sábado, 4 de fevereiro de 2017

Artigo: O espírito do tempo

Publicado originalmente no jornal Folha Regional, n. 265, ano XIII, Taiobeiras/MG.

Por Levon Nascimento

Zeitgeist é a expressão alemã para “espírito do tempo”. Algo como “para onde o vento sopra”. O atual zeitgeist interrompe a civilidade e conduz a humanidade de volta à barbárie.

Ao final da segunda guerra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada. Era preciso apagar as manchas vergonhosas do nazifascismo e de Hiroshima e Nagasaki. Discriminação racial, perseguição ideológica, machismo, misoginia, xenofobia e totalitarismo foram combatidos com leis e educação nas nações modernas.

O “politicamente correto”, mais do que padrão de etiqueta, tornou-se a norma das sociedades civilizadas. Há 20 anos seria impensável um presidente-eleito americano, “republicano” ou “democrata”, ironizar uma pessoa com qualquer tipo de deficiência. Mesmo na esfera privada, se fosse flagrado, teria a carreira arruinada. Hoje é aplaudido.

A crise do capitalismo neoliberal de 2008, repetindo a tragédia da primeira metade do século XX, rompeu com isso e abriu espaço para o zeitgeist da falência das instituições reguladoras. O Estado nacional, a universidade, a instituição religiosa, a imprensa tradicional e as democracias já não guiam o homem comum.

O que antes era motivo de vergonha, hoje é exaltado orgulhosamente nas redes sociais ou reverberado com frequência no cotidiano real. Tornou-se “normal” disseminar o ódio contra as minorias, discriminar a pessoa negra, espancar ou matar a mulher que não se submete ao homem, repudiar as políticas afirmativas para as etnias vilipendiadas, aplaudir torturadores em sessões parlamentares, regredir na superação da homofobia, defender a morte, o tratamento indigno e as condições subumanas dos presidiários, golpear o Estado laico.

É o zeitgeist da era da pós-verdade. Com a internet, o homem comum tem acesso a todo tipo de informação às quais ele recebe e transmite. Num sistema ideal poderia ser a chance de democratizar a comunicação, mas se tornou o esgoto da alma humana. Mentiras se misturam a verdades e são propagadas em tempo real, confundindo, manipulando e nublando a vida social.

“Gente de bem” ou “pessoa honesta”, expressões de presunção e vaidade de quem pouco sabe sobre a complexidade da vida humana, tornaram-se bandeiras de difusão de ódio de uma classe média acuada pela perda de status econômico e confrontada pela ascensão de quem ela considerava subalterno.

Homer Simpson, o imbecil protagonista da série “The Simpsons”, fez-se de carne-e-osso e infesta os ambientes sociais com seu discurso infame, geralmente comemorando chacinas em presídios do terceiro mundo ou defendendo homens que ainda matam suas companheiras pelo decadente conceito de “legítima defesa da honra”.

Este zeitgeist permitiu o renascimento do nacionalismo xenófobo na Europa, a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a guinada à direita na América Latina e o golpe de Estado parlamentar no Brasil. Também é o responsável por uma onda mundial de retirada de direitos arduamente conquistados pelos pobres e trabalhadores. No Brasil, manifesta-se na aprovação do trágico congelamento dos gastos sociais por 20 anos e nas indecentes propostas de reformas trabalhista e previdenciária.

Qualquer tentativa de discurso racional ou de bom senso é combatida com violência simbólica e, não se duvide, pode chegar às vias de fato. Fundamentalmente, é a nova forma da igreja do Mercado adorar o deus Capital.

Uma das poucas vozes de respeito contra este zeitgeist é o Papa Francisco, sobretudo no atendimento aos refugiados que batem às portas do continente europeu, correndo das guerras patrocinadas pelo centro do capitalismo em seus países de origem. Não por acaso, ele enfrenta uma rebelião dos cardeais apegados ao velho farisaísmo clerical. Nas palavras do pontífice argentino, o mundo já vive uma terceira guerra mundial, velada e hipócrita, porém igual ou mais letal do que as anteriores.

Que o espírito do tempo não nos conduza à paz dos cemitérios.

* Levon Nascimento é professor de História em Taiobeiras/MG e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil e Fundação Perseu Abramo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Poeira, Pérola e Perdão

Por Levon Nascimento

Já fui tentado diversas vezes a "sacudir a poeira dos pés" para lugares, pessoas e situações que me indignam.

Vontade que só aumenta quando se trata de indivíduos com posturas fascistas, ingratas ou canalhas.

Certa vez, Jesus disse aos discípulos como deveriam agir com as cidades que não aceitavam a Boa Notícia, segundo Mateus 10,14-15...

"Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras, quando sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi até mesmo o pó de vossos pés. Em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade."

Anteriormente, ele já tinha falado "Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem" (Mt 7,6), provavelmente se referindo àquelas situações em que damos o melhor a quem não quer ou não valoriza o que recebe.

Mas estou me aguentando e fazendo um esforço para seguir outro ensinamento do mestre: "Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará" (Mt 6,15).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Poema livre - Taiobeiras


Taiobeiras
Caravana que passa
Rodoviária
Árvore tombada
Bala perdida
Encontrada
No corpo tombado
Corpo jovem
Sem remédio
Barraca
Trabalho tombado
Mensagem indireta
Desrespeito direto
Nossa terra
Que amamos
Água pouca
Muita hipocrisia
Ainda assim amamos
Cão que ladra
Taiobeiras

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O DVD do massacre amazônico se esgotou: a que ponto chegou o Brasil?

De acordo com a repórter Bruna Chagas, da Folha de São Paulo, o DVD com as imagens do massacre nos presídios do Amazonas se esgotou nas bancas dos camelôs. Que conclusões podemos tirar desta informação?

Primeira. A sociedade brasileira está doente. Sofre de sadismo.

Consultando o dicionário online se descobre que sadismo é um substantivo masculino que significa "satisfação, prazer com a dor alheia" e "extrema crueldade".

Pronto. É uma doença social. Está nos meios de comunicação, naqueles programas policiais de fim de tarde, tipo Brasil Urgente ou Cidade Alerta. Os adoecidos são aqueles que sentem um prazer quase que sexual quando as seguintes frases são ditas, escritas ou repetidas: "tem que prender", "tem que arrebentar", "pega, bate, esfola", "bandido bom é bandido morto", "tá com dó, leva pra casa", etc.

