esses novos atores e espalhados na velocidade pós-moderna da internet, demonstram dinamismo, diversidade étnica e de gênero e pautas que nunca estiveram nas mesas dos políticos tradicionais. Agora, Carlito Arruda tem um tesouro nas mãos. Em tempos de neofascismo planetário, o empresário do ramo dos condimentos conta com um público marcadamente jovem, progressista e favorável às políticas públicas de inclusão social. Cabe a ele temperar na medida certa os próximos quatro anos.

2016 ainda não acabou, mas deixa a marca histórica como o ano em que os brasileiros desprezaram a política ao mesmo tempo em que o rico pré-sal é entregue de graça às multinacionais estrangeiras. Votos brancos, nulos e abstenções foram as celebridades da urna. Resultado da campanha sistemática de criminalização dos políticos e da democracia. Esse filme nós já vimos na Alemanha às vésperas da ascensão de Hitler e do nazismo. Oxalá, não haja reprise na sessão da tarde.

* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.

sábado, 27 de agosto de 2016

Artigo do Levon: O fim do governo da primeira mulher

Dilma e Lula na noite da vitória de Dilma em 2010
Está chegando ao fim o governo da presidenta Dilma Rousseff e os anos do PT no comando central da República. Injustamente, pois este final se dará por um golpe de estado parlamentar, midiático, judicial e institucional. Ela não cometeu crime de responsabilidade e é honesta. Nada se comprovou contra Dilma, que teve sua vida vasculhada de ponta a ponta. Pelo contrário, ofenderam-na desde o dia em que se soube que seria candidata à presidência da República. Na pessoa de Dilma, o machismo estrutural revelou sua face mais torpe e cruel contra todas as mulheres da Nação. Aliás, a primeira mulher a alcançar o mais alto posto do estabilishment brasileiro foi também a nossa chefe de Estado mais vilipendiada de todos os tempos.
Mulher de fibra, fiel aos princípios democráticos e de extremado amor ao povo do Brasil, Dilma Rousseff será deposta na próxima segunda ou terça, 29 ou 30 de agosto. Tristes agostos para a política brasileira!
Chegará ao fim um dos mais belos períodos da História deste país. Época em que, pela primeira vez, os pobres, os pequenos, os negros, as mulheres, os homossexuais, os marginalizados e os trabalhadores tiveram vez e prioridade nas políticas do governo brasileiro. Tempo de ouro que começou em 2002, com a eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva.
Dificilmente veremos, nas próximas duas ou três gerações, um tempo tão belo e frutífero quanto este que a ganância de nossa torpe burguesia, amparada por uma classe média néscia, fez se eclipsar.
Meu registo, nestes dias tão tristes, para a História. Eu vivi os dias de Lula e de Dilma na presidência do Brasil. Nunca houve governantes tão dedicados à causa do Brasil, tão empenhados em fazer melhorar a vida da maioria e tão barbaramente perseguidos nesta terra. Erros, cometeram, muitos. A autocrítica partidária deverá ser feita. Mas isto não apaga o brilho do que foi construído e conquistado. A História nos dará razão. Afinal, estamos do lado certo da História!
Levon Nascimento, 27 de agosto de 2016.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Artigo do Levon: A última carta de Dilma

Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita presidenta
da República brasileira. Vítima de um golpe de Estado.
A carta proclamada pela presidenta-eleita Dilma Rousseff ao Povo Brasileiro e ao Senado da República, na tarde desta terça, 16 de agosto de 2016, tem tudo para se tornar um documento histórico.

Histórico porque representa a última ação, em favor da manutenção da democracia brasileira, de uma mulher íntegra, honesta, que não cometeu crime de responsabilidade, a primeira do sexo feminino a ser eleita e reeleita para o mais alto cargo do Estado brasileiro, conclamando a Nação a resistir a mais um golpe de estado. Lembre-se de que o Brasil é o país onde este tipo de golpe é a regra e não a exceção.

Dilma Rousseff teve problemas em seus governos, errou muito, mas acertou outro tanto. Buscou governar para os pequenos, os fracos, os pobres e os trabalhadores. Não teve jogo de cintura para lidar com a gula insaciável do mercado e nem com os gangsteres que povoam a política brasileira desde que Cabral pôs os pés em Porto Seguro. Talvez, aí esteja o maior erro de Dilma. Não fez concessões a Eduardo Cunha e sua gangue. Isto lhe custou o mandato conferido por 54 milhões e meio de brasileiros.

O petrolão, a Lava-jato, a piração religiosa em torno da polêmica do aborto, a misoginia, a imbecilidade política da classe média, o machismo e o racismo contra sua política inclusiva fizeram um inferno cotidiano sobre o qual Dilma Rousseff teve que ter estômago mais pródigo do que o de avestruz. Dilma foi duas vezes torturada: na ditadura passada (1964-1985), em favor da democracia; na ditadura midiático-judiciária dos golpistas hodiernos, novamente pelos valores democráticos.

Dilma Rousseff é uma mulher de fibra, como muitas brasileiras anônimas, autêntica e patriota. Pena que milhões de brasileiros levarão umas duas gerações até perceber que crucificaram a pessoa honesta e colocaram livres os verdadeiros bandidos, de quebra, entregando-lhes o poder sobre a Nação!

Na carta, Dilma pede a chance de voltar à presidência para convocar um plebiscito no qual os brasileiros escolheriam em manter o seu mandato até 2018 ou convocar novas eleições. Não acredito que a maioria do Senado, tão subserviente aos interesses do capital financeiro e seus próprios, inconfessáveis e particularistas, se comoverá. O "golpeachment" se efetivará. Dilma Rousseff e os anos de ouro dos governos do PT, nos quais pobre teve vez na agenda pública, ficarão para a História fazer justiça. Num primeiro momento, condenados pelo efeito da manipulação da manada. No futuro, como símbolo do Brasil que quase deu certo, não fosse sua elite perdulária e sua emburrecida classe média.

Hoje, sinceramente, não tenho mais esperanças na política e nem acredito em eleições num regime que depõe uma mulher honesta para entregar o poder a homens brancos, velhos, ricos e corruptos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Sobre "fakes" e esperança


Tenho a impressão de que aqui em Taiobeiras há uma fábrica de "fakes" nos porões "elitizados". Gente que tenta desesperadamente passar a ideia de que é ilibada, virtuosa e moralista. Na prática, escondida por detrás dos recursos tecnológicos, e sob anonimato, revela a obscura face degenerada, preconceituosa, racista, ególatra e cínica que a define como criatura humana - e ruge como um celerado infectado pelo vírus da raiva.
Há figuras respeitáveis nessa "elite", pelas quais, mesmo eu discordando das ideias ou da posição política, tenho enorme carinho e consideração. Pena, porém, das figuras pobres, apesar da boa renda e patrimônio. Moralmente, intelectualmente e politicamente pauperizadas e apodrecidas.
A minha esperança é a de que essas figuras do submundo, um dia, cheguem à maturação da civilidade. Apenas isto.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

PT de Taiobeiras definiu pré-candidatos a vereador(a)

Geraldin do Sindicato durante a convenção do PT
No último sábado, 30 de julho, os filiados do Partido dos Trabalhadores em Taiobeiras se reuniram em convenção para decidir e aprovar as pré-candidaturas ao cargo de vereador(a) e a coligação majoritária com os partidos que apoiarão as candidaturas de Carlito Arruda para prefeito e Valmir Pezão para vice-prefeito.


Professora Marileide durante a convenção do PT
Os pré-candidatos a vereador(a) pelo PT são:
* Geraldo Caldeira Barbosa, o Geraldin do Sindicato, presidente-licenciado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Taiobeiras e morador da comunidade de Manteiga.