Segunda. O povo brasileiro se acostumou com a crueldade. Afinal, foram quase 400 anos de escravidão e massacre!

Era corriqueiro a senhora mandar cortar a orelha ou arrancar o bico do seio da negrinha bonita que despertava a libido do senhor de engenho. Era comum o bandeirante invadir a aldeia e retirar o bebê do útero da índia a golpes de facão. Normais as cenas como a de levantar Antônio Conselheiro da sepultura em Canudos, cortar a cabeça do cadáver e desfilar com ela pelas ruas de Salvador. Idem para Lampião e Maria Bonita.

Terceira. A violência é algo banal no Brasil e não desperta indignação. É mais fácil bater-panela porque o preço da gasolina aumentou. Claro, só se o preço for elevado durante um governo dos trabalhadores, porque nos governos da burguesia pode subir o tanto que for que ninguém pia.

Está na TV, nos filmes, nos games na internet, nas conversas familiares, no poder do patrão sobre o empregado amedrontado pela onda de desemprego, no político que movimenta grandes cifras para comprar os votos e fraudar a democracia, no governo golpista que estupra a Constituição para destruir direitos trabalhistas e previdenciários, na mãe que assassina o filho e toca fogo no corpo porque ele era homossexual, no ex-marido que invade a festa de réveillon para matar a ex, o filho de oito anos e as mulheres da família dela e ainda recebe apoio em comentários de rede social.

Quarta. A crueldade acomete principalmente as pessoas que se julgam "gente de bem" quando elas se omitem ou se acovardam de participar de qualquer possibilidade de transformação social, passando a tratar com ironia e humor de baixo calão o inominável e o inadmissível.

É como aquela gente que tem o prazer de publicar um vídeo ou uma foto de gente morta, esguichando sangue, seja num acidente automobilístico ou assassinada numa rua qualquer, mentindo para si mesma de que está apenas transmitindo informação pelo WhatsApp.

O primeiro passo para combater a violência é admitir que nós mesmos temos um coração violento, mesquinho, cruel e vingativo. E, a partir dessa tomada de consciência, converter-mo-nos para uma condição superior de civilização.

Mais educação!

sábado, 7 de janeiro de 2017

Que tempo é este? Por Levon Nascimento

Sob o escaldante sol de verão, árvores foram podadas
Crédito fotografia: Folha Regional
Em Taiobeiras é o abuso autoritário cortando árvores em plena onda de calor do verão ou sugerindo que os críticos são cães que ladram ou que devem tomar seu rumo na rodoviária. E a juventude continua morrendo diante da indiferença. A falta dágua deu uma pequena trégua.

No país, terrorista de extrema-direita mata mulher, filho e parentes dela e imbecis apóiam o sujeito nas redes sociais. Massacres ocorrem em presídios e o secretário de juventude do presidente ilegítimo afirma que tem que matar mais. Outra vez os imbecis "de bem" aplaudem no Facebook e no Whatsapp. Sem contar a PEC 55 e as reformas da Previdência e trabalhista, que retiram direitos dos pobres.

No mundo, Trump com seus racismos, machismos e xenofobias, a guerra interminável na Síria, os terroristas em geral, o esquecimento permanente da África e a rebelião dos cardeais conservadores contra o Papa.

Valha-nos, Deus!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

6 de janeiro: Os santos reis do oriente e a tolerância

Cultura popular e tolerância religiosa
* Por Levon Nascimento

O calendário litúrgico e a cultura popular celebram hoje o fim do ciclo do Natal com a festa dos Reis Magos.

Segundo o evangelista Mateus (2,1-2), que não cita o número de personagens, eles foram os primeiros a reconhecer a divindade de Jesus, pois vieram para adorá-lo: “Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo”.

Na bela canção “Ouro, incenso e mirra”, o poeta Padre Zezinho nos brinda com esta letra: “São três reis que chegam lá do oriente/ Para ver um rei que acaba de nascer/ Dizem que um é branco, o outro, cor de jambo/ O outro rei é negro e que vieram ver”.

Na verdade, é a tradição emendando a história para significar que os magos representam a universalidade das etnias humanas abertas à mensagem da tolerância cristã, tão em falta atualmente.

Outros, ainda, nos revelam seus nomes: Baltazar, Melchior e Gaspar. Seriam homens do “Oriente”, ou seja, de outras crenças, que vieram respeitosamente encontrar o “rei dos Judeus” recém-nascido a partir de suas experiências e conhecimentos em astronomia (ou astrologia!?). Credos que se reverenciam, ao contrário do fundamentalismo de alguns.

No Brasil, “Santos Reis” é sinônimo das folias cantadas de casa em casa, lapinha a lapinha, presépio a presépio, em humildade ritual de devoção, carinho e fraternidade.

Viva Santos Reis! Viva a fé simples, altruísta e compreensiva, que não se jacta melhor do que as demais! Todas elas carregadas da verdade de Deus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A marcha rumo ao fascismo brasileiro continua em 2017, Por Levon Nascimento

Li há pouco sobre a chacina de Campinas na noite de Réveillon. Li também a matéria contendo a carta que o assassino deixou. Ele matou ex-esposa, filho de oito anos e vários parentes e amigos dela, principalmente mulheres.

Na carta, o sujeito enumera uma série de imbecilidades que andam pela boca de muitos brasileiros, principalmente dos estúpidos seguidores de Bolsonaro e dos telespectadores de programas televisivos "mundo-cão" de fim de tarde, tipo o do Datena e o do Marcelo Rezende. Machismo, misoginia, "contra os altos impostos", a favor do porte de armas, chama mulheres autônomas de vadias, critica a Lei Maria da Penha ("vadia-da-penha" nas palavras dele), xinga Dilma Rousseff por "estimular as feministas", ataca os direitos humanos e os seus defensores.

Disse, ainda, que ia feliz para a cadeia porque lá teria várias refeições, salário pago pelo governo e que os defensores dos direitos humanos iriam lhe "puxar o saco"..., mas não manteve a palavra, cometendo suicídio ao final da barbárie.

Planejou o atentado para a noite de réveillon porque teria a oportunidade de matar não somente a "vadia" mãe de seu filho, mas "o maior número de vadias da família dela", segundo suas próprias palavras na carta.

Em relação ao filho, segundo a carta, deixou transparecer que era apenas um objeto em disputa com a mulher, que não lhe deixava aproximar. A típica vaidade machista falando mais alto do que o amor de pai.

Um ignorante típico, alienado como a maioria da classe média brasileira. Mas, sobretudo, um ser humano sofrendo da criminosa patologia fascista que vem irresponsavelmente sendo estimulada no Brasil desde que o golpe de Estado se sagrou vitorioso, seja pela mídia canalha ou pela omissão de um Poder Judiciário mais preocupado com os holofotes da política ou com a manutenção das regalias de casta do que em exercer o seu verdadeiro papel constitucional.

Não me cabe condená-lo. Precisamos condenar e destruir os valores invertidos da sociedade que o criou e o levou a cometer essa barbárie. Vamos continuar fingindo que não é com a gente?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Artigo: Foi um golpe de Estado

* Levon Nascimento

O ano de 2016 chega ao fim e tristemente constatamos de que nele houve um golpe de Estado no Brasil. Aliás, o golpe continua.

As massas médias vestidas de verde-e-amarelo (mas apaixonadas pela bandeira estadunidense), midiática e propositalmente desinformadas, foram levadas a acreditar que os governos do PT promoveram os maiores escândalos de corrupção da história do Brasil e que este partido gastava abusivamente o dinheiro público, para elas, razão da grave crise econômica. Como ter memória política não é um dos fortes dessa gente, as mentiras colaram feito visgo de jaca e ela pagou o mico do século ao ir às ruas defender o atraso fascista fantasiada de Batman tupiniquim. O mundo sentiu vergonha alheia.

Assim, o impeachment de Dilma Rousseff ocorreu sem maiores problemas dentro das podres instituições da República, capitaneado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, desencadeado pelo choro de perdedor de Aécio Neves, urdido pela traição de Michel Temer, açodado pelas seletivas decisões do juiz Moro, permitido pela omissão vergonhosa do STF e amplificado pela manipulação da Globo e das demais mídias do cartel brasileiro. E por motivo fútil: as tais pedaladas fiscais praticadas por qualquer governante brasileiro ou mundial sempre que se necessita remanejar recursos públicos de uma área para outra. Mais escandaloso ainda, sem que a presidenta fosse ré em qualquer tipo de processo. Uma mulher honesta derrubada por um bando de ladrões repugnantes.

Pergunte a qualquer brasileiro imbecilizado sobre o motivo de Dilma ter sido afastada da presidência e ele lhe dirá: “por causa da roubalheira e da corrupção generalizada” ou “ela acabou com o Brasil”. É o perfeito otário, sem meias palavras. Nunca ouviu falar do “Caso Banestado”, julgado pelo mesmo Moro ou da “Privataria Tucana”, nunca levada a juízo. Não se informa. Só recebe passivamente as rações diárias servidas pelo “Partido da Imprensa Golpista”, o PIG.

Na verdade, Dilma, Lula e o PT foram os bodes expiatórios. Não sou tolo a ponto de achar que não houve desvios éticos em seus governos. Porém, que qualquer pessoa minimamente séria sabe que são fichinhas perto do que os velhos profissionais da direita praticam à luz do dia desde o desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro. Fosse para acabar com a corrupção e equilibrar as contas públicas, a tal Lava-jato não estaria protegendo os maiores corruptos do país – do PSDB, do PMDB e do DEM – e o (des)governo Temer não teria ampliado a gastança de forma tão descarada – e com motivos extremamente fúteis, bem ao contrário do rigor dilmista. O fato é que o golpe de Estado veio para destruir a parte virtuosa dos governos petistas: os programas sociais, a melhora na distribuição de renda e a queda (ainda que tímida) da desigualdade social. Qualquer um que seja responsável saberá entender que os golpistas trabalham incessantemente para aumentar os privilégios da camada rica e esfolar os trabalhadores (aqui incluída a imbecil classe média que odeia o PT) e os pobres.

Mas o golpe foi além. Não somente as conquistas de Lula e de Dilma são os alvos do trator que tomou o poder. É o próprio pacto democrático instituidor da Constituição de 1988 que está em risco. Com a PEC 55 (a do corte de gastos em saúde, educação e seguridade) e a Reforma da Previdência (que deixa de lado militares, juízes e políticos, mas desce o cacete em todos os demais trabalhadores, especialmente as mulheres, os rurais e os professores, que terão as idades mínimas de aposentadoria unificadas em 65 anos de idade e 49 de contribuição), o que se pretende é dar marcha ré em direção à República Velha.

A Constituição de 1988, ao instituir o SUS (Sistema Único de Saúde), a gratuidade e universalidade do ensino e o sistema de seguridade social, colocou o Brasil no mundo civilizado. Claro que esses sistemas nunca funcionaram a contento, pois se trata de uma Nação periférica do sistema capitalista, cheia de incongruências estruturais, mas a simples menção disso no ordenamento jurídico maior dá a direção do projeto daquilo que o país desejava se tornar.

A camarilha golpista que assumiu o poder com a destituição de Dilma Rousseff é uma coalizão escabrosa que une os velhos e corruptos coronéis do PMDB, os lesa-pátria sofisticados do PSDB, as corporações intocáveis do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e dos militares, o baixo clero do Congresso (especialmente a bancada religiosa), a falida FIESP (do pato que os idiotas vão pagar) e a grande mídia brasileira (sob a batuta da indefectível Globo). Todos sob o comando unificado e perverso do mercado financeiro, o qual leva 45% de tudo o que os brasileiros produzem na forma de juros e pagamentos da dívida pública.

Essa turba, blindada pela ignorância do brasileiro médio, que detesta o PT e tudo quanto lhe lembre que também é proletário e pobre, está literalmente destruindo o país, a Constituição de 88, as instituições, a economia real e qualquer sonho de uma Nação soberana para o futuro. E dá-lhe PEC 55, reforma da previdência e ampliação do estado de exceção (aliás, a regra no país dos golpes).

Foi um golpe de Estado. Aliás, é um golpe, enquanto a economia patina rumo à depressão. E ele tende a se ampliar, porque golpes sempre são seguidos de ditaduras. É um golpe contra você, ainda que tenha acreditado que a grande culpada de tudo era a dona Dilma.

* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em "Estado, Governo e Políticas Públicas" pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais - Flacso Brasil.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A naturalidade do não ter

As pessoas das metrópoles têm necessidade de tudo. A mãe com o filho no colo que pede os trocados à mão. O homem que pergunta se não tenho uma blusa extra porque ele sente frio e está chovendo. Outra mãe com criança de colo pedindo moedas. Gente debaixo do viaduto morando entre papelões e lonas, aparentemente conformadas. Pessoas passando e olhando com naturalidade àqueles moradores de rua.  O jovem que pergunta se tenho um vidro de perfume ou desodorante porque ele não pode comprar um e nem ao menos pasta de dente. Cenas da rodoviária de BH e entorno nesta tarde chuvosa de 15 de dezembro.

Naturalmente.

Saudades dos 80


Quem viveu a infância nos anos 80 foi premiado com um universo cultural colorido e despojado, mágico e... cafona. E que ficou imortalizado na memória.

Eu gostava demais de assistir He-man, She-ra, Caverna do Dragão e Thundercats.

Talvez, a saudade que resta, apesar da simplicidade dos roteiros, seja da moral daquelas histórias: perdão e novas chances ao adversário, fosse ele o Esqueleto, o Hordak, o Vingador ou o Mumm-Rá.

Essa histeria justiceira dos fascistas de hoje não teria vez naquela época.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Taiobeiras: 63 anos, por Levon Nascimento

Crédito: Da página do Folha Regional no Facebook.
Como te celebrar, Taiobeiras
Se tu matas teus jovens nas guerras, de violência e de indiferença?
Como te celebrar, Taiobeiras
Se tu és tão irresponsável a ponto de não prevenir água potável para teus filhos?
Como te celebrar, Taiobeiras
Se tu degradas a democracia não te envergonhando da compra de votos?
Como te celebrar, Taiobeiras
Se tu preferes a ostentação de uns poucos ao bem-estar da maioria?
Como te celebrar, Taiobeiras
Se tu te deixas dirigir por ideais de rancor fascista, ao invés da generosidade benévola?

Ainda assim, vou te celebrar, Taiobeiras
Porque tu és a terra humana
Contraditória e terna
Que escolhi para viver
E porque tu, Taiobeiras
Se oportunidades forem construídas
Para teus filhos esquecidos
Tens a possibilidade de mudar...

Desejo-te, minha querida Taiobeiras
Em teus 63 anos de cidade
Como presente
Que tenhas sede de mudança
Tão somente.

sábado, 26 de novembro de 2016

A gente folclórica de Taiobeiras

* Levon Nascimento

Taiobeiras (e, geralmente, as demais pequenas cidades) é ingrata com as pessoas que brilham ou que têm potencial para crescer no que fazem, especialmente no mundo do livre-pensar, da literatura, da música e das demais artes.

Tenho um tanto de amigos nesta situação. Podem até ser reconhecidos localmente (ou, vítimas da inveja, detestados), mas com o passar dos anos, imersos num mar de medianidade (para não usar termo mais forte, que poderia ser interpretado ofensivamente), tornam-se pitorescos, típicos e (por que não?) folclóricos.

São indivíduos julgados acima da média, mas que não encontram meios de crescer e de avançar por aqui. Tornam-se "pontos turísticos" da aldeia, "patrimônio histórico e cultural" e "museus" a ajuntar poeira da indiferença. Usados como decoração chique em momentos de necessidade especial.

Para os dias atuais, são o que o grande professor Juventino Nunes foi para Salinas na década de 1920: uma luz brilhante ofuscada pela truculência do coronelismo ignorante.

Isto decorre de vários motivos, dente eles a pouca demanda por serviços intelectualmente mais sofisticados, resultado do baixo nível educacional e dos seculares preconceitos em relação à cultura e às artes. Mercadoria de pouca saída. Mas é também fruto de uma política deliberada de negação do saber e de medo das transformações que ele pode provocar.

Para muitos concidadãos, só é gente por aqui quem anda de carro de luxo e ostenta grifes de primeira.

* Professor da rede estadual, escritor e mestrando em "Estado, Governo e Políticas Públicas".

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A República dos golpes

Deodoro da Fonseca
* Levon Nascimento
A República brasileira começou há exatamente 127 anos com um golpe de Estado contra o governo do imperador Dom Pedro II, não por apreço aos valores republicanos, mas em vingança à princesa Isabel, herdeira do trono, que um ano antes havia assinado a abolição da escravatura negra. Um misto de machismo e ódio de classe. Qualquer semelhança com a deposição de Dilma Rousseff em 2016 não é mera coincidência.
Golpe comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca (leia-se: os militares do Exército brasileiro, motivados pelo positivismo racista, última moda importada no final do século XIX). Atrás de si, um séquito de homens brancos, ricos, racistas e autoritários. Qualquer semelhança com o governo de Temer em 2016 não é mera coincidência.
De lá até aqui, é sempre com golpes de Estado que a elite brasileira se perpetua no poder. Uma lista longa: república do café-com-leite, "revolução" de 30, Estado Novo, golpe militar de 64, golpe parlamentar de 2016.

E, igualmente, é da mesma forma que combatem os movimentos sociais: Canudos, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Contestado, Intentona Comunista, Ligas Camponesas, movimento estudantil, MST, etc.

Aristides Lobo, naquele longínquo 15 de novembro de 1889, em que a República foi proclamada, narrou que "o povo assistiu àquilo bestializado". Continua a bestialização pela tela da Globo.

sábado, 12 de novembro de 2016

Doutrinação: professores e mídia

* Levon Nascimento

Indivíduos, grupos políticos ou regimes com características autoritárias sempre fizeram a aposta na burrice humana e na infantilização da opinião. Falam ao povo como se estivessem se dirigindo a uma criança de cinco anos. Dividem o mundo entre o lado do bem e o lado do mau. Inventam um inimigo, exageram no medo coletivo e o atacam através de ofensas de baixo nível, ao invés de utilizarem argumentos racionais. Este é o quadro momentâneo do Brasil. Esta é a triste realidade do mundo atual.

De Brasília a Taiobeiras, do norte ao sul, da boca de Michel Temer à cavidade oral de um pobre diabo que pensa que não será atingido pelo desastre que a PEC 241 (55) produzirá, o que se houve e se vê é a desqualificação de quem exercita a capacidade intelectual e moral de criticar.

“Estão aí protestando, ocupando escolas, mas nem sabem o que é PEC!” – dizem. “São uns vagabundos cabulando aula! Por que não vão estudar?” – rosnam. “É tudo doutrinado por esses professores comunistas” – mentem e acreditam na própria mentira.