* Marileide Alves Pinheiro, professora da rede estadual de ensino e ativista cultural do grupo Arte Em Cena.
* Valdete Rodrigues de Oliveira, estudante secundarista, participante de grupos de jovens e morador do bairro Planalto.


Valdete Oliveira durante a convenção do PT
Durante a convenção, o PT de Taiobeiras também aprovou a resolução na qual sublinha o compromisso de defender as políticas públicas de inclusão social e de defesa das categorias sociais marginalizadas e oprimidas da sociedade taiobeirense.

A coligação de vereadores que o PT integra foi "batizada" com o sugestivo título de "Taiobeiras tem sede de paz". Já a coligação majoritária (de prefeito) ficou oficializada como "Taiobeiras tem sede de mudança".

A campanha eleitoral de 2016 tem elementos inéditos, definidos pela nova legislação eleitoral, a qual diminuiu pela metade o tempo de campanha, que começa em meados de agosto.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Poema: O lado certo da História

Levon Nascimento


Que estamos do lado certo da História,
Nunca tive dúvidas.
Que isto não nos sirva de consolo,
Nem de desculpas para parar a luta.
A luta continua,
Antes, pelo avanço
Da democracia brasileira.
Agora, para que a democracia
E os direitos não se percam.
Quem é de luta está comigo
E eu com ele(a).
Aos golpistas,
A lata de lixo
E a vala comum.

domingo, 31 de julho de 2016

PT Taiobeiras realiza convenção para eleições 2016

Na tarde de sábado, 30 de julho de 2016, o PT de Taiobeiras realizou a Convenção Municipal que escolheu os candidatos petistas a vereador e oficializou sua participação na coligação majoritária "Taiobeiras tem sede de mudança", composta também pelo PMDB, PDT, PTB, SD, PHS e PSD, a qual lançará o empresário Carlito Arruda (PMDB) e o vereador Valmir Pezão (PMDB), respectivamente, como candidatos a prefeito e vice-prefeito.

Durante a convenção, os pré-candidatos assinaram o Compromisso Partidário do Candidato e da Candidata Petista. Também foi lida a resolução aprovada no Encontro Municipal do PT ocorrido em 20 de julho de 2016.

Dentre os principais pontos da resolução, destacam-se:

"1. Os candidatos e as candidatas do PT de Taiobeiras defenderão publicamente, durante a campanha, os avanços, as conquistas e os direitos garantidos durante os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma.
2. Os candidatos e as candidatas do PT de Taiobeiras, sempre que necessário, divulgarão as várias obras e os recursos que entraram no município de Taiobeiras por meio das ações dos governos de Lula, de Dilma e de Fernando Pimentel.
3. Os candidatos e as candidatas do PT de Taiobeiras denunciarão, durante toda a campanha, o golpe jurídico, midiático e parlamentar contra o mandato democraticamente eleito da presidenta Dilma Rousseff."

Ficaram aprovados como pré-candidatos do PT de Taiobeiras ao cargo de vereador(a), os(as) filiados(as) Geraldo Caldeira Barbosa (Geraldinho do Sindicato dos Trabalhadores Rurais), Marileide Alves Pinheiro (professora) e o jovem Valdete Rodrigues de Oliveira.

Papa Francisco: diálogo ao invés de vigança

O papa Francisco, lúcido e cristão, apela ao diálogo fraterno com todas as religiões, ao entendimento e ao amor, mesmo diante de um padre católico degolado por terroristas islâmicos. Não prega o ódio, a vingança ou a guerra. Age como seu Mestre e Senhor, Jesus Cristo.
Triste é ver católicos tradicionalistas criticando o papa por não demonstrar ira ou convocar uma nova cruzada contra o Islã. Essa gente é como os fascistas que querem mais armas nas mãos dos cidadãos ante a violência urbana, reduzir a maioridade penal ou aprovar penas de prisão perpétua ou de morte. Se não forem os mesmos. Eles se nutrem de raiva.
Está certo o papa Francisco por não sucumbir aos sentimentos sanguinários nem vingativos. O autêntico sucessor do apóstolo Pedro, representante de Jesus na Terra, tem de ser ponte (pontífice) entre os homens de diversas raças e culturas, entre a humanidade e o Pai celestial.
Estou contigo, Francisco!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Artigo do Levon: Os desafios atuais do Partido dos Trabalhadores

* Levon Nascimento

O Partido dos Trabalhadores é a principal força política construída pelas classes trabalhadoras brasileiras. Após alcançar o poder central e nele permanecer por quase quatro mandatos, em 2016 o PT é apeado por um golpe jurídico-parlamentar e precisa encarar os desafios da atualidade para se manter como sujeito ativo na política nacional, dentre eles: superar o pragmatismo excessivo que o deslocou da esquerda para o “centrão”, enfrentar o processo de criminalização de suas ações políticas por parte da mídia e de setores do Ministério Público e do Judiciário e, ao cabo, apresentar-se como força renovada, em ideologia e em lideranças, capaz de dar um novo rumo à luta popular brasileira.

Durante os governos petistas, os critérios rígidos para admissão de novos filiados e de alianças cederam lugar ao pragmatismo nas relações com os demais atores políticos, em nome da governabilidade exigida pelo presidencialismo de coalizão – típico desde a redemocratização. Episódio ilustrativo foi a atuação desencontrada na recente eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, após a renúncia de Eduardo Cunha. Isso afasta a militância e desfigura a essência do partido. Se as direções não encararem com seriedade a recuperação do projeto do PT e valarem-se das boas experiências dos modos petistas de governar e de legislar, readequando-as ao contexto, estarão por acelerar a perda de protagonismo e a dispersão de quadros em futuro breve.

Porém, a ameaça mais grave para o PT é a caçada despudorada empreendida pela grande mídia nacional, em conluio com setores encastelados do Ministério Público e do Judiciário. Eles querem a derrocada eleitoral do PT e a criminalização de suas ações. Iniciou-se com o “mensalão”, em 2005, agravou-se com o julgamento da AP 470 pelo STF, em 2012, e revelou todo o caráter golpista com a operação “Lava-jato”, de 2014 ao presente. Para não ser arbitrariamente suprimido do cenário político brasileiro, o PT precisa voltar ao berço dos movimentos sociais e populares e garantir a legitimidade necessária contra a reação das classes dominantes, representadas pela mídia e pela aristocracia jurídica. Estas o veem como o principal adversário do secular projeto de poder das elites nacionais e estão dispostas a tudo para varrê-lo do mapa político, a exemplo do golpe de estado em curso.

O PT também tem de retomar a sua grande capacidade de se reinventar. É necessário reaproximar-se da práxis – viver o que prega – e recobrar a desenvoltura, na descoberta e formação de novas lideranças do campo de esquerda e dos movimentos sociais. Sem líderes e ideias atuais, fatalmente será tragado para a obsolescência. Figuras como Fernando Haddad e uma miríade de quadros dispersos país a fora, se tocadas por um consistente projeto petista, popular e de esquerda, poderão dar ao partido mais algumas décadas de protagonismo na política do Brasil. Também o PED – Processo de Eleições Diretas – do PT deverá sustentar a possibilidade de que as novas gerações ascendam ao comando partidário.

Os desafios do PT são enormes e podem destruí-lo se não enfrentados com criatividade e devida consciência de gravidade. A perda de jovialidade do partido pesa contra. A favor, sua grande capacidade de sair maior das crises que enfrenta. Historicamente, o PT é a maior revelação do que o movimento popular brasileiro é capaz em termos de organização política. Se se recobrar de seu passado, o PT talvez possa vencer a sua maior crise.