Como não podem debater através da racionalidade, pois esta fatalmente acabaria por dar a vitória aos manifestantes contrários ao golpe de estado e à PEC, tratam de desqualificar, demonizar e ridicularizar os indivíduos e grupos que resistem à retirada de direitos. Isto é um fenômeno típico de fascistas.

O fascismo é um regime de direita que aparece nos momentos de crise econômica do capitalismo. É irracional, porque baseado na exploração do medo que as pessoas têm do diferente e do futuro.

Os regimes fascistas mais conhecidos e trágicos da história foram o italiano e o alemão. Nasceram e cresceram no período entre a primeira e a segunda guerra mundial (1918 a 1939), justamente em um momento de forte crise econômica (1929), de desilusão com a classe política e de medo dos inimigos internos e externos (judeus, dentro; e comunistas da Revolução Russa, fora).

O resultado desses regimes, todos conhecem: o holocausto judeu e a segunda grande guerra.

As primeiras vítimas do fascismo são o conhecimento e a razão. Pessoas críticas e inteligentes não são suportadas por regimes autoritários: civis, como agora; ou militares, como em 1964.

Neste contexto, querem implantar a lei chamada “Escola Sem Partido”, justamente para retirar dos educadores brasileiros o direito à liberdade de expressão em sala de aula. Acusam os professores, especialmente das matérias de humanidades, de estarem doutrinando os alunos para serem comunistas ou – mais hilário ainda – petistas bolivarianos.

É uma aposta na imbecilidade que poderá custar caro à inteligência do país. É proposital da parte de quem está no comando. É involuntário em mentes condicionadas pelo autoritarismo ou pelo servilismo social que caracteriza as relações históricas no Brasil.

Cidadãos críticos desestabilizam governos autoritários. Mentes que estudam não aceitam o alto grau de retirada de direitos e de destruição do Estado nacional, como o que ocorre no Brasil pós-golpe de 2016.

Juntamente com o ataque à Educação através do “Escola Sem Partido”, acontece a criminalização dos movimentos sociais. Os jovens que estão ocupando escolas são tachados de baderneiros e vagabundos. Sem-terras, sem-tetos, lideranças de partidos de esquerda e outros grupos de luta são perseguidos pelo aparato estatal como se fossem bandidos contumazes e perigosos.

Contraditoriamente, quem de fato pratica doutrinação é a grande mídia do país. As reportagens são tendenciosas e seletivas, sem a mínima preocupação de demonstrar imparcialidade jornalística. Praticam-se diariamente assassinatos de reputação, sem direito a defesa, contra os inimigos da grande burguesia nacional. Os programas policiais de fim de tarde atiçam o medo, o ódio e a vontade de vingança. As telenovelas e os demais programas incentivam o consumismo e a futilidade.

As massas que saíram às ruas para protestar contra a corrupção do governo petista, vestidas com a camisa amarela da corrupta CBF, foram “convidadas” pelas principais redes de televisão e por outros tipos de veículos de comunicação da grande imprensa. A cada meia hora, os canais de TV entravam ao vivo para mostrar e elogiar as manifestações, classificadas como pacíficas e democráticas. No entanto, o que se via era pessoas gritando: “somos milhões de Cunhas”, “morte ao Lula”, “nordestinos burros não sabem votar”, “pelo fim da ditadura comunista no Brasil”, “basta de Paulo Freire”, “Dilma vaca!”, “contra a invasão bolivariana no Brasil” e, mais recentemente, “contra a comunista Hillary Clinton” e “Trump, estamos com você”.

Democraticamente puderam sair às ruas para gritar palavrões contra a presidenta-eleita da República, sem sofrer nenhum tipo de repressão. Mesmo assim, afirmavam estar lutando contra uma “ditadura comunista e bolivariana” que iria mudar a cor da bandeira verde e amarela para vermelho.

No entanto, quando mil escolas brasileiras estão ocupadas por estudantes secundaristas e universitários contra os cortes em educação e saúde; quando milícias fascistas atacam os estudantes em ocupação sem qualquer reação das instituições do Estado; quando policiais invadem a escola do MST sem mandado judicial; quando índios são mortos por fazendeiros em suas próprias terras; e quando líderes de movimentos sociais são fichados como meliantes, nada é informado na TV. E quando mostram, é para por mais lenha na fogueira, desqualificando quem luta.

Burrices como estas e outras, gritadas nas ruas e nas redes sociais pelos zumbis amarelos, não são exclusividade do Brasil. No mundo inteiro, o fenômeno é o mesmo. Há um vento conservador e autoritário no ar.

Donald Trump ganhou a eleição presidencial dos Estados Unidos com um discurso parecido, apostando na irracionalidade, embalado em racismo e machismo, reverberando ódio e estimulando o medo do outro. Conseguiu até ressuscitar a defunta Ku Klux Klan, organização terrorista branca norte-americana que no passado lutou contra o fim da escravidão negra.

"Nosso objetivo é devolver a América à nação cristã branca. (...) Isto não significa que queremos que nada de ruim aconteça às raças mais escuras. Simplesmente queremos viver separados delas" – é o que está escrito em um manifesto dessa organização convocando uma marcha para celebrar a vitória do magnata de cabelos amarelos.

A onda fascista não aparece do nada. No entreguerras e agora, ela é fruto da grave crise econômica do capitalismo. Quando a grande burguesia sente que vai perder muito dinheiro, não hesita em abrir mão de seus próprios valores liberais: liberdade, igualdade e fraternidade. Atira-se sem pudores nos braços do autoritarismo de direita. No passado, Hitler e Mussolini representaram a válvula de escape. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos nada fizeram contra o führer enquanto ele parecia ser a solução para o inimigo comum, a comunista União Soviética. Só se deram conta do erro quando as bombas alemãs caíram sobre Londres. Paris, humilhada, viu o próprio líder nazista desfilar sob seu arco do triunfo. Na esteira da crise de 2008, estaríamos a reviver o passado?

O caso brasileiro é ainda mais grave. Numa nação marcada pela secular desigualdade, a onda fascista serve à Casa Grande, aquela pequena porção de bem nascidos que não engoliu até hoje os programas sociais, criados por Lula, que deram uma pequena chance aos pobres deste país. É sua arma para fazer o povo voltar à Senzala.