domingo, 17 de julho de 2016

Romaria dos Mártires da Caminhada 2016

Encerrou-se hoje a edição 2016 da Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, local onde o padre João Bosco Penido Burnier foi assassinado pela polícia durante a Ditadura Militar (outubro de 1976), por defender os direitos dos índios, dos pobres e dos ribeirinhos daquela região.
No dia do atentado contra o padre João Bosco (11/10/1976), ele e Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia (MT), foram à cadeia interceder por duas mulheres que estavam sendo torturadas. Na verdade, os policiais queriam matar o bispo Casaldáliga, que foi poupado daquela barbárie porque os algozes o confundiram com o padre João Bosco.
Nos dias seguintes ao martírio, o povo destruiu a cadeia, afugentou os policiais criminosos e, no local, ergueu uma igreja, o Santuário dos Mártires da Caminhada, numa evidente declaração de luta contra a ditadura brasileira.
Durante a Romaria dos Mártires da Caminhada, militantes das comunidades eclesiais de base, das pastorais sociais e dos grupos ligados à teologia da libertação católica meditam e celebram a memória de todos os que deram a vida pela causa da justiça, associando-os à causa de Jesus.
Que o sangue dos mártires da caminhada brasileira e latino-americana, unido ao sangue de Cristo martirizado-ressuscitado, nos anime na luta contra a nova ditadura que ora surge do golpe e na construção de um mundo novo, justo, solidário e fraterno! Venha teu Reino, Jesus!

sábado, 9 de julho de 2016

Novo FEBEAPÁ: o golpe de 2016

FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) é o título de uma série de três livros escritos pelo cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 — 30 de setembro de 1968), mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta. No FEBEAPÁ, Ponte Preta ironizava as pérolas dos anos iniciais da Ditadura Militar brasileira. Pois não é que com o golpe de 2016, um novo FEBEAPÁ está acontecendo na vida política e social brasileira!
Conta-nos, Stanislaw, que nos anos 60 do século passado, a repressão invadiu um sindicato à procura de todos os livros do "comunista comedor de criancinhas" Karl Marx, o velho filósofo alemão que viveu no século XIX, mas que acabou fichado no DOPS (órgão da ditadura brasileira) como figura muito suspeita que ameaçava o regime. O primeiro livro estranho encontrado foi levado e queimado na rua por ter a capa vermelha. Era uma Bíblia doada aos líderes sindicais do mundo inteiro pelo Papa João XXIII, durante uma solenidade de São José Operário, em algum 1º de maio. Mas, como estava escrita em latim e, ainda, com capa vermelha, só podia ser coisa de comunista ateu (risos). "O Capital", livro de Marx, permaneceu incólume, pois tinha capa preta e edição discreta. Agora, nos tempos do usurpador golpista temerário, do deputado Bolsonaro, que elogia torturadores na sessão do impeachment, de Eduardo Cunha, que apronta todas e nunca vai preso e dos parlamentares obscurantistas, uma professora do Paraná foi afastada da escola - pasmem! - por ensinar as teorias de Karl Marx na aula de sociologia, coisa que consta do curriculum de qualquer escola brasileira, americana, inglesa ou japonesa que preze por oferecer um ensino de qualidade.
A julgar pelo ridículo e pelo desmonte das políticas públicas que o governo golpista está operando em apenas dois meses, todos os professores de História, Ciências, Sociologia, Geografia e Filosofia que se preparem, pois a nova ditadura "temerária" brasileira, que pôs fim à Nova República inaugurada por Tancredo Neves em 1985, vai em breve nos censurar e perseguir por ensinar Paulo Freire, Milton Santos, Guerra Fria, evolucionismo darwinista, cultura afro-brasileira e indígena, teoria do subdesenvolvimento e o artigo 5º da Constituição de 1988, aquele que trata sobre os direitos dos cidadãos e cidadãs do Brasil.
Não bastasse querer elevar a aposentadoria para 70 anos, entregar o pré-sal para as multinacionais americanas, aumentar a jornada diária de trabalho de oito para doze horas, agora é a tal da "Escola Sem Partido", defendida pelo ator pornô Alexandre Frota na visita que fez ao Ministro da Educação do governo golpista de Temer, ainda em maio.
Fora Dilma! Bem-vinda nova ditadura! A história se repetindo, como em 1964. Quantos serão torturados e mortos novamente?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Sem Dilma não tinha obras em Taiobeiras

Dilma Rousseff e o PT são vítimas de um terrível ódio em Taiobeiras. Ódio artificialmente cultivado e disseminado pela elite política, burocrata e econômica. Mas, a verdade, é que se não fosse Dilma, as obras inauguradas nos últimos dias (na área da saúde) e as em andamento (construção de creches, etc) não existiriam. Sem falar dos programas sociais, que ajudam os pobres e trabalhadores, da cidade e da zona rural, a enfrentarem a crise e alimentam o comércio local. Tudo isto é propositalmente escondido do povo.
Pode-se criticar Dilma em vários aspectos, mas se não fosse o governo dela, a situação de Taiobeiras seria muito mais grave.
Vamos ver quando Michel Temer, o usurpador, conseguir reduzir os gastos com a saúde e a educação - e conseguir aumentar a idade para as pessoas se aposentarem - como que a situação vai ficar.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Texto do Levon: Vingança ou Perdão?

O que escuto ou leio em determinados comentários:

* "Bandido bom é bandido morto".

* " Tá com pena de bandido? Adote um".

O que Jesus disse?

* "Amai vossos inimigos".

* " Dai a outra face".

* "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra".

O que resume os direitos humanos?

* Garantir que o outro seja tratado com a mesma decência com que se quer ser tratado, ainda que você julgue que ele "não presta".

Não sou a favor de bandidos. Desejo apenas que haja punição com dignidade e, sobretudo, reeducação.

Se eu desejar a morte do bandido, ainda que seja o pior deles, em que serei diferente dele?

terça-feira, 5 de julho de 2016

Texto do Levon: Quem é o inimigo a ser morto?

Bem, o esperado está acontecendo.
Primeiro, demonizaram o PT e esconderam a podridão dos outros partidos (PSDB, PMDB, PP, PTB, etc.), muito maiores do que as do PT. E é fácil provar que são realmente muito maiores. Depois, tramaram contra Lula que, apesar de nem ser réu, não podia ser nomeado ministro, enquanto que o governo golpista está cheio de investigados na Lava-jato e em outras lambanças, sem contar Eduardo Cunha na presidência da Câmara, mesmo com a revelação das contas na Suíça. Em seguida, o impeachment de Dilma, mulher honesta, que não cometeu crime de responsabilidade. Agora, justamente no período eleitoral, bloqueiam a conta do PT. A desculpa, como sempre, é a de combater a corrupção. Mas só tem PT nesse emaranhado de 35 partidos políticos? É só desculpa. O objetivo é cortar o financiamento das candidaturas de petistas e deixar livres os demais. Justamente, os demais!
O tolo que acredita que a corrupção está sendo combatida com a destruição do PT deve achar que, enfim, o Brasil se tornará um mar de rosas. Pobre coitado! Asno!
É um golpe. O PT é apenas o símbolo do inimigo a ser combatido. Só o símbolo. O verdadeiro inimigo a ser "morto", extirpado como um câncer, é o pobre, é o trabalhador, é aquele que vai perder os poucos direitos que conquistou na última década, durante os governos petistas:
* Valorização do salário mínimo,
* "Minha Casa Minha Vida",
* PAC,
* ProUni,
* Fies,
* Brasil Sem Fronteiras,
* Luz para Todos,
* Água para Todos,
* Caminhos da Escola,
* Bolsa Família,
* Cotas para pobres, negros e indígenas,
* Políticas de proteção à mulher,
* Pronaf,
* Previdência social,
* "Mais Médicos",
* Escolas técnicas,
* Institutos federais,
* Concursos públicos,
* 14 novas universidades,
* Integração latino-americana,
* Inclusão de 40 milhões de pessoas retiradas da extrema miséria, etc...
Anos sombrios e terríveis pela frente, só porque você gritou "Fora Dilma e leve o PT junto". Prepare-se para sofrer.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Texto do Levon: Sabia