O melhor exemplo da verdadeira doutrinação que sofre o Brasil – a midiática – é ver que somente a corrupção atribuída ao PT gera revolta. Nunca se roubou tanto e tão descaradamente como nestes dias depois do afastamento de Dilma Rousseff, mas não se vê uma manifestação que seja de gente vestida de amarelo contra isso.

Os pobres professores brasileiros pagarão o pato da alienação nacional. Perigosos terroristas que são, deverão ser amordaçados para não corromperem a inocência da juventude canarinha. “Ordem e Progresso” aos nossos jovens! Inteligência, não!

Viva a burrice! Ela herdará a Terra.

* Levon Nascimento é professor de história e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais/ Seção Brasil.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Trump, o muro; Francisco, a ponte

* Uma crise econômica mundial em 2008, ainda não resolvida.

* A "primavera" árabe.

* O recrudescimento dos fundamentalismos de todos os matizes.

* A crise imigratória na Europa.

* O esquecimento sempre perene da África.

* A Rússia se preparando para a guerra.

* O cerco oligárquico aos governos progressistas da América Latina.

* Um golpe de estado parlamentar, jurídico e midiático no Brasil, em favor do capital financeiro e da desnacionalização dos recursos do país.

* Agora, a cereja do bolo: a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, cuja principal proposta é construir um muro na fronteira com o México. Não que Hillary Clinton fosse substancialmente melhor.

* Bem-vindos aos novos velhos tempos de direita.

Só nos resta o Papa Francisco como sinal de esperança!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Bandido bom é bandido morto?

Competição mercadista + consumismo + perca da referência de valores coletivos + estímulo constante à ambição + falta de educação libertadora + acesso precário à saúde + jornada de trabalho longa, que desune as famílias + desemprego +  lavagem cerebral da mídia comercial + drogas + intolerância + preconceito + machismo + racismo + misoginia + homofobia + agressões intra ou extra-familiares + retenção de recursos e políticas públicas insuficientes = alguns fatores da complexa cadeia que gera a violência cruel da atualidade brasileira.

Gritar "Bandido bom é bandido morto" sem levar em conta tudo isso é se tornar um ser humano pior do que o criminoso que se deseja combater.

domingo, 6 de novembro de 2016

Taiobeiras, por Levon Nascimento

A menina dos olhos
Do Alto Rio Pardo
Tanto chorou, chorou
Pelos filhos mortos
Na violência do consumo
Que sem lágrimas
E sem água
Ficou, secou.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O interminável 2016

Ana Júlia: "a menina que fala por nós".
* Levon Nascimento

Este ano ficará marcado na história do Brasil como aquele em que um golpe de estado foi desferido pela “treta” entre a mídia, o parlamento, o judiciário e as corporações estatais (ministério público e polícia federal) contra uma mulher honesta, a primeira brasileira eleita para a presidência da República, pelo motivo fútil das “pedaladas fiscais” – artifício anteriormente praticado sem nenhuma consequência grave por todos os seus antecessores – e pela adesão dos golpistas a todos os pressupostos ultraliberais e fascistas que põem em risco o Estado Democrático de Direito pactuado pela Constituição de 1988 e os direitos trabalhistas herdados da era Vargas. Não foram apenas Lula, as esquerdas ou os movimentos sociais os derrotados, mas as garantias mínimas para a construção de uma Nação civilizada que saíram gravemente feridas deste triste episódio.

Os erros do governo Dilma, típicos do presidencialismo de coalizão, e o agravamento da crise mundial do capitalismo no Brasil deram a senha para um impeachment sem outro fundamento senão a inconformidade do candidato perdedor de 2014 com a derrota que teve nas urnas.

Com o golpe, veio o fascismo. Exemplos se encontram na famosa “operação lava-jato”, seletiva até a raiz do fio de cabelo mais recôndito de seu magistrado-símbolo. As delações premiadas que revelam nomes de políticos do tucanato e da direita em geral são trancadas a sete chaves em gavetas mágicas, enquanto que o apuro desmesurado de supostas irregularidades na posse de sítios e de apartamentos que, por mais que se comprove não pertencerem ao presidente mais popular da história brasileira, servem para desgastá-lo e ao seu partido, judicial e eleitoralmente, à exaustão. Prisões temporárias convertidas em “perpétuas”. Calendário de operações com timing midiático e focado nas eleições. Rigor inquisitorial para petistas e leniência com fraudadores bilionários alinhados à banca financista. Torquemada, Mussolini e Franco teriam inveja.

O fascio também se faz notar na escandalização da opinião divergente. Ouve-se: “Ah, mas a menina que discursou no Paraná é filha de um advogado petista”. Escreve-se: “Tem escola colocando petista pra (sic) dar ‘palestra’ falando mau (sic) da PEC 241 com desculpa de q (sic) serve pro (sic) ENEM”. É como se o fato de ser petista ou esquerdista invalidasse o direito inalienável à opinião, à participação política ou obscurecesse as verdades contidas nos discursos de indivíduos ou de grupos sociais não alinhados ao pensamento dos golpistas. Em outras palavras: patrulhamento ideológico e censura.

No entanto, nada é mais sintomático do fascismo do que o sumiço das hordas de zumbis “apartidários”, vestidos de camisas amarelas, quando o assunto é a supressão dos direitos dos pobres e dos trabalhadores pelo governo golpista.

O Estado Democrático de Direito advindo de 1988 é solenemente atacado quando o Supremo Tribunal Federal, último guardião da Constituição, a pisoteia ferindo de morte o direito de greve, a permitir que governos “cortem o ponto” de grevistas do serviço público mesmo sem que a paralisação tenha sido declarada ilegal. Ou quanto a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é relativizada em favor de convenções coletivas ou acordos com o patronato. Além, quando um juiz de primeira instância manda invadir o Senado e outro, no Distrito Federal, ordena que a polícia aplique práticas de tortura psicológica em menores de idade, afim de que estudantes legitimamente exercendo sua cidadania desocupem a escola que lhes pertence.

Tal despropósito também se faz notar quando o Ministério da Educação (MEC), ao invés do diálogo com os estudantes que ocupam as escolas, prefere utilizar a velha tática de dividir para conquistar, colocando alunos contra alunos, como no caso do adiamento do ENEM para aqueles candidatos que fariam as provas nas instituições convertidas em espaço de resistência. Estes adolescentes lutam em seus educandários por contrariedade com a reforma arbitrária do Ensino Médio, por não aceitarem o projeto de mordaça denominado “escola sem partido” e indignados com a famigerada PEC 241, agora PEC 55 no Senado, a qual congelará os investimentos em saúde, educação e seguridade social por 20 anos. Vale lembrar que os TREs dialogaram com o movimento estudantil e conseguiram realizar o 2º turno das eleições municipais sem maiores transtornos. Por que o MEC não poderia fazer o mesmo com o ENEM? Canalhice, talvez a melhor resposta.

Os brasileiros ainda estão adormecidos ou intoxicados. Uns dormem o sono da negação da política, afirmando que “nenhum presta”, “voto nulo” ou que “é tudo ladrão”, do jeito que os programas policiais de fim de tarde lhes hipnotizaram. Outros estão envenenados pela lavagem cerebral midiática que lhes manda gritar “o PT quebrou o Brasil”, “fora PT” ou “Lula na cadeia”. Quando acordarem ou se descontaminarem, os direitos já terão sido retirados e o sonho de um país soberano e justo terá se convertido em pesadelo.

Por hora, à exceção de Ana Júlia Ribeiro, a adolescente de 16 anos que pôs o dedo na cara dos deputados paranaenses, não há sinais de esperança para 2017.


* Levon Nascimento é professor de história, graduado em Ciências Sociais e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.

sábado, 15 de outubro de 2016

Os erros do PT

* Levon Nascimento
A questão vai muito além dos erros do PT ou da esquerda. Erramos muito, com certeza, e estamos pagando por isso. Mas os ataques da direita se concentram justamente nos acertos e nas virtudes do PT, ou seja, nos direitos sociais, no fortalecimento do mercado interno e nas políticas de inclusão construídas nos governos de Lula e Dilma.
Para a direita nativa, é preciso confinar novamente a "negrada" à senzala, de onde nunca deveria ter saído. Onde já se viu pobre estudar em cursos antes reservados às "castas superiores"? Parece uma mistificação essa pergunta anterior, mas é exatamente como pensa o setor que foi às ruas, espumando de ódio fascista, nas tais manifestações "contra a corrupção" (dos outros), vestido de amarelo-cbf.
Mas, o atual momento também não pode ser compreendido fora do contexto mundial. Trata-se do rearranjo das forças do capital, golpeadas pela crise que se iniciou em 2008 nos EUA, buscando a qualquer custo manterem-se vivas. Para elas, o lugar destinado ao Brasil sempre foi e será o de colônia dócil, aberta sem resistência ao imperialismo do Norte. Nada de política externa ativa e altiva como na Era Lula!
Enfim, os pecados do PT e da esquerda foram vários e, talvez, imperdoáveis, mas nenhum foi maior do que ambicionar construir uma Nação mais justa e forte ao sul da linha do equador. E não há, nunca houve e nem haverá opção pura, sob o risco de continuarmos em nosso letárgico messianismo, sempre à busca de um salvador da Pátria.
O caminho é que os trabalhadores e os pobres se envolvam na política e a tornem parte de suas vidas
* Professor de História e mestrando em "Estado, Governo e Politicas Públicas" pela Flacso/FPA.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

As urnas falaram

Cantor e compositor Yure Colares, numa performance
política durante as eleições de 2016.
* Levon Nascimento

Na primeira eleição depois do golpe de estado jurídico-midiático-parlamentar, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, as urnas revelaram um Brasil bravo, arredio e revoltado com a política, a um passo da indiferença e do fascismo. Vejamos:

O PT foi a maior vítima. De seus próprios erros, dentre os quais o de acreditar que seria possível fazer política conciliando-se com a “casa grande” e utilizando os velhos métodos dela. Mas, também, da longa perseguição midiática que fez a maioria dos brasileiros acreditar que a corrupção nasceu com o partido de Lula e que somente o PT é corrupto. PSDB e PMDB, campeões de todas as listas de políticos mais corrompidos do país, saíram ilesos e vitoriosos na disputa. A mídia cartelizada, que odeia políticas públicas de inclusão social, foi a grande vencedora da rodada.

No Alto Rio Pardo, a mudança predominou, ainda que para mais do mesmo. Em Taiobeiras, apesar da reeleição do grupo tucano, não houve consagração. A diferença foi mínima e, a julgar pelo crescimento do candidato opositor na reta final, se a campanha eleitoral tivesse durado mais uma semana, o PSDB teria sido escorraçado do mapa político da cidade.

Em Taiobeiras, apesar de ser pleno século XXI, ainda há políticos que se utilizam da vulnerabilidade mais básica do ser humano, distribuindo cestas de alimentos aos necessitados, com a certeza de poder manipular uma das maiores conquistas da civilização moderna: o direito universal do voto. Pior, valendo-se de sujeitos hipócritas que se escondem por detrás da capa da caridade e da demagogia comunicativa de baixa extração.

Como não confio mais nas instituições brasileiras, sobretudo nas jurídicas, especialmente depois da vergonhosa deposição de Dilma Rousseff sem ter cometido crime de responsabilidade, sob o silêncio vergonhoso do STF e a cumplicidade do MPF, acredito que não se fará justiça quanto à escandalosa compra de votos registrada em vídeos e divulgada pelas redes sociais. Mas, muita gente, principalmente a juventude taiobeirense, crê e espera.

Neste item, um componente de esperança. O candidato Carlito Arruda conseguiu desprender uma valiosa energia jovem com sua campanha pela mudança em Taiobeiras. Ao tocar em temas-chaves para as políticas públicas, como água, segurança e educação, atraiu personagens novos que nunca se tinha percebido na política municipal. Os vídeos feitos por esses novos atores e espalhados na velocidade pós-moderna da internet, demonstram dinamismo, diversidade étnica e de gênero e pautas que nunca estiveram nas mesas dos políticos tradicionais. Agora, Carlito Arruda tem um tesouro nas mãos. Em tempos de neofascismo planetário, o empresário do ramo dos condimentos conta com um público marcadamente jovem, progressista e favorável às políticas públicas de inclusão social. Cabe a ele temperar na medida certa os próximos quatro anos.

2016 ainda não acabou, mas deixa a marca histórica como o ano em que os brasileiros desprezaram a política ao mesmo tempo em que o rico pré-sal é entregue de graça às multinacionais estrangeiras. Votos brancos, nulos e abstenções foram as celebridades da urna. Resultado da campanha sistemática de criminalização dos políticos e da democracia. Esse filme nós já vimos na Alemanha às vésperas da ascensão de Hitler e do nazismo. Oxalá, não haja reprise na sessão da tarde.