Sabe quando você luta com a alma e com o coração? Sobretudo porque tem ciência de que está lutando pelo que é certo, justo, bom e digno...
Sabe quando você tem certeza de que está do lado certo, ainda que a maioria lhe diga o contrário?
Pois é! É assim que me sinto na luta contra o golpe no Brasil, a favor da restituição do mandato democraticamente conferido a Dilma Rousseff pelo voto, desafiando as injustiças dos golpistas, dos fascistas e dos ignorantes. Eu estou do lado certo da história! E isto me alegra.
Faço o que a consciência tranquila me manda fazer. Isto é o justo. É pelo bem, mais dos outros do que de mim mesmo. Pouco me importa a rejeição ou os desdizeres dos que me chamam de cego, radical ou outras aberrações. Eu sou honesto e minha luta também. E tenho milhões de companheiros na mesma condição! Somos muitos!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Texto do Levon: Tico e Teco

A violência está insuportável: Mais armas para os homens de bem!
A crise econômica apertou: Mais liberdade para o mercado!
Os serviços públicos são ineficientes: Privatização já!
Crise na representação política: Individualismo!
Perdemos a eleição: Menos democracia para os incautos!
As crianças aprendem pouco na escola: Menos matérias críticas!
Uma maçã está podre no cesto: Joguem todas no lixo!
A água após o banho está suja: Joguem-na fora juntamente com o bebê!
Muita criatura humana que pensa e age assim.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Texto do Levon: Dialética

É pobre, é preto, é puta, é branco pobre, é indígena, é quilombola, é mulher consciente, é mulher pobre e preta, é menor, é sem terra, é sem teto, é de esquerda, é petista, é gay, é lésbica, é menor infrator, é empregado, é empregada doméstica: vale menos do que um cachorro de madame.
É rico, é aparentemente rico, é branco, é branco rico, é mulher-objeto, é madame, é empresário, é empreendedor, é dono de casa boa ou apartamento, é hétero, é machão, é menor infrator filho de rico ou de classe média alta, é dono de terras, é dono de imóveis, é patrão: vale mais do que Deus.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Texto do Levon: Ame e lute, apesar das pedras

Ame e lute, apesar das pedras
* Levon Nascimento
A visão, na terra da cegueira, ao contrário do ditado popular, segundo o qual traria a coroa ao detentor, torna-se motivo de disputa e segregação.
A coragem, na terra da covardia, é classificada como loucura.
A disposição para a luta, na terra da acomodação e do conformismo, é tratada como patologia social.
A capacidade crítica, na terra do infortúnio intelectual, é vítima da ditadura da mediocridade.
Mas sem elas - a visão, a coragem, a disposição para a luta e a capacidade crítica -, os cegos, os covardes, os acomodados, os conformados e os intelectualmente desafortunados pereceriam na bocarra da dominação.
É preciso lutar por eles, por amor, sem esperar outra retribuição além das pedras.

Texto do Levon: Seguir

Seguir
* Levon Nascimento
É Jesus...
Não te sigo para ter a benção da prosperidade material. Os bens materiais se enferrujam e apodrecem.
Não te sigo por causa de milagres espetaculosos. Eles só cabem em filmes hollywoodianos.
Não te sigo por causa de uma suposta moral elevada e perfeita, superior à das demais pessoas. Por conta dela, civilizações inteiras foram extirpadas em banhos de sangue.
Não te sigo por medo de morrer. Afinal, a todos ela vem, "ao fraco e ao forte", como disse teu amigo Francisco de Assis.
Então, por que ou para que te sigo?
Para que a adúltera não morra a pedradas;
Para que o cego enxergue;
Para que o filho ingrato volte à casa dos que o amam;
Para que o rico compartilhe seus bens;
Para que o paralítico volte a andar;
Para que a pescaria renda aos pescadores;
Para semear em terra fértil;
Para multiplicar o pão e repartir com a multidão;
Para possibilitar uma vida mais justa ao órfão, à viúva e ao pobre;
Por causa do peso de tua cruz.
Por causa do teu imenso amor.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Artigo do Levon: O oprimido e a opressão

A opressão não seria tão violenta e persistente se não contasse com o conformismo ou, até mesmo, a colaboração dos oprimidos frente aos opressores.