* Levon Nascimento é professor de História e mestrando em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso Brasil.

sábado, 27 de agosto de 2016

Artigo do Levon: O fim do governo da primeira mulher

Dilma e Lula na noite da vitória de Dilma em 2010
Está chegando ao fim o governo da presidenta Dilma Rousseff e os anos do PT no comando central da República. Injustamente, pois este final se dará por um golpe de estado parlamentar, midiático, judicial e institucional. Ela não cometeu crime de responsabilidade e é honesta. Nada se comprovou contra Dilma, que teve sua vida vasculhada de ponta a ponta. Pelo contrário, ofenderam-na desde o dia em que se soube que seria candidata à presidência da República. Na pessoa de Dilma, o machismo estrutural revelou sua face mais torpe e cruel contra todas as mulheres da Nação. Aliás, a primeira mulher a alcançar o mais alto posto do estabilishment brasileiro foi também a nossa chefe de Estado mais vilipendiada de todos os tempos.
Mulher de fibra, fiel aos princípios democráticos e de extremado amor ao povo do Brasil, Dilma Rousseff será deposta na próxima segunda ou terça, 29 ou 30 de agosto. Tristes agostos para a política brasileira!
Chegará ao fim um dos mais belos períodos da História deste país. Época em que, pela primeira vez, os pobres, os pequenos, os negros, as mulheres, os homossexuais, os marginalizados e os trabalhadores tiveram vez e prioridade nas políticas do governo brasileiro. Tempo de ouro que começou em 2002, com a eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva.
Dificilmente veremos, nas próximas duas ou três gerações, um tempo tão belo e frutífero quanto este que a ganância de nossa torpe burguesia, amparada por uma classe média néscia, fez se eclipsar.
Meu registo, nestes dias tão tristes, para a História. Eu vivi os dias de Lula e de Dilma na presidência do Brasil. Nunca houve governantes tão dedicados à causa do Brasil, tão empenhados em fazer melhorar a vida da maioria e tão barbaramente perseguidos nesta terra. Erros, cometeram, muitos. A autocrítica partidária deverá ser feita. Mas isto não apaga o brilho do que foi construído e conquistado. A História nos dará razão. Afinal, estamos do lado certo da História!
Levon Nascimento, 27 de agosto de 2016.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Artigo do Levon: A última carta de Dilma

Dilma Rousseff, primeira mulher a ser eleita presidenta
da República brasileira. Vítima de um golpe de Estado.
A carta proclamada pela presidenta-eleita Dilma Rousseff ao Povo Brasileiro e ao Senado da República, na tarde desta terça, 16 de agosto de 2016, tem tudo para se tornar um documento histórico.

Histórico porque representa a última ação, em favor da manutenção da democracia brasileira, de uma mulher íntegra, honesta, que não cometeu crime de responsabilidade, a primeira do sexo feminino a ser eleita e reeleita para o mais alto cargo do Estado brasileiro, conclamando a Nação a resistir a mais um golpe de estado. Lembre-se de que o Brasil é o país onde este tipo de golpe é a regra e não a exceção.

Dilma Rousseff teve problemas em seus governos, errou muito, mas acertou outro tanto. Buscou governar para os pequenos, os fracos, os pobres e os trabalhadores. Não teve jogo de cintura para lidar com a gula insaciável do mercado e nem com os gangsteres que povoam a política brasileira desde que Cabral pôs os pés em Porto Seguro. Talvez, aí esteja o maior erro de Dilma. Não fez concessões a Eduardo Cunha e sua gangue. Isto lhe custou o mandato conferido por 54 milhões e meio de brasileiros.

O petrolão, a Lava-jato, a piração religiosa em torno da polêmica do aborto, a misoginia, a imbecilidade política da classe média, o machismo e o racismo contra sua política inclusiva fizeram um inferno cotidiano sobre o qual Dilma Rousseff teve que ter estômago mais pródigo do que o de avestruz. Dilma foi duas vezes torturada: na ditadura passada (1964-1985), em favor da democracia; na ditadura midiático-judiciária dos golpistas hodiernos, novamente pelos valores democráticos.

Dilma Rousseff é uma mulher de fibra, como muitas brasileiras anônimas, autêntica e patriota. Pena que milhões de brasileiros levarão umas duas gerações até perceber que crucificaram a pessoa honesta e colocaram livres os verdadeiros bandidos, de quebra, entregando-lhes o poder sobre a Nação!

Na carta, Dilma pede a chance de voltar à presidência para convocar um plebiscito no qual os brasileiros escolheriam em manter o seu mandato até 2018 ou convocar novas eleições. Não acredito que a maioria do Senado, tão subserviente aos interesses do capital financeiro e seus próprios, inconfessáveis e particularistas, se comoverá. O "golpeachment" se efetivará. Dilma Rousseff e os anos de ouro dos governos do PT, nos quais pobre teve vez na agenda pública, ficarão para a História fazer justiça. Num primeiro momento, condenados pelo efeito da manipulação da manada. No futuro, como símbolo do Brasil que quase deu certo, não fosse sua elite perdulária e sua emburrecida classe média.

Hoje, sinceramente, não tenho mais esperanças na política e nem acredito em eleições num regime que depõe uma mulher honesta para entregar o poder a homens brancos, velhos, ricos e corruptos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Sobre "fakes" e esperança


Tenho a impressão de que aqui em Taiobeiras há uma fábrica de "fakes" nos porões "elitizados". Gente que tenta desesperadamente passar a ideia de que é ilibada, virtuosa e moralista. Na prática, escondida por detrás dos recursos tecnológicos, e sob anonimato, revela a obscura face degenerada, preconceituosa, racista, ególatra e cínica que a define como criatura humana - e ruge como um celerado infectado pelo vírus da raiva.
Há figuras respeitáveis nessa "elite", pelas quais, mesmo eu discordando das ideias ou da posição política, tenho enorme carinho e consideração. Pena, porém, das figuras pobres, apesar da boa renda e patrimônio. Moralmente, intelectualmente e politicamente pauperizadas e apodrecidas.
A minha esperança é a de que essas figuras do submundo, um dia, cheguem à maturação da civilidade. Apenas isto.