Os 350 anos da brutal e desumana escravidão negra no Brasil não teriam durado tanto se, num dado momento da história, muitos escravizados não tivessem começado a achar que aquilo era destino (sina) e, outros, a navegar no próprio sistema escravocrata, passando a colaborar com seus senhores em troca de pequenos favores, à forma de migalhas: os capitães do mato.

A dominação feminina em diferentes tempos ou em diversos tipos de sociedade, só foi possível graças ao fato da maioria das mulheres aceitarem a condição de submissas ao poder discricionário dos homens.

Igualmente, a exploração da mais-valia dos trabalhadores por seus patrões só se efetiva por que a grande parte do proletariado não toma consciência de classe e, efetivamente, não luta unida pela superação das relações capitalistas de trabalho.

No Brasil dos dias atuais, esta constatação se faz ainda mais evidente. Depois de um período de quatorze anos (curto interregno diante de sua longa história de espoliação pelas oligarquias),no qual um governo de origem popular (ainda que marcado pelo tal presidencialismo de coalizão, o qual desfigurou o projeto original das personagens principais deste período de poder), a população beneficiária de uma série de avanços sociais, que conquistou direitos e alcançou empoderamento real, foi conduzida ideologicamente, por força da grande mídia cartelizada, a desejar o impeachment do governo legitimamente eleito e a ansiar pela entronização no Palácio do Planalto de plutocratas que absolutamente em nada representam seus reais interesses de classe.

Desta forma, jovens foram às ruas contra a corrupção, por mais escolas e saúde. Recebem do novo governo a nomeação de velhos ministros que sempre defenderam justamente o oposto e, de quebra, sinaliza com o desmonte das políticas de inclusão na educação e na cultura. Mulheres com rosto maquiado de verde e amarelo bateram em panelas contra o governo da primeira mulher eleita para a presidência da República brasileira. Como pagamento, veem a extinção do ministério especial que tratava de políticas públicas para o sexo feminino, bem como um ministeriado totalmente composto por homens, fato que nem mesmo o último governo da ditadura militar tinha ousado. Assalariados de carteira assinada bradaram contra o primeiro governo oriundo das classes trabalhadoras. Em troca, veem o novo governo acenar para a flexibilização dos direitos tão arduamente conquistados e contidos na CLT, flertar com as cruéis terceirizações e acenar ao aumento da idade mínima para a aposentadoria, além da possibilidade do trágico fim da política de valorização real do salário mínimo.

Nenhuma das constatações anteriores retira a responsabilidade das costas da classe que historicamente se fez opressora sobre as demais. Atualmente, ela se encontra assentada nos barões da grande mídia, organizada em cartel de poucas famílias; nas grandes empresas dos capitais financeiro (bancos), industrial e comercial; na política tradicional das velhas oligarquias (partidos políticos de direita); e em setores do próprio Estado nacional, tradicionalmente ocupados por estratos da classe média identificados com os interesses da alta burguesia, a exemplo do que ocorre, em grande medida, no Poder Judiciário, no Ministério Público e nas corporações, como a Polícia Federal.

Porém, não invalida a análise de que é necessário investir para que o oprimido não mais se identifique com o opressor que lhe explora. Se isto não vier a ocorrer com urgência, o Brasil estará sempre sujeito a golpes daqueles que não se contentam em esperar as próximas eleições para ascender ao poder pelo voto democrático, configurando-se numa gigantesca república bananeira. Esta consciência se fará na Educação: teórica, ofertada nas escolas, e prática, no calor das lutas encampadas pelos movimentos sociais